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Mostra do Masp sobre sexualidade supõe que qualquer nu liga-se ao sexo

Em meio a tantas manifestações contra a cultura e contra os museus, o que deveria ser uma exposição radical chique virou uma batata quente. Daí, o Masp recuou e proibiu para menores a exibição. Até o catálogo —livro de imagens com poucos textos curtos e simplistas— vinha com tarja proibindo a venda para os inocentes com menos de 18 anos! Coluna de Jorge Coli originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12/11/17. +

Post-porn é o que eu chamo, para meu uso pessoal, de pornô-cabeça e resumo assim: emprego da pornografia como meio de reflexão. Os debates em torno disso têm mais de 30 anos, mas atingiram um paroxismo nas artes dos últimos tempos.
Artistas e exposições que tomam a sexualidade como tema andam surgindo por todos os lados, e o Masp decerto não quis ficar na rabeira. Inventou a mostra intitulada "Histórias da Sexualidade", aberta mês passado.
A qualidade de várias das obras exibidas é muito alta, começando por aquelas que pertencem ao acervo do museu. A estas se juntaram outras, vindas de várias instituições e coleções particulares.
Mas o tema foi tratado de modo superficial. É verdade que o título autoriza juntar coisas sem grande rigor. Para ordenar um pouco, a curadoria estabeleceu tópicos que lembram o índice de algum manual: corpos nus, totemismos, religiosidades, voyeurismos, linguagens, performatividades de gênero e assim por diante.
A mostra pinça exemplos aqui e ali. Um pouco de cerâmica pré-colombiana, um pouco de Mapplethorpe, um pouco de Carlos Zéfiro, sem que nenhum desses pouquinhos conduza a qualquer aprofundamento.
Algumas obras estão lá sob pretextos forçados, como o autorretrato bigodudo de Gauguin porque ele se interessava pela androginia, ou a maravilhosa "Bailarina de 14 Anos" de Degas, ilustrando o voyeurismo —quando o Masp possui a coleção completa dos nus femininos em bronze desse autor, raramente mostrada.
A moda atual de expor produções de tempos históricos diferentes, comparando-as, é fecunda em certos casos. Aby Warburg foi o genial teórico que teve a ideia de fazer uma história da arte sem palavras em seu "Atlas Mnemosyne", no qual justapõe apenas imagens, fazendo intuir formidáveis relações.
A exposição do Masp sugere um Warburg simplificado, escolar e classificatório. Ela está vazada em museografia saturada, que dificulta a concentração.
A exposição não se deu conta de que existiram vários momentos na história em que as artes se vincularam fortemente ao sexo e, de modo voluntário ou não, os ignorou.
Nada trouxe do decadentismo baudelairiano, por exemplo: entre tantos outros, nem Gustave Moreau, Aubrey Beardsley ou Félicien Rops, este com suas obscenidades blasfemadoras. E nada de surrealismo!
Como imaginar histórias da sexualidade no campo das artes que ignore Delvaux ou Masson, as colagens de Ernst (na falta de telas) ou "A Pintura em Pânico", de Jorge de Lima, para ficar apenas em alguns poucos escolhidos ao acaso? Ok, apontar lacunas é fácil. Mas uma perspectiva minimamente histórica teria proporcionado alguma profundidade e coerência a um conjunto bem desconexo.
Tanto as roupas quanto a nudez podem ser marcadas pela sexualidade. Há roupas eróticas como há nus castos, e vice-versa. No Masp, a mostra supôs que um nu, qualquer nu, por si só, liga-se ao sexo.
Nisto —de modo involuntário, assim espero— coincide com os conservadores de hoje em dia (porque os antigos pelo menos sabiam da existência do "nu artístico" que se vincula à beleza, não ao sexo).
Tanto é que esses novos moralistas invadiram o MAM-SP por causa daquela performance em que a nudez era tão inocente. No caso do Masp, é difícil achar que "As Banhistas" de Manet ou o nu pequenino pintado por Flávio de Carvalho, com formas mal e mal sugeridas, tenham algo a ver com sexualidade.
No entanto, o problema que tem chamado mais a atenção na mostra surgiu de modo imprevisto. Imagino que, para negociar obras e obter empréstimos, a preparação deva ter exigido ao menos entre um ano e meio e dois.
Ora, as mentalidades mudaram muito rapidamente e a exposição começa no momento exato em que o moralismo no Brasil vem animado por uma histeria sem precedentes, vinculando-se a um futuro político de prognóstico aterrador.
Em meio a tantas manifestações contra a cultura e contra os museus, o que deveria ser uma exposição radical chique virou uma batata quente. Daí, o Masp recuou e proibiu para menores a exibição. Até o catálogo —livro de imagens com poucos textos curtos e simplistas— vinha com tarja proibindo a venda para os inocentes com menos de 18 anos!
E agora, graças à lúcida iniciativa do Ministério Público Federal, o museu voltou atrás, liberando a entrada com o acompanhamento dos pais: vexatória contradança.
A gravidade destes fatos não é circunstancial, porque significam um sintoma grave de autocensura. O MPF, por felicidade, tirou a camisa de força com que o Masp havia vestido sua própria inteligência.
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Coluna de Jorge Coli originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12/11/17.
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HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
QUANDO de ter. a dom., das 10h às 18h; qui., das 10h às 20h; até 14/2/2017
ONDE Masp, av. Paulista, 1578, tel. (11)3251-5644
QUANTO R$ 30, grátis às terças
CLASSIFICAÇÃO 18 anos

Masp para todos: Editorial da Folha de S. Paulo

O jornal "Folha de S. paulo" publicou em sua coluna de editoriais texto sobre nota técnica do Ministério Público Federal e a subsequente decisão do Masp de rever a proibição da mostra "Histórias da Sexualidade" para menores de 18 anos. +

Uma nota técnica do Ministério Público Federal e a subsequente decisão do Masp de rever a proibição da mostra "Histórias da Sexualidade" para menores de 18 anos, mesmo se acompanhados pelos pais, injetaram bom senso na controvérsia sobre a classificação etária de eventos culturais.
O veto, inédito na história do museu, foi adotado diante de circunstâncias incomuns que induziram seus dirigentes a preferir errar por excesso de conservadorismo.
Semanas antes da inauguração da exposição, ganhava corpo no país uma onda de pressões de movimentos conservadores contra o que entendiam ser uma espécie de abuso moral das artes em temas relativos à sexualidade.
Seria ocioso lembrar, não fosse o atual ambiente de polarização política, que é prerrogativa constitucional de qualquer cidadão, entidade ou grupo expressar livremente suas crenças e opiniões.
Nem por isso se justificam tentativas de silenciar pela intimidação a voz da qual se discorda —como infelizmente tem se verificado tanto à direita quanto à esquerda do espectro ideológico.
Os protestos começaram com ataques à mostra "Queermuseu", que acabou cancelada por iniciativa da instituição que a abrigava em Porto Alegre; também o Museu de Arte do Rio (MAR) acabou desistindo do mesmo evento.
Tais recuos deram aos manifestantes ânimo redobrado para prosseguir em sua ofensiva.
Foi nesse ambiente hostil que o Museu de Arte de São Paulo se viu às vésperas de inaugurar sua "Histórias da Sexualidade", prevista havia anos. A opção pelo veto, segundo a instituição, veio após uma consulta jurídica e se baseou no artigo 8 da portaria 368 (de 2014) do Ministério da Justiça.
O texto sugere a impossibilidade de os pais autorizarem o acesso de seus filhos a obras não recomendadas a menores de 18 anos.
No entanto, a norma, apesar de estar em vigor, suscita dúvidas consideráveis quanto a sua compatibilidade com a Constituição de 1988 —que, nesse aspecto, não pode ser considerada iliberal.
A Carta elimina a censura, recusa a tutela do Estado e estabelece que a classificação etária é apenas indicativa, cabendo aos pais decidirem se os filhos devem ou não, por eles acompanhados, assistir a este ou àquele espetáculo.
Em boa hora, a nota técnica da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão reforçou a leitura mais sensata da legislação com argumentos fartos e convincentes.


Masp trata sexualidade como pornografia em mostra superficial

A exposição no Masp (Museu de Arte de São Paulo), dividida em oito segmentos, explora a sexualidade, uma área tão vibrante e cheia de contradições na humanidade, de forma classificatória e frígida. Com isso, o conteúdo, apesar de vibrante na individualidade de cada uma das obras, no conjunto se torna superficial. Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 31/10/17. +

"Histórias da Sexualidade", a mostra que se tornou polêmica antes mesmo de sua abertura, por conta da proibição a visitação por menores de 18 anos, está muito distante do que se pode imaginar a partir da temática prometida pelo título.
A exposição no Masp (Museu de Arte de São Paulo), dividida em oito segmentos, explora a sexualidade, uma área tão vibrante e cheia de contradições na humanidade, de forma classificatória e frígida. Com isso, o conteúdo, apesar de vibrante na individualidade de cada uma das obras, no conjunto se torna superficial.
O primeiro segmento, por exemplo, Corpos Nus, reúne de obras-primas do museu, como "A Banhista e o Cão Griffon" (1870), de Renoir, junto a uma deslumbrante tela de Francis Bacon, "Estudo do Corpo Humano" (1949) e "David 10" (2005), de Miguel Ángel Rojas, entre as cerca de 30 selecionadas. Contudo, a repetitiva sucessão de nus aponta para uma quantidade excessiva que se assemelha a uma mirada cientificista.

BRANCO E NEUTRO

Ora, uma exposição sobre sexualidade merece um ambiente mais quente, mas a curadoria da mostra, tendo à frente o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, tende a ignorar o legado da arquiteta Lina Bo Bardi, tão fetichizado em sua gestão. As paredes brancas e neutras, que suportam as obras, apenas atestam a falta de ousadia ao tratar do tema.
Nesse sentido, o conjunto que se sobressai é o denominado "Religiosidades", ao mesclar o sensual retrato de São Sebastião, realizado por Pietro Perugino, entre 1500 e 1510, do acervo do museu, com uma foto de Robert Mapplethorpe, uma pintura de Leonilson, desenhos de Leon Ferrari e o vídeo de Virgínia de Medeiros, "Sergio Simone", entre outros trabalhos.
Aí, pode-se perceber como artistas ao longo dos séculos trataram de sexo e religião de forma complexa e crítica, o que também falta nos demais segmentos da mostra.

APELO

Finalmente, proibir uma exposição a menores de 18 anos e colar um selo no catálogo como o texto "Sexo explicito, violência, linguagem imprópria" é tratar a sexualidade como pornografia.
Um museu de arte não deveria se acovardar a esse ponto, até porque está apenas sucumbindo a pressões de grupos desinformados e mal-intencionados.
O que se vê no museu está longe de todo o sexo explícito disponível a qualquer um na internet. No atual contexto, "Histórias da Sexualidade" poderia ser um farol sobre o papel da arte e de suas instituições. Entretanto, nem a curadoria nem o Masp estão em condições de exercer o papel que lhes cabe.
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Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 31/10/17.

Revista Art Review divulga lista anual Power 100 nas artes em 2017

Pela primeira vez em 16 anos, a compilação anual dos 100 nomes mais influentes das artes plásticas em 2017 tem uma mulher no topo da lista: a artista, ativista e pensadora alemã Hito Steyerl, que ocupava a 7ª colocação no ano passado. O curador suíço Hans Ulrich Obrist caiu de 1º lugar em 2016 para 6º colocado este ano. O Brasil ocupa três posições na lista: a galerista paulistana Luisa Strina, que marca presença desde 2012 (subiu de 57ª para 49ª posição); o trio de galeristas da Mendes Wood DM (Felipe Dmab, Pedro Mendes e Matthew Wood), que seguraram a 91ª posição; e a galerista Vanessa Carlos, radicada em Londeres, onde dirige a galeria Carlos/Ishikawa. Texto de Celso Fioravante, editor do Mapa das Artes São Paulo, com informações dos portais https://artreview.com/power_100/ e http://www.touchofclass.com.br. +

A revista norte-americana “Art Review” divulgou em sua edição de novembro sua compilação anual dos 100 nomes mais influentes das artes plásticas em 2017. Pela primeira vez em 16 anos de lista uma mulher surge à frente do Power 100: a artista, ativista e pensadora alemã das artes Hito Steyerl, que ocupava a 7ª colocação no ano passado. O curador suíço Hans Ulrich Obrist caiu de 1º lugar em 2016 para 6º colocado este ano. A lista é organizada por um comitê anônimo de 20 especialistas.
Segundo a revista, Hito Steyerl está no topo, pois “tenta ativamente interromper esse nexo de poder Analisando narrativas históricas e políticas em relação à cultura e identidade digitais, Hito Steryl tem sido uma influência consistente sobre jovens artistas emergentes na Europa e em todo o mundo há mais de uma década”.
Quem também está rindo à toa é o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Bruno Latour que estreou na lista já entre os Top Ten (9º colocado). A bióloga, filósofa e escritora norte-americana Donna Haraway também não pode reclamar, pois foi a que subiu mais degraus nessa escada da fama, ao galgar 47 posições em um ano (pulou de 86ºlugar para 39º). Igual número de posições (47), mas em sentido contrário, foi o tropeço do artista argentino radicado no mundo Rirkrit Tiravanija, que caiu da 36º para 83º lugar. Parece que as teorias antropológicas, científicas, feministas e de gênero estiveram mais na moda em 2017 que as idealistas e generosas ações artísticas de Tiravanija.
O Brasil ocupa três posições na lista este ano. A galerista paulistana Luisa Strina, que marca presença desde 2012, subiu de 57ª para 49ª posição, talvez por ter sido a organizadora do evento Semana de Arte em São Paulo em agosto. O trio de galeristas da Mendes Wood DM (Felipe Dmab, Pedro Mendes e Matthew Wood) mantiveram a 91ª posição. A galerista Vanessa Carlos, que mantém em Londres a galeria Carlos/Ishikawa (www.carlosishikawa.com) estreou na lista em 100º lugar.
Artistas, críticos, pensadores e filósofos politicamente engajados são destaque nesta edição. A filósofa feminista Donna Haraway está em 3º na lista. O filósofo, sociólogo e antropólogo francês Bruno Latour estreia já na 9ª posição. Judith Butler também estreia, mas numa posição mais discreta: 48. O arquiteto israelense Eyal Weizman, fundador do Forensic Architecture Research, estreou em 94º. Entre os artistas super politizados é possível citar Ai Weiwei (13), David Hammons (19), Theaster Gates (23), Kara Walker (56), Kerry James Marshall (68), Arthur Jafa (81), Rirkrit Tiravanija (83) e Walid Raad (86), entre outros.
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Texto de Celso Fioravante, editor do Mapa das Artes São Paulo, com informações dos portais https://artreview.com/power_100/ e http://www.touchofclass.com.br.
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Veja abaixo a lista completa do Power 100 2017
1 - Hito Steyerl, artista (7ª em 2016)
2 - Pierre Huyghe, artista (24)
3 - Donna Haraway, filósofa (43)
4 - Adam Szymczyk, diretor artístico da Documenta 14 (2)
5 - David Zwirner, galerista (4)
6 - Hans Ulrich Obrist, curador e diretor da Serpentine Galleries em Londres (1)
7 - Iwan e Manuela Wirth, galeristas (3)
8 - Thelma Golden, diretora do Studio Museum, no Harlem (29)
9 - Bruno Latour, antropólogo, sociólogo e filósofo da ciência francês (estreante)
10 - Gavin Brown, galerista (27)
11 - Wolfgang Tillmans, artista (9)
12 - Adam D. Weinberg, director do Whitney Museum of American Art de nY (8)
13 - Ai Weiwei, artista chinês (10)
14 - Joan Jonas, artista (estreia)
15 - Larry Gagosian, galerista (6)
16 - Maria Balshaw, nova diretora da Tate Galleries (estreia)
17 - Glenn D. Lowry, diretor do MoMA de NY (12)
18 - Marian Goodman, galeriasta (13)
19 - David Hammons, artista (estreia)
20 - Monika Sprüth e Philomene Magers, galeristas (14)
21 - Marc e Arne Glimcher, galeristas (19)
22 - Massimiliano Gioni, diretor da Trussardi Foundation e diretor artístico do New Museum de NY (15)
23 - Theaster Gates, artista e ativista (16)
24 - Marc Spiegler, diretor da Art Basel (22)
25 - Nicholas Logsdail, Alex Logsdail e Greg Hilty, galeristas (28)
26 - Christine Macel, curadora da Bienal de Veneza de 2017 (17)
27 - Patricia Phelps de Cisneros, colecionadora e patrona (21)
28 - Bernard Arnault, colecionador, patrono e fundador da Fondation Louis Vuitton (41)
29 - Beatrix Ruf, curadora, adviser e ex-diretora do Stedelijk Museum Amsterdam (11)
30 - Daniel Buchholz, galerista (39)
31 - Maja Hoffmann, colecionadora, patrona e fundadora da LUMA Foundation (26)
32 - Eli e Edythe Broad, colecionadores e patronos (23)
33 - Miuccia Prada, colecionadora, fashion designer e dona da Fondazione Prada (45)
34 - Sadie Coles, galerista (31)
35 - François Pinault, colecionador e fundador da Pinault Collection (35)
36 - Michael Govan, diretor do Los Angeles County Museum of Art (34)
37 - José Kuri e Mónica Manzutto, galeristas mexicanos (32)
38 - Tim Blum e Jeff Poe, galeristas (25)
39 - Jeebesh Bagchi, Monica Narula e Shuddhabrata Sengupta, teóricos e curadores do Raqs Media Collective (86)
40 - Emmanuel Perrotin, galerista (44)
41 - Sheikha Hoor Al-Qasimi, president da Sharjah Art Foundation e da International Biennial Association (40)
42 - Zhang Wei e Hu Fang, fundadores do multidisciplinar Vitamin Creative Space, na China (55)
43 - Nato Thompson, diretor artístico do Creative Times (84)
44 - Hou Hanru, curador e diretor artístico do MAXXI, em Roma (71)
45 - Anton Vidokle, Julieta Aranda e Brian Kuan Wood, fundadores do e-flux website, jornal e outros projetos (37)
46 - Adrian Cheng, colecionador em Hong Kong (54)
47 - Jay Jopling, galerista (33)
48 - Judith Butler, filósofa de gêneros (estreia)
49 - Luisa Strina, galerista e fundadora da Semana de Arte (57)
50 - Christine Tohmé, diretora da Lebanese Association for Plastic Arts e curadora da 13ª Sharjah Biennial (49)
51 - Lorenz Helbling, fundador da Shanghart (76)
52 - Liam Gillick, artista, crítico, professor e escritor (67)
53 - Charles Esche, diretor do Van Abbemuseum (63)
54 - Jeff Koons , artista (30)
55 - Yayoi Kusama, artista (93)
56 - Kara Walker, artista (estreia)
57 - Klaus Biesenbach, director do MoMA PS1 e curador-chefe do MoMA (51)
58 - William Kentridge, artista sul-africano (62)
59 - Suhanya Raffel e Doryun Chong, diretor e curador-chefe do M+ Museum em Hong Kong (estreia)
60 - Philippe Parreno, escritor (estreia)
61 - Esther Schipper, galerista (56)
62 - Elena Filipovic, diretora do Kunsthalle Basel (estreia)
63 - Olafur Eliasson, artista (74)
64 - Barbara Gladstone, galerista (53)
65 - Thaddaeus Ropac, galerista (69)
66 - Massimo de Carlo, galerista italiano (64)
67 - Carolyn Christov-Bakargiev, curadora e escritora especializada em Arte Povera (61)
68 - Kerry James Marshall, artista plástico (estreia)
69 - Patrizia Sandretto Re Rebaudengo, colecionadora, aptrona e presidente da Fundação Sandretto Re Rebaudengo, em Turim e Madri (72)
70 - Claire Hsu, cofundadora do Asia Art Archive (68)
71 - Richard Chang, colecionador (52)
72 - Sunjung Kim, curador e presidente da Gwangju Bienniale Foundation (estreia)
73 - Tim Neuger e Burkhard Riemschneider, galeristas da alemã Neugerriemschneider (59)
74 - Anselm Flank, curador (85)
75 - Kader Attia, artista franco-argelino (estreia)
76 - Mario Cristiani, Lorenzo Fiaschi e Maurizio Rigillo, galeristas italianos (73)
77 - Chris Kraus, crítico e escritor (estreia)
78 - Cecilia Alemani, diretora da High Line (NY) e do programa Cities, da Art Basel (estreia)
79 - Hyun-Sook Lee, Galerista em Seul (77)
80 - Wang Wei e Liu Yiqian, colecionadores e patronos (87)
81 - Arthur Jafa, artista norte-americano (estreia)
82 - Tom Eccles, diretor executivo do Center for Curatorial Studies do Bard College (81)
83 - Rirkrit Tiravanija, artista argtentino radicado em Nova York, Berlim e Chiang Mai, na Tailândia (36)
84 - Riyas Komu e Bose Krishnamachari, artistas fundadores da indiana Kochi-Murziris Biennale (83)
85 - Haegue Yang, artista (estreia)
86 - Walid Raad, artista (65)
87 - Trevor Paglen, artista (82)
88 - Almine Rech, galerista (90)
89 - Marina Abramović, artista performática (46)
90 - Yuko Hasegawa, curadora chefe do Museum of Contemporary Art Tokyo (estreia)
91 - Matthew Wood, Pedro Mendes e Felipe Dmab, galeristas da Mendes Wood DM (91)
92 - Koyo Kouoh, fundador da Raw Material Company, em Dacar, no Senegal (75)
93 - Nadia e Rajeeb Samdani, diretores do Dhaka Art Summit, em Bangladesh (96)
94 - Eyal Weizman, arquiteto (estreia)
95 - Eugene Tan, diretor da National Gallery Singapore (94)
96 - Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador, fundador do jornal Savvy, em Berlim, e assistente de Adam Szymczyk na Documenta 14 (estreia)
97 - Amanda Sharp, Matthew Slotover, Victoria Siddall, Ari Emanuel e Patrick Whitesell, diretores de feira de arte em Los Angeles (66)
98 - Pablo Leon de la Barra, cuardor de arte altino-americana radicado no Brasil (97)
99 - Kiran Nadar, colecionador indiano (estreia)
100 - Vanessa Carlos, galerista brasileira radicada em Londres (estreia)

Masp retira proibição a menores

Depois de nota técnica do Ministério Público, museu decide admitir menores de 18 anos acompanhados de pais ou responsáveis em exposição sobre sexualidade. Matéria de Luana Fortes publicada no site da Revista Select, em 07/11/17. +

A exposição Histórias da Sexualidade, realizada no MASP com curadoria de Adriano Pedrosa, Camila Bechelany, Lilia Schwarcz e Pablo Leon de la Barra, foi inaugurada em 19/10 com classificação etária restritiva para menores de 18 anos. Ou seja, mesmo acompanhados de seus pais, adolescentes não poderiam visitar a mostra. A posição do museu acabou levando a muitas contestações de profissionais da área e ao menos uma ação judicial. Em meio ao debate, e também a uma onda de acusações caluniosas contra manifestações artísticas, o Ministério Público Federal (MPF) se pronunciou em nota técnica de 47 páginas, na qual versa sobre a liberdade de expressão na arte em face da proteção de crianças e adolescentes. O MASP, então, decidiu alinhar seu posicionamento ao da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do MPF e divulga hoje, 7/11, nota à imprensa tornando a classificação da mostra indicativa, em vez de restritiva. Veja a íntegra abaixo:

São Paulo, 7 de novembro de 2017

Nota à imprensa

Seguindo a orientação estabelecida pela Nota Técnica da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal nº 11/2017/PFDC/MPF, publicada em 6 de novembro (link aqui), o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP revisou a classificação etária de 18 anos para a exposição Histórias da Sexualidade, que deixa de ser restritiva e passa a ser indicativa. Desse modo, menores de 18 anos poderão visitar a exposição desde que acompanhados por seus pais ou responsáveis.
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Matéria de Luana Fortes publicada no site da Revista Select, em 07/11/17.

Ministério Público divulga nota sobre liberdade artística

Documento afirma que classificação etária é meramente indicativa no caso de obras de arte e exposições, no caso a Histórias da Sexualidade, no Masp, e, ainda, expõe em detalhes a legislação vigente quanto a liberdade de expressão, liberdade artística, os crimes de natureza sexual contra crianças e adolescentes. Não é a nudez que define a natureza pornográfica de uma cena, mas sim a finalidade sexual buscada pela cena. Matéria de Márion Strecker publicada originalmente no site da Revista Select (www.select.art.br), em 06/11/17. +

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do Ministério Público Federal, divulgou nota técnica em resposta aos recentes episódios de cerceamento a obras, exposições e performances artísticas apontadas como “imorais” ou de natureza “pedófila”.
Compete à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão coordenar e revisar a atuação dos procuradores regionais dos Direitos do Cidadão em cada Estado, subsidiando-os na sua atuação e promovendo ação unificada em todo o território nacional. O documento ressalta que é de “extrema importância compatibilizar os múltiplos direitos e interesses em questão, de forma a preservar, a um só tempo, os direitos de crianças e adolescentes e a liberdade artística”.
Publicada hoje (6/11) com data de 31/10/17, a nota é assinada por Deborah Duprat, procuradora federal dos Direitos do Cidadão, e por Sergio Gardenghi Suiama, procurador da República. O documento tem 47 páginas e está no site do Ministério Público (link para ler a íntegra http://bit.ly/2AgCgyk ). Cópias do documento foram enviadas ao Ministério da Justiça, ao Ministério da Cultura e ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

A nota técnica expõe em detalhes a legislação vigente quanto a liberdade de expressão, liberdade artística, os crimes de natureza sexual contra crianças e adolescentes e o sistema atual de classificação de diversões e espetáculos públicos.
Na última parte, a nota traz conclusões e sugestões de critérios interpretativos. O documento esclarece que o direito penal brasileiro não criminaliza nem sanciona a pedofilia, que é entendida como um transtorno mental. Mas a violência sexual (lato sensu) contra crianças e adolescentes é criminalizada. O Estatuto da Criança e do Adolescente tipifica qualquer “situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais”.
Não é a nudez que define a natureza pornográfica de uma cena, mas sim a finalidade sexual buscada pela cena. “Obras literárias, desenhos e outras representações gráficas não-realistas (isto é, que não envolvam nenhuma criança ou adolescente real) relacionadas à pornografia infantil, por mais ofensivas que seja, NÃO constituem ilícito penas em nosso ordenamento jurídico”.
Outra afirmação que não deixa margem a dúvidas é sobre a nudez. “A nudez não erótica NÃO torna o conteúdo impróprio para crianças, mesmo as menores de 10 anos”, afirma o documento.
“Em princípio, todas as formas não violentas de manifestação estão inseridas no âmbito da proteção da liberdade, inclusive manifestações desagradáveis, atrevidas, insuportáveis, chocantes, audaciosas ou impopulares,” ressalta.
A classificação etária é meramente indicativa, seja efetuada pelo Poder Público ou promotores do evento, não podendo haver impedimento de acesso de crianças ou adolescentes, especialmente quando estejam acompanhadas por seus pais ou responsáveis.
O que se conclui da leitura do documento do Ministério Público é que o MASP agiu contra a lei ao determinar a proibição para menores de 18 anos na exposição Histórias da Sexualidade.
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Matéria de Márion Strecker publicada originalmente no site da Revista Select (www.select.art.br), em 06/11/17.

Com Bíblia gótica e Leonardo da Vinci, Louvre de Abu Dhabi abre suas portas

O primeiro museu universal do mundo árabe será inaugurado na quarta-feira (8/11), uma década depois do lançamento do projeto. Esta "cidade-museu" foi construída na ilha de Saadiyat e é fruto de uma colaboração entre os governos francês e emiradense. No sábado é aberto ao público, com um programa de quatro dias de shows e espetáculos de artistas do mundo todo. Matéria publicada originalmente no portal Uol (www.entretenimento.uol.com.br), em 06/11/2017. +

O Louvre de Abu Dabi, o primeiro museu universal do mundo árabe, será inaugurado na quarta-feira (8/11), uma década depois do lançamento do projeto, com uma mensagem de tolerância como antídoto aos fanatismos.
Esta "cidade-museu", concebida pelo arquiteto francês Jean Nouvel, foi construída na ilha de Saadiyat e é fruto de uma colaboração entre os governos francês e emiradense.
O acordo, que estará vigente por 30 anos e alcança o valor total de um bilhão de euros, inclui a exploração da marca Louvre, que dá nome ao museu mais visitado do mundo, assim como a organização de exposições.
No total, 13 estabelecimentos franceses colaborarão com o novo museu, contribuindo com sua experiência e com o empréstimo de cerca de 300 obras.
A coleção permanente dos Emirados contará com cerca de 600 obras, das quais mais de 200 estarão expostas a partir da inauguração oficial, que contará com a presença do presidente francês, Emmanuel Macron, e do príncipe herdeiro emiradense, Mohamed bin Zayed.
A maioria das 23 galerias permanentes buscará refletir o intercâmbio entre culturas, desde a Pré-história até a atualidade, reunindo as obras ao redor de temas universais e de influências comuns.

"Mais universal que o Louvre"

Uma folha do Alcorão Azul, uma Bíblia gótica e um dos livros do Pentateuco serão alguns dos objetos expostos com vocação universal, assim como o quadro "La belle ferronière", de Leonardo da Vinci, - emprestado pelo Louvre parisiense -, e um autorretrato de Van Gogh, do Museu d'Orsay.
Para Jack Lang, presidente do Instituto do Mundo Árabe de Paris e ex-ministro francês da Cultura, o novo museu é "muito mais universal que o Louvre de Paris, porque traz a ideia de um museu de diferentes continentes e diferentes civilizações".
Também é um "projeto de esperança de um mundo que respeita as diversas opiniões e as diferenças", ante o "fanatismo" e o "terrorismo", disse Lang à AFP.
Mohamed Jalifa Al Mubarak, presidente da Autoridade do Turismo e Cultura de Abu Dhabi, declarou recentemente que o museu é símbolo de uma "nação tolerante e aberta à diversidade".
Os Emirados Árabes Unidos exercem uma política de "soft power" para ganhar notoriedade em todo o mundo, e empreendem uma disputa com o vizinho Catar, que tem estado particularmente ativo no campo do esporte, ao ganhar a organização da Copa do Mundo de 2022 e com a compra do clube Paris Saint-Germain.

7.850 estrelas

A arquitetura do novo Louvre é inspirada nas medinas árabes, com um conjunto de 55 edifícios brancos. Uma majestosa cúpula de 180 metros de diâmetro, composta por 7.850 estrelas de metal, filtra os raios de sol, criando o que Jean Nouvel chama de uma "chuva de luz".
O custo da construção do museu foi inicialmente estimado em cerca de 600 milhões de euros, mas sua conclusão foi adiada em várias ocasiões, devido a, sobretudo, problemas de financiamento.
O projeto não esteve livre de polêmica. Na França, algumas vozes se levantaram contra a "venda da marca" Le Louvre, e várias ONGs, como a Human Rights Watch, se mostraram preocupadas com as condições dos trabalhadores imigrantes nas obras.
Um dos maiores desafios foi garantir a segurança e a conservação das obras de arte, em um lugar onde as temperaturas ultrapassam 40ºC no verão. Nouvel afirma ter criado, com sua cúpula original, uma espécie de "guarda-sol" capaz de reproduzir um "microclima que reduz a temperatura em até cinco graus".
O Louvre de Abu Dhabi será o primeiro de três museus a abrir suas portas no distrito cultural de Saadiyat. Deverão segui-lo o Guggenheim, concebido pelo arquiteto canadense Frank Gehry, e o Zayed National Museum, pelo britânico Norman Foster.
Uma porta-voz do Guggenheim em Nova York disse à AFP que as obras para o museu de Abu Dhabi ainda não começaram.
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Matéria publicada originalmente em Entretenimento
do portal Uol (www.entretenimento.uol.com.br), em 06/11/2017.

Otto Naumann se aposenta e vende seu acervo na Sotheby"s

Após quase 40 anos colecionando pinturas dos Grandes Mestres, o acadêmico e negociante Otto Naumann se aposenta e coloca uma parte de seu acervo à venda na Sotheby's. Seu filho, Ambrose Naumann, abrirá um novo empreendimento no antigo espaço de seu pai. +

Após quase 40 anos colecionando e comercializando pinturas dos Grandes Mestres, o acadêmico e negociante Otto Naumann se aposenta do mercado de arte e coloca uma parte de seu acervo à venda na Sotheby's. Após sua saída, Naumann passará o bastão para seu filho, Ambrose Naumann, que abrirá sua própria galeria no espaço do Upper East Side de seu pai.
"O prédio será restaurado por completo, portanto todos terão que sair, e o meu aluguel está quase no fim, então pensei que era uma boa oportunidade para meu filho começar sua galeria e eu fechar a minha", disse Otto Naumann à Artnet News.
O tesouro do negociante, que será vendido em 311/2018 em NY, inclui pinturas e esculturas de mestres holandeses, italianos e espanhóis, tal como o recentemente atribuído “São João Batista na Natureza” por Giovanni Baglione (estimado em US$ 400.000-600.000); “Viejo castellans siriviéndose vino” de Joaquín Sorolla (US$ 200,000-300,000); e “Venus, Cupido e Pã” de Giovanni Bilivert (US$ 300,000-500,000).
Naumann disse que a remessa da Sotheby's "é mais ou menos todo o meu inventário em pinturas dos Grandes Mestres e do século XIX, muitas das quais não eram vistas no mercado há anos". Em um comunicado, George Wachter, co-presidente do departamento de pinturas dos Grandes Mestres da Sotheby's, nomeou a coleção como "um grupo deliciosamente eclético", incluindo trabalhos sobre cobre, painel, pedra e até vidro.
Naumann construiu uma reputação como revendedor de olho exigente e uma habilidade para trazer obras históricas recentemente atribuídas e negligenciadas no mercado. O fato de que ele já possuiu a “Minerva in Her Study” (1635), de Rembrandt, que, por US $ 40 milhões, foi o quadro mais caro dos Mestres Antigos no mercado em 2002, e tornou-o assunto da coluna "Talk of the Town" do New Yorker.
Embora ele tenha começado como um especialista em pintura holandesa e flamenga, Naumann ampliou sua experiência e começou a oferecer arte italiana, francesa, espanhola e britânica, bem como pinturas do século XIX, há 10 anos atrás. Como acadêmico em História da Arte pelas Universidades de Columbia e Yale, ele escreveu uma importante monografia sobre Frans van Mieris em 1981. Naumann anteriormente vendeu uma coleção de pinturas holandesas e flamengas pela Sotheby's em 2007.
Perguntado sobre seus planos para a vida após a galeria, ele disse que não tinha certeza, mas essa aposentadoria pode não parecer muito diferente do seu cronograma atual. "Será nas artes e provavelmente será em Grandes Mestres até o século 19, e provavelmente fará algum tipo de consultoria, compras com pessoas, achando pinturas, mas não tanto a parte da venda, que é a parte que nenhum comerciante de arte gosta. Eu gosto da compra".
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Matéria de Henri Neuendorf publicada originalmente no portal artnetNews (www.artnet.com), 02/11/17.

Como o Masp, que estava quase falindo, virou um museu capitalista

Em 2013, o Masp estava à beira da falência. Tinha uma dívida impagável e uma receita que mal cobria suas despesas. Diante dessa penúria e com risco de fechar as portas, Alberto Whitaker, então superintendente do Masp, procurou Alfredo Setubal para um empréstimo que lhe foi negado. Ao invés de liberar o dinheiro, Stubal decidiu se envolver num projeto de reestruturação e mudanças semelhantes às que acontecem em empresas em crise financeira. O museu passou a ser superavitário por um grupo de executivos do setor privado, com uma nova gestão e um novo estatuto. Assim, o poder de decisão da assembleia de associados deslocou para um conselho deliberativo, formado por 80 empresários, executivos e ex-executivos de empresas, advogados e investidores, entre outros. Matéria de Carlos Rydlewski publicada originalmente na revista Exame, em 03/11/17. +

O Novo Comando
Quem são os principais executivos do setor privado que ajudam a comandar o Masp

1 - Alberto Fernandes (vice-presidente da Divisão de Defesa da Embraer)
2 - Jackson Schneider (Presidente da Divisão de Defesa da Embraer)
3 - Alfredo Setubal (Presidente da Itaúsa)
4 - Geyse Diniz (Economista)
5 - Geraldo Carbone (Ex-presidente do Bankboston)
6 - Lucas Pessôa (Ex-executivo da Gestora Pátria)
7 - Alexandre Bertoldi (Sócio do Pinheiro Neto Advogado)

No ano em que completa sete décadas de existência, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) está imerso numa daquelas controvérsias de que é difícil sair sem ser criticado. Pela primeira vez desde que foi fundado, em 1947, o museu — que reúne a maior coleção de arte europeia fora da Europa e dos Estados Unidos — decidiu limitar o acesso a uma exposição. Apenas maiores de 18 anos poderão apreciar as obras da mostra Histórias da Sexualidade, em cartaz desde 20 de outubro. A direção diz que a censura foi recomendada por advogados depois da celeuma envolvendo a mostra Queermuseu, em Porto Alegre, que acabou cancelada em razão dos protestos de grupos conservadores.

Para os críticos, porém, a medida foi um exagero, e o museu se rendeu à patrulha ideológica. A polêmica acabou gerando publicidade para a exposição e houve filas nos dias iniciais. O curioso é que a crise ocorre num momento de renascimento do Masp: nos últimos anos, a nova gestão promoveu uma profunda transformação na instituição que é um símbolo da maior cidade do país.

Em 2013, o Masp estava à beira da falência. Tinha uma dívida impagável e uma receita que mal cobria suas despesas — algumas contas estavam atrasadas havia meses. Diante da penúria, corria o risco de fechar as portas e ter seu acervo, de mais de 8 000 obras, estatizado. Na época, Alberto Whitaker, então superintendente do Masp, procurou Alfredo Setubal, que era um dos principais executivos do banco Itaú, para pedir um empréstimo — que foi negado. Em vez de liberar o dinheiro, Setubal, atualmente presidente da Itaúsa, a holding que controla o Itaú, decidiu se envolver num projeto de reestruturação.

De lá para cá, o Masp passou por uma mudança semelhante às que acontecem em empresas em crise financeira. De 2013 a 2016, seu faturamento quadruplicou e chegou a quase 40 milhões de reais. Como as despesas estão em cerca de 38 milhões de reais por ano, o museu passou a ser superavitário. No mesmo período, o endividamento caiu de 75 milhões de reais para 40 milhões. Mas tão surpreendente quanto a melhora dos números foi a maneira como ela aconteceu.

Setubal procurou Heitor Martins, sócio da consultoria McKinsey que havia sido responsável pela guinada financeira da Fundação Bienal de São Paulo. Casado com Fernanda Feitosa, fundadora e diretora da SP-Arte, feira que acontece anualmente em São Paulo e reúne mais de uma centena de galerias nacionais e estrangeiras, Martins presidiu a Bienal de São Paulo de 2009 a 2012. Setubal sabia que o executivo tinha a ambição de dirigir o Masp, e os dois acertaram uma parceria. A dupla acreditava que qualquer mudança duradoura deveria começar com uma renovação do pessoal e da forma de administração do museu.

Desde sua fundação em 1947, passando pelo momento em que Elizabeth II, a rainha da Inglaterra, veio ao Brasil para inaugurar a sede na Avenida Paulista em 1968, até tempos recentes, a instituição passou por longos períodos de administrações personalistas. Pietro Maria Bardi, que fundou o Masp e era casado com Lina Bo Bardi, a arquiteta que idealizou o prédio flutuando a 8,5 metros do solo, ditou as linhas do museu durante 50 anos — embora, oficialmente, os diretores fossem trocados.

Nos anos 90, esse papel foi assumido pelo arquiteto Julio Neves. Esses líderes eram apoiados por um grupo de cerca de 30 associados, que comandaram o museu até 2013 e conheciam a fundo sua história e seu patrimônio cultural. A gestão das partes operacional e financeira, porém, era um problema: não havia processos para a tomada de decisões nem um acompanhamento financeiro periódico dos resultados gerais da instituição e das receitas geradas por bilheteria, loja e aluguel do auditório.

Antes de iniciar as mudanças na gestão, Martins e Setubal decidiram criar um novo estatuto para o Masp. Preparado pelo advogado Alexandre Bertoldi, sócio-gestor do escritório Pinheiro Neto, o texto tomou como base documentos similares adotados pelo Museu de Arte Moderna, o MoMA, e pelo Metropolitan, ambos em Nova York. O estatuto deslocou o poder de decisão da assembleia de associados para um conselho deliberativo, formado por 80 empresários, executivos e ex-executivos de empresas, advogados e investidores, entre outros. “O Heitor mostrava como seria a nova estrutura do museu, as bases da governança. Era tudo muito convincente”, diz Geyse Diniz, mulher do empresário Abilio Diniz, que é vice-presidente do conselho.

Hoje, o órgão é integrado também por Fersen Lambranho, sócio da gestora GP Investimentos, Flávio Rocha, dono da varejista Riachuelo, Luis Stuhlberger, sócio da gestora Verde, Roberto Sallouti, presidente do banco BTG Pactual e José Olympio Pereira, presidente do banco Credit Suisse, além do ministro Henrique Meirelles e de Alfredo Setubal, que preside o conselho.

Para fazer parte do grupo, era preciso doar 150.000 reais e assumir o compromisso de doar outros 35.000 reais por ano. “Nós precisávamos de dinheiro e queríamos atrair pessoas comprometidas com o museu”, diz Bertoldi. “Por isso, estabelecemos uma quantia razoavelmente alta, mas alguns conselheiros doaram valores bem maiores, que chegaram a 500.000 reais.” O resultado da iniciativa foi uma arrecadação de 15 milhões de -reais. Outros executivos tornaram-se diretores estatutários, caso de Jackson Schneider, presidente da divisão de defesa e segurança da fabricante de aeronaves Embraer, Geraldo Carbone, ex-presidente do BankBoston, e Alberto Fernandes, vice-presidente do Itaú BBA, além de Bertoldi.

Com a estrutura de tomada de decisões definida, Martins iniciou seu plano de reorganização administrativa. Fez um estudo e concluiu que era possível aumentar o preço do ingresso, o que elevou a arrecadação da bilheteria — a previsão é chegar a 5,3 bilhões de reais neste ano, uma alta de quase 200% em relação a 2013. As vendas na loja passaram a ser acompanhadas diariamente e foi feita uma análise do que era mais vendido e do que encalhava, permitindo uma melhor administração de compras e estoques.
Com isso, o gasto médio por visitante do museu passou de 1,5 real, em 2013, para 4,5 reais. “Fizemos o óbvio. Tínhamos bons ativos, bastava melhorar a gestão deles”, afirma Lucas Pessôa, diretor de operações do Masp e ex-executivo da gestora Pátria. Além disso, a dívida foi renegociada. Um dos credores, a empresa de telecomunicações Vivo, aceitou converter uma dívida de 35 milhões de reais em cotas de patrocínio por cinco anos. A dívida restante foi alongada, com pagamentos parcelados em até 20 anos.

Um museu bem administrado não é, necessariamente, um bom museu, do ponto de vista artístico. Para ser reconhecido como tal, precisa ter um acervo de qualidade e a capacidade de realizar mostras relevantes e bem cuidadas. Mas ter dinheiro acaba ajudando nisso também. A melhora dos resultados do Masp permitiu reforçar a equipe de curadoria. Hoje, existem seis curadores adjuntos, entre eles o mexicano Pablo Léon de La Barra (ex-Guggenheim), a historiadora Lilia Schwarcz e Rodrigo Moura (ex-Inhotim). “Trazer curadores adjuntos é um sonho que sempre tivemos. Mas nunca tivemos recursos para realizá-lo”, diz Julio Neves, que, com a reorganização, tornou-se presidente de honra do Masp.
As mudanças, porém, geraram atritos. O antigo diretor artístico, José Teixeira -Coelho Netto, substituído em 2014 depois de sete anos no cargo, chegou a processar a instituição e fechou um acordo de indenização. Pessoas próximas a Netto dizem que ele se sentiu traído no processo de mudança. O novo diretor artístico é Adriano Pedrosa, que foi curador da Bienal de Arte de São Paulo e da de Istambul e já foi apontado como uma das personalidades mais influentes da cena artística mundial pela revista britânica ArtReview, uma das mais respeitadas do meio.
A reestruturação resolveu o momento mais agudo da crise recente do Masp. O desafio, agora, é manter sua situação financeira saudável ao longo dos anos. Não é a primeira vez que o museu é resgatado por ricaços — em 2006, a luz chegou a ser cortada e a conta só foi paga com doações. É verdade que as mudanças atuais são profundas. Ainda assim, 70% das receitas da instituição vêm de patrocínios de empresas e doações — que podem minguar a qualquer momento. “Não queremos ficar aqui para gerir o museu”, diz Jackson Schneider. “Estamos para preparar nossa saída.”
Foi criada uma área de captação de doações e patrocínios, para recursos de empresas e indivíduos, aqui e no exterior. De 2014 a 2017, apenas com pessoas físicas no Brasil, foram captados 50 milhões de reais, sem isenções fiscais. “O que viabilizou nosso plano foi um projeto de governança, associado aos novos líderes”, diz Martins. “O dinheiro foi consequência.” O plano é abrir uma fundação nos Estados Unidos para receber contribuições com base nos benefícios fiscais previstos pela legislação americana, mais atrativos do que os brasileiros.

Em junho, o Masp também se tornou a primeira instituição cultural do país a criar um fundo de endowment, que é comum em universidades, museus e orquestras nos Estados Unidos. Esse tipo de fundo reúne doações e investe esses recursos — os rendimentos são usados para pagar parte das despesas da entidade. Depois de um tempo, o dinheiro é devolvido aos doadores, e novos recursos são captados. O fundo do Masp captou 15 milhões de reais em quatro meses, e a meta é chegar a 40 milhões de reais. O desenho da versão nacional tomou como base instituições americanas, como o J. Paul Getty, de Los Angeles, cujo fundo acumula 6,5 bilhões de dólares.

Na Europa, a maior parte dos grandes museus ainda recebe subsídios do Estado para se manter, mas o modelo começa a mudar. Os recursos públicos diminuíram depois da crise de 2008, e os museus vêm buscando fontes alternativas de receita. O Louvre, de Paris, está reforçando ações como a cobrança pelas obras que remete para exposições em outros museus.

O problema são os outros

Se o modelo do Masp vingar, poderá servir de inspiração para outros museus brasileiros em situação complicada. O país tem 3.500 dessas instituições. Estudos mostram que quase todas apresentam problemas em áreas como conservação do acervo, climatização, reservas técnicas, além de déficits de funcionários e público.

O Museu do Ipiranga, em São Paulo, está interditado desde 2013, quando um laudo técnico apontou o risco de desabamento. Recentemente, o governo de São Paulo lançou um programa para captar doações e, finalmente, restaurar o museu. “A profissionalização dos administradores, as estratégias adotadas, como a criação de um fundo patrimonial, e o engajamento das pessoas são exemplos de ações que podem, sim, ser aproveitadas por todos”, diz Marcelo Araújo, presidente do Instituto Brasileiro de Museus, órgão ligado ao Ministério da Cultura.

Araújo, que é ex-diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e faz parte do conselho do Masp, observa, entretanto, que o museu paulistano tem peculiaridades que o tornam único. “É um símbolo de São Paulo e atrai a atenção de todos. Isso ajuda muito”, diz. Especialmente na hora de captar recursos. Seu patrimônio, estimado entre 2 bilhões e 3 bilhões de reais, é formado por obras de Renoir, Degas e Monet, entre outros. Para Setubal, deixar uma instituição com esse acervo sucumbir seria como “morrer afogado numa poça d’água”. Por ora, o risco está afastado. O país agradece.
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Matéria de Carlos Rydlewski publicada originalmente na revista Exame, em 03/11/17.

O homem que morre rico, morre desonrado

Frase do o empresário e filantropo norte-americano, nascido na Escócia, Andrew Carnegie (1835-1919), o rei do aço, que ajudou a construir 2.800 bibliotecas nos EUA e uma infinidade de museus, salas de concerto, fundações e instituições de educação. Construiu ainda o Carnegie Hall e o Peace Palace. +

“O homem que morre rico, morre desonrado”. Quem dera que os milionáriso brasileiros pensassem como o empresário e filantropo norte-americano, nascido na Escócia, Andrew Carnegie (1835-1919), o rei do aço, autor dessa frase...
Mesmo com sua riqueza, Carnegie se preocupou com a justiça social e pregou o exercício da filantropia. Carnegie é tido como o primeiro empresário a declarar publicamente que os ricos têm a obrigação moral de repartir as suas fortunas acumuladas. Carnegie ajudou a construir 2.800 bibliotecas nos EUA e uma infinidade de museus, salas de concerto, fundações e instituições de educação. Construiu ainda o Carnegie Hall e o Peace Palace.
Seus esforços se manifestaram em várias formas de filantropia, entre eles a Carnegie Institute of Pittisburgh (1896), a Carnegie Institution of New York (1902) e a Carnegie Corporation of New York (1911). Em 1910 criou a Carnegie Endowment for International Peace, instituição não lucrativa direcionada ao entendimento diplomático das nações, que vigora até hoje. Em 1898, o magnata escocês escreveu o manual “O Evangelho da Riqueza”, onde defendia a riqueza em excesso como um fundo de confiança a ser administrado em beneficio da comunidade.
Casou-se com Louise Whitfield em 1887, fazendo-a assinar um contrato pré-nupcial aceitando a doação da maior parte da sua riqueza à propostas educacionais e de caridade.
Embora tivesse saúde frágil, Carnegie foi um dos maiores defensores da Liga das Nações, a primeira organização mundial nos moldes da ONU. Morreu em Lenox,Massachusetts (EUA), aos 83 anos, e cumpriu sua missão social doando em vida mais de US$ 350 milhões.

33ª Bienal divulga título, datas, orçamento e equipe de curadores

Na presença do presidente da Fundação Bienal, o empresário João Carlos de Figueiredo Ferraz, e do curador-geral foram anunciados o título da mostra (“Afinidades Efetivas”), a equipe curatorial e o time de curadores-artistas que se responsabilizará pela escolha dos artistas selecionados. Este lista será divulgada no primeiro semestre de 2018. Também foi divulgado o orçamento da mostra: R$ 26 milhões. +

A Fundação Bienal anunciou no último dia 31/10/17 as linhas gerais que nortearão a 33ª edição da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, cuja curadoria-geral já havia sido comunicada previamente e que ficará a cargo do curador espanhol, radicado em Nova York, Gabriel Pérez-Barreiro. A 33ª Bienal ocorrerá entre 4/9/18 (abertura para convidados) e 9/12/18. A abertura para o público será em 7/9/18.
Na presença do presidente da Fundação Bienal, o empresário João Carlos de Figueiredo Ferraz, e do curador-geral foram anunciados o título da mostra (“Afinidades Efetivas”), a equipe curatorial e o time de curadores-artistas que se responsabilizará pela escolha dos artistas selecionados. Este lista será divulgada no primeiro semestre de 2018. Também foi divulgado o orçamento da mostra: R$ 26 milhões.
O título da mostra surge da associação do título de um romance do escritor alemão Goethe (“Afinidades Eletivas”, de 1809) e da tese do crítico de arte brasileiro Mário Pedrosa “Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte”, de 1949).
“Resgato da atuação de Pedrosa o compromisso com a diversidade de linguagens artísticas, a convicção de que a arte é uma expressão da liberdade e da experimentação, a fé nos artistas e o papel social e transformador que a arte pode ter a partir de uma modificação da sensibilidade das pessoas”, declarou o curador-geral no release distribuído aos jornalistas. Sobre a influência do romance de Goethe, escreveu que as curadorias deverão se movimentar como o casal de personagens do livro, que recebe convidados que afetam diretamente a sua relação (como ocorre quando dois ou mais elementos químicos são reunidos).
A exposição será composta pela seleção de artistas realizadas por sete artistas selecionados por Pérez-Barreiro: o uruguaio Alejandro Cesarco, o espanhol Antonio Ballester Moreno, a sueca Mamma Andersson, a norte-americana de origem nigeriana Wura-Natasha Ogunji e os brasileiros Claudia Fontes, Sofia Borges e Waltercio Caldas.
A escolha de sete artistas-curadores pretende assim questionar o papel centralizador do curador nas decisões da arte contemporânea, mas Pérez-Barreiro também curará uma exposição, que deverá se centrar em artistas históricos, que deverão dialogar com as outras sete curadorias. “Farei um resgate da história da arte latino-americana acrescido de artistas contemporâneos e de obras comissionadas”, disse o curador-geral.
Segundo o presidente da Bienal, a 33ª Bienal deverá retomar discussões intrínsecas da obra de arte. “A mostra deverá discutir questões contemporâneas do território da arte, que é o território da estética, da poética”, disse Figueredo Ferraz.
A nova proposta deverá reduzir o número de artistas e de obras presentes na Bienal, o que deve levar a um tempo maior para a fruição dos trabalhos expostos. “Quero trabalhos com o espanto necessário para a observação da obra de arte”, disse Waltercio Caldas.
A Bienal divulgou ainda parte da equipe que ficará responsável por questões importantes da exposição, como os projetos educativo, expositivo e editorial. Álvaro Razuk ficará com a arquitetura do espaço. Lilian L’Abbate Kelian e Helena Freire Weffort serão responsáveis pelo Educativo. Fabiana Werneck responderá pelo projeto gráfico editorial e Raul Loureiro delineará a identidade visual de todo o evento.
A Fundação Bienal não divulgou o nome de nenhum artista da ostra (a não ser os nomes dos artistas-curadores, que poderão ter obras na exposição), mas revelou informações mais subliminares, como a escolha da tipografia Helvetica para a identidade visual da 33ª Bienal.
A tipografia Helvetica prioriza a clareza e a neutralidade de significados. Trata-se de uma fonte tipográfica sem-serifa e é considerada uma das mais populares ao redor do mundo. Foi criada em 1957 pelos designers Max Miedinger e Eduard Hoffmann e seu desenho é associado aos fundamentos do modernismo no design gráfico.
A 33ª Bienal está orçada em R$ 26 milhões. A Fundação Bienal conta com um orçamento geral de R$ 60 milhões para o biênio de 2017 e 2018, valor que custeia programa de mostras itinerantes, equipe permanente, manutenção predial, projetos especiais, organização das participações oficiais do Brasil nas Bienais de Arte e de Arquitetura de Veneza e outras despesas.
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Texto de Celso Fioravante, editor do "Mapa ads Artes"

Sotheby"s vende coleção de Martin Zweig de US$ 25 milhões

Entre as obras que compõe a coleção estão um Cézanne, um Degas e três Renoir. Matéria de Marion Maneker para o site Art Market Monitor (www.artmarketmonitor.com). +

Em sua nova temporada, a Sotheby's anunciou a venda da coleção do analista financeiro Martin Zweig. A fantástica ascensão de Zweig como um guru do mercado de ações começou com um boletim informativo e chegou a seu apogeu quando ele previu a queda de 1987 (Black Monday) na televisão uma semana antes de acontecer. Em anos posteriores, Zweig ficou mais conhecido por seu apartamento triplex no topo do hotel Pierre na Fifth Avenue, em NY.

A coleção de Zweig inclui uma rara natureza-morta de Cézanne, estimada entre US$ 7-10 milhões, e um Gustave Caillebotte, “La Place Saint-Georges”, estimada entre US$ 4-6 milhões. O restante da coleção contém duas obras de Degas, “Après le bain” com uma estimativa de US$ 5 a 7 milhões e uma cena de corrida de cavalos, o “Avant la course”, estimado entre US$ 3-5 milhões. Finalmente, existem três obras de Renoir, com uma estimativa de cerca US$ 5 milhões.
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Matéria de Marion Maneker para o site Art Market Monitor (www.artmarketmonitor.com).

Van Gogh inspira animação 100% feita com tinta a óleo em 65 mil quadros

A animação conta a vida e a controversa morte de Van Gogh por meio de entrevistas com personagens próximos ao artista e que foram retratados em suas obras. Os produtores Kobiela e Hugh Welchman criaram a primeira animação feita totalmente com tintas a óleo, e foram necessários 125 profissionais para pintar manualmente 65 mil quadros. O filme "Com Amor, Van Gogh" é exibido na Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo. Matéria de Arthur Cagliari publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo". +

Após ler mais de 800 cartas escritas por Vincent van Gogh (1853-1890), a polonesa Dorota Kobiela levou ao pé da letra o último texto do pintor, que diz: "Não podemos falar senão por meio das nossas pinturas".

Kobiela e Hugh Welchman criaram a primeira animação feita totalmente com tintas a óleo. Foram necessários 125 profissionais para pintar manualmente 65 mil quadros. O resultado é o filme "Com Amor, Van Gogh", exibido na Mostra.

A animação conta a vida e a controversa morte de Van Gogh por meio de entrevistas com personagens próximos ao artista e que foram retratados em suas obras.

O processo envolveu uma gravação com atores, como Douglas Booth e Saoirse Ronan. Depois, cada "frame" do vídeo recebeu uma pintura a óleo, ao estilo do holandês. Para executar esse projeto, com um trabalho manual em cada um dos quadros, foi necessário um processo seletivo para montar uma equipe de pintores.

Piotr Dominak, responsável pelas pinturas no longa, analisou mais de 5.000 portfolios. Somente 130 candidatos foram chamados para fazer cursos intensivos (sobre a técnica da pintura de Van Gogh e sobre animação), e apenas cinco não ficaram para o trabalho final.

Segundo a diretora, a maior dificuldade foi manter os mais de cem pintores no mesmo caminho para que seguissem um estilo único, e não o deles. "Tive de corrigir mais de 500 quadros por dia", diz à Folha.

Na época em que leu as cartas, Kobiela passava por um período de frustração.

"Queria fazer um trabalho próprio e pensava em criar séries de pinturas ou escrever o roteiro de um filme. Resolvi combinar os dois."

AMOR FORA DA TELA

O projeto se concretizou quando Kobiela conheceu Hugh Welchman, britânico que já tinha levado o Oscar com o curta "Pedro e o Lobo", em 2008, e estava na Polônia para produzir uma animação sobre Chopin.

Os dois acabaram se apaixonando. "Ele obviamente ficou interessado não só em mim, mas também nas coisas em que eu estava trabalhando", diz a diretora.

Para ela, desenvolver o filme foi como montar um quebra-cabeças gigante em que faltavam peças. "Ao ter que casar o roteiro com as obras escolhidas, mantendo fidelidade aos fatos da vida do pintor, não dava muito espaço para manobras."

O filme, que deve ser lançado comercialmente no Brasil em novembro, saiu do papel após mais de dois anos de testes e discussões.

Só depois de encontrar os primeiros financiadores e parceiros é que se pôde dar início ao projeto. O custo total foi de US$ 5,5 milhões (cerca de R$ 18 milhões).


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COM AMOR, VAN GOGH
(LOVING VINCENT)
DIREÇÃO Dorota Kobiela e Hugh Welchman
ELENCO Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Eleanor Tomlison
PRODUÇÃO Polônia, Reino Unido, 2017, 12 anos
MOSTRA sáb. (28) e dom; (29), às 21h40, no Espaço Itaú Frei Caneca; seg. (30), às 14h, no Playarte Splendor Paulista; ter. (31), às 22h45, no Cinesesc; qua. (1º), às 21h, no Espaço Itaú Frei Caneca
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Matéria de Arthur Cagliari publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”.

O Rapto das Sabinas

Seria melhor perguntar quem são e o que pretendem os incentivadores desse falso moralismo. Falso porque duvido que acreditem no que apregoam sobre os perigos da arte para as crianças, ou seja, tão desinformados a ponto de chamar um artista que se expõe como escultura viva, de pedófilo. Hoje, o processo é diferente, serve a um desabrido oportunismo eleitoral. Esse movimento que se denomina MBL, motor instigador dessa reação moralista ensandecida, não tem representatividade para, através de propostas reais para o país, se projetar. Matéria de Marta Suplicy para Tendências/Debates da “Folha de S. Paulo”. +

A moralidade, impregnada de visão de certo e errado, dogmas religiosos, sempre existiu e persiste. Diferentemente da época da minha avó, que mandou cobrir com folhas de parreira as partes íntimas da estátua O Rapto das Sabinas que ornava a piscina da fazenda, nós, crianças, usávamos os musculosos braços da estátua como trampolim.

Hoje, temos cidadãos de bem que acreditam piamente que a exposição de um corpo nu em obra de arte causará danos às crianças.
Quem são essas pessoas, vítimas de um movimento?

Seria melhor perguntar quem são e o que pretendem os incentivadores desse falso moralismo. Falso porque duvido que acreditem no que apregoam sobre os perigos da arte para as crianças, ou seja, tão desinformados a ponto de chamar um artista que se expõe, como escultura viva, de pedófilo.
Psicólogos e psicanalistas sabem muito bem a seriedade de uma perversão como a pedofilia, que, além de tudo, é crime! Assim como têm conhecimento de que uma criança exposta à nudez em obras de arte ou performances em museus não será afetada negativamente por tal exposição.
Podem até provocar perguntas curiosas que os pais respondem, ou não, de acordo com a pergunta e a idade da criança. Como o fazem em seus lares, diante de cenas de TV, ou se a criança adentra o quarto dos pais inoportunamente. Sexo faz parte da vida e, na arte, atua como uma expressão de manifestações da natureza humana.

Estamos rapidamente entrando em um clima de retrocesso civilizatório. Inicialmente percebido na dificuldade em se aprovar, no Congresso, projetos relacionados a direitos vitais para grupos minoritários e/ou vulneráveis, assim como recentemente com as proibições, em câmaras municipais, da introdução da questão de gênero nas escolas —o que já fazíamos com educação sexual nas escolas na gestão de Luiza Erundina em São Paulo (1989-1993), a convite de Paulo Freire, então secretário de Educação.

Há mais de 30 anos, esses temas, profundamente ligados à condição da subordinação feminina, já eram discutidos na TV Mulher, na TV Globo. As Senhoras de Santana e os generais reclamavam, a censura obrigava a enviar os textos para apreciação prévia.

Quebrávamos tabus naquele momento, saíamos de uma ditadura, seria até esperada uma reação, mas foi superada, e o benefício para as mulheres foi enorme: "um antes e depois" neste país de dimensão continental e com tantas e tão extremas desigualdades. Esperávamos nunca mais reviver isso!
Hoje, o processo é diferente, pois, aparentemente moralista, é falso e serve a um desabrido oportunismo eleitoral. Esse movimento que se denomina MBL, motor instigador dessa reação moralista ensandecida, não tem representatividade para, através de propostas reais para o país, se projetar.
Manipula, então, a boa-fé de alguns, o profundo desconhecimento sobre sexualidade de outros, o medo que os pais sentem pelos perigos que os filhos vivem diariamente diante da escalada da violência e da ausência de segurança.

Acrescentem a essas inseguranças o receio ao desemprego, a raiva frente à corrupção que corrói a sociedade e aos políticos acusados.
Esses sentimentos podem gerar forte sensação de impotência e serem negativamente instrumentalizados. O prato está pronto.
Resta saber que propostas serão oferecidas para a qualidade de vida do cidadão, sem esquecer o caminho de outros momentos da história mundial, nos quais a censura à arte foi precursora da proibição à livre expressão, com terríveis consequências para a humanidade.

MARTA SUPLICY, 72, é senadora pelo PMDB-SP; foi prefeita de São Paulo (2001-2004), ministra do Turismo (2007-2008) e ministra da Cultura (2012-2014)
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Matéria de Marta Suplicy para Tendências/Debates da “Folha de S. Paulo”.

Relatório sobre bilionários globais confirma o crescente poder de compra na Ásia

Um novo relatório sobre os bilionários globais confirma o crescente poder de compra de arte dos novos Mega-Ricos da Ásia. O mercado de arte segue o dinheiro, já que o número de ricos na China aumentou em 25% para superar os EUA pela primeira vez. Matéria de Eileen Kinsella publicada originalmente no portal do Artnet News (www.artnet.com), em 26/10/17. +

Os multimilionários em todo o mundo tiveram um bom ano em 2016 - no valor de US $ 1 trilhão, de acordo com um relatório conjunto do banco suíço UBS e da empresa multinacional de gestão de patrimônio Pricewaterhouse Coopers. "Billionaire Insights", publicado em 26 de outubro, afirma que 2016 marcou "um retorno dramático ao crescimento" para a fortuna de alguns dos indivíduos mais ricos do mundo, um número crescente de quem é da Ásia.
O relatório, que analisou os dados em 1.550 bilionários a nível mundial, descobriu que, pela primeira vez, há mais bilionários na Ásia do que nos EUA, embora a riqueza geral dos bilionários dos EUA ainda seja maior. O número de bilionários chineses cresceu quase 25%, para 637, em comparação com 537 bilionários dos EUA e 342 bilionários na Europa.
No geral, a riqueza dos bilionários aumentou 17% em 2016, o dobro da taxa do banco dos EUA, o Índice Mundial de Capital Internacional All Country de Morgan Stanley, que mede o desempenho do mercado de ações em todo o mundo e é composto por ações de 46 países diferentes. O relatório do UBS-PwC diz que o mundo ultra-rico está florescendo apesar de um período de maior incerteza. Após uma pausa em 2015, o aumento da riqueza total de bilionários aumentou de US $ 5,1 trilhões para US $ 6 trilhões.
O crescente poder de compra dos bilionários asiáticos e chineses, em particular, é refletido pelo número de galerias ocidentais que abrem postos avançados ou escritórios na China, sendo o último Lévy Gorvy, que anunciou no mês passado que abriria um escritório e espaço de exibição privado em Xangai. (A galeria contratou Danqing Li, ex-especialista em pós-guerra e arte contemporânea da Christie's, como diretor sênior responsável pela operação). Outros que abriram galerias em tempo integral no Continente ou Hong Kong, que incluem Pace, White Cube, David Zwirner e Simon Lee. A Hauser & Wirth anunciou em setembro que vai se juntar a Pace e Zwirner no novo desenvolvimento H Queens em Hong Kong na próxima primavera.
No mercado de leilões, Christie's abriu um escritório emblemático em Jinbao em Pequim no ano passado. No primeiro semestre de 2017, suas vendas para a Ásia totalizaram £ 247,1 milhões (US $ 325 milhões), confirma um porta-voz da Christie. Dos novos gastos de comprador, Christie's contou 45% do volume da Ásia e disse que 21% de todos os novos compradores vieram da Ásia. Geograficamente, os clientes asiáticos representaram 35% do valor das vendas, com gastos crescendo 39%.
A Sotheby's teve notícias igualmente dinâmicas, com o CEO Tad Smith dizendo, após a recente rodada de leilões de Hong Kong, "oferecer e comprar do Continente ao longo da semana foi significativo, com a maioria dos nossos 10 melhores vendidos para compradores na China. Sua participação ajudou a impulsionar um aumento de 42% nas vendas em comparação com um ano e trouxe nosso total anual de leilões importantes em Hong Kong a mais de US $ 810 milhões, o maior nível desde 2014. "
Algumas outras estatísticas-chaves da Sotheby's: compras asiáticas, já substanciais, cresceram três por cento no segundo trimestre de 2017; em 2016, 48% das compras por clientes asiáticos ocorreram fora das salas de leilão da Sotheby's Hong Kong, aprofundando uma tendência que começou a ser observada em 2013; e dos 10 melhores trabalhos vendidos pela Sotheby's em 2016, a metade foi comprada por compradores da Ásia.
O relatório da UBS observou que, embora o mercado de arte permaneça notoriamente opaco, o público ultrapessoal é um crescente número de melhores colecionadores do mundo (compilado pela lista anual da revista ARTnews dos 200 melhores colecionadores do mundo). Em 1995, observa o relatório, havia 28 bilionários na lista. Até 2016, esse número cresceu para 72.
Os colecionadores de arte dos EUA continuam a liderar, com 42 nomes na lista, mas os colecionadores de arte asiáticos e especialmente chineses estão cada vez mais ativos. Havia apenas um bilionário asiático há mais de uma década, em 2006, em comparação com 14 bilionários em 2016.
O bilionário japonês Yusaka Maezawa tem ficado por trás de algumas das compras de arte mais fáceis - especialmente das obras da Basquiat - vendidas em leilão nos últimos anos. Em maio, ele baixou US $ 110,5 milhões em “Untitled” (1982) em uma venda da Sotheby's. Na primavera passada, ele gastou US $ 98 milhões em arte, incluindo US $ 57,2 milhões para outra pintura sem título de 1982 pelo artista americano, desta vez na Christie's.
Antes disso, em 2014, o magnata dos empresários de táxi destruiu duas vezes o recorde da obra chinesa mais cara vendida em leilão, gastando US $ 36,3 milhões em um copo de frango de porcelana (que ele então procedeu a beber) em abril, e US $ 45 milhões em uma tapeçaria tibetana em novembro no mesmo ano.

No final de 2015, o bilionário chinês Li Yiqian comprou o “Nu couché” (1917-18), um nude de 170 milhões de dólares por Amedeo Modigliani, na Christie's.

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Matéria de Eileen Kinsella publicada originalmente no portal do Artnet News (www.artnet.com), em 26/10/17.

Universidade interfere em desenho de mulheres nuas e artista retira obra

A artista Simone Barreto teve sua obra coberta. Outros dois artistas retiraram suas obras em protesto. Simone ainda comenta que ainda foi abordada para escolher outro desenho. "É sobre esse corpo negligenciado que todo mundo já vira a página todos os dias. É um corpo que não pode ser visto, não pode ser debatido. Não é a mulher idealizada e objetificada pelo homem. É um corpo que tem sangue, pelo e cicatriz". Matéria de Rubens Rodrigues originalmente publicada no jornal O Povo em 17/10/17. +

O curador Ivo Mesquita selecionou 18 artistas cearenses para a XIX Unifor Plástica. No entanto, a edição que tem como tema "Uma constelação para Sérvulo Esmeraldo" foi aberta na noite desta terça-feira, 17/10, na Universidade de Fortaleza (Unifor), com uma ausência. Convidada para expor o trabalho "Todas as Coisas Dignas de Serem Lembradas", a artista Simone Barreto afirma que dois de seus 33 desenhos que abordam o corpo da mulher, desejo e sexualidade foram censurados. Ela optou por retirar da exposição toda a obra.

Em entrevista ao O POVO Online, Simone conta que montou a vitrine com seus trabalhos no último sábado, 14. No domingo, 15, ainda segundo a artista, representantes da Universidade teriam pedido que ela sinalizasse a classificação indicativa da obra. No dia seguinte, no entanto, lhe foi pedido que os dois desenhos fossem retirados ou trocados por outros. Em uma das figuras em questão, duas mulheres fazem sexo. Na outra, uma delas está com tinta vermelha simbolizando a menstruação. Simone recusou mudar os desenhos, justificando que a obra não faria sentido montada de outra forma.

"Eles disseram que eu poderia escolher outro desenho, virar a página. Para eles é muito simples, mas esse é o objeto do meu trabalho", afirma. "É sobre esse corpo negligenciado que todo mundo já vira a página todos os dias. É um corpo que não pode ser visto, não pode ser debatido. Não é a mulher idealizada e objetificada pelo homem. É um corpo que tem sangue, pelo e cicatriz".
Nesta manhã, 17, Simone diz que encontrou a vitrine onde seus cadernos estavam dispostos em local "escondido". "Eles disseram que os cadernos só ficariam lá se eu tirasse os desenhos. E o pior: eles cobriram. Deixaram só a cabeça de fora", relata.
Simone diz que a Universidade "interferiu diretamente" na obra. "Faculdade e museu são lugares de pensamento crítico, de discussão e arte", continua. "Mas disseram que a universidade é um lugar que recebe crianças, tirando o corpo de discussão". Ainda nesta noite, durante abertura da mostra, um grupo protestou contra a situação. Pelo menos dois artistas retiraram suas obras também em protesto.
Contatado, o curador Ivo Mesquita diz que acompanhou as "negociações" e que a decisão foi da Universidade. "Eu só posso lamentar essa situação desagradável". Ivo pediu para que a reportagem retornasse o contato uma hora depois, mas as ligações não foram mais atendidas. O curador é ex-diretor do Museu de Arte Moderna (MAM) na capital paulista e, em Fortaleza, fez a curadoria das primeiras mostras do Museu da Fotografia.

O POVO Online pediu para falar com dirigentes da Unifor que acompanham o evento, mas a assessoria de imprensa informou que só responderia por nota. Não houve retorno até a publicação desta matéria.
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Matéria de Rubens Rodrigues originalmente publicada no jornal “O Povo”, em 17/10/17.

Phillips vende Rolex de Paul Newman por US$ 17,8 milhões e bate recorde

O relógio Rolex de Paul Newman, estimado em US $ 1 milhão, seria o destaque do primeiro leilão de relógios da Phillips de NY. O que ninguém esperava era que o relógio Daytona, feito a mão, que o ator usava em filmes, festas e fotos para revistas, fosse vendido por US$ 17,8 milhões, depois de 12 minutos de aquecida disputa, e batesse o recorde mundial. Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site Artnet News, em 27/10/17. +

Observadores sabiam que o relógio Rolex de Paul Newman, avaliado em US$ 1 milhão, seria o destaque do primeiro leilão de relógios da Phillips de NY, em 26/10/17. Mas o quem ninguém esperava era que o relógio Daytona, feito a mão, que o ator usava em filmes, festas e fotos para revistas, fosse vendido por US$ 17,8 milhões.
A venda esmagou o recorde anterior para um relógio, US$ 11,1 milhões para um Patek Philippe de aço inoxidável, que a Phillips vendeu em novembro passado.
O "Paul Newman" ganhou status lendário na comunidade dos relógios, tanto porque é considerado um dos mais cobiçados do mundo (o jornal "The New York Times" o comparou com a "Mona Lisa" dos relógios) e porque, até o anúncio da venda, em agosto, poucas pessoas fora da família Newman sabiam onde ele estava.
O relógio foi dado a Newman pela esposa, a atriz Joanne Woodward, que o inscreveu com a mensagem "Conduz-me cuidadosamente".
O leilão foi um grande sucesso para a casa de leilões, com um total de US$ 28,8 milhões, o maior número para um leilão de relógios, com todos os 49 lotes vendidos.
"O mercado de relógios tem sido uma história de sucesso extraordinário e uma história de crescimento igualmente extraordinário", disse o CEO da Phillips, Edward Dolman, à Artnet News no início deste ano.
"Quem teria pensado que um Patek Philippe de aço inoxidável fosse vendido por mais de US$ 11 milhões em um leilão? Se você dissesse isso três ou quatro anos atrás, as pessoas pensariam que você estava louco. Mas é o exemplo perfeito de uma categoria que se beneficiou enormemente da riqueza global e do reconhecimento global".
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Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site Artnet News, em 27/10/17.

Embalos Noturnos - Entrevista com Nan Goldin

Nan Goldin tornou-se famosa com a projeção de slides conhecida como A balada da dependência sexual (1978-1996), uma coleção de retratos e momentos íntimos de amigos, amantes e artistas, feitos enquanto frequentava o antigo centro boêmio de Nova York. A dedicação com que investiu sobre os instantâneos fotográficos e a abertura com que expôs sua “tribo” fizeram com que seu trabalho influenciasse não só a fotografia de arte, como também a moda, o cinema e a música. Entrevista de Philip Larratt-Smith publicada originalmente no site da revista Zoom (www.revistazum.com.br), em 03/10/17. +

Nan Goldin nasceu em Washington, D.C., em 1953, e foi criada em Boston, antes de mudar-se para Nova York. Tornou-se famosa com a projeção de slides conhecida como A balada da dependência sexual (1978-1996), uma coleção de retratos e momentos íntimos de amigos, amantes e artistas, feitos enquanto frequentava o antigo centro boêmio de Nova York. A projeção foi apresentada pela primeira vez numa boate da cidade em 1979, acompanhada de trilha sonora. Com o tempo, a edição das imagens foi ampliada e reformulada até atingir as 900 fotos que a compõem, exibidas ao longo de 45 minutos. Em 2003, inspirada pela lenda de Santa Bárbara, Goldin criou a projeção Irmãs, santas e sibilas, que aborda o suicídio de sua irmã mais velha e sua própria luta contra a depressão. Um de seus trabalhos mais recentes, feito a convite do Museu do Louvre, é a projeção de slides Scopophilia (2010), em que justapõe sua iconografia pessoal a obras clássicas de pintura e escultura, numa meditação sobre temas universais como o amor, o sexo, a beleza e a morte. A dedicação com que investiu sobre os instantâneos fotográficos e a abertura com que expôs sua “tribo” fizeram com que seu trabalho influenciasse não só a fotografia de arte, como também a moda, o cinema e a música. Goldin conversou com a ZUM entre Berlim e Nova York.

Philip Larratt-Smith: Em janeiro de 2015, você participou de uma performance em Berlim. Vamos começar falando disso?

Nan Goldin: Adoro trabalhar em colaboração. É um projeto com um grupo chamado Soundwalk Collective. Estão na praça faz 15 anos, músicos eletrônicos e músicos artistas. Pediram que eu fizesse uma leitura, então li uma peça de David Wojnarowicz. Montaram uma construção sonora inteira em torno dela.

Eram poemas do Wojnarowicz ou trechos do livro de memórias dele, Perto da navalha (1991)?

Trechos de Perto da navalha, que é minha bíblia pessoal. Li sete excertos diferentes, mas num fluxo contínuo. Minha voz e a música deles. Eram vários aspectos diferentes. Alguns políticos, outros pessoais, e termina com um muito sexual. Dos sete excertos, eles tinham escolhido “Não posso mais” (“I Can’t Go On”) por causa da política gay e da aids. E também um em que ele conta sobre a fase junkie. Para mim, este último era mero sensacionalismo. Eles sentem uma espécie de saudade daquele tempo que não viveram. O fim dos anos 1970 e começo dos 1980 em Nova York.

Todo mundo sente. Eu também sinto essa falsa saudade.

Eu não. Aquilo foi ótimo, mas, se você não viveu, não pode fazer nada. As pessoas continuam tentando. Em Berlim, tinha um vídeo sobre uma drag queen, e a mulher que fez o vídeo achava que era o David [Armstrong, fotógrafo] de drag. Então perguntei: “Sobre o que é?”, e ela respondeu: “É o David”. Houve aí um certo mal-entendido, como costuma haver quando se trata de gente. Quer dizer, é por isso que a história é a merda que é. Porque o povo pode dizer o que quiser sobre o que aconteceu e quem eram as pessoas.

Projetando sua própria fantasia.

Exato. Vi que fizeram um filme sobre o David logo depois que ele morreu, no ano passado, e fiquei furiosa.
Mas aquela época foi o último verdadeiro respiro da Nova York boêmia. Wojnarowicz, Basquiat, o Downtown 500 [trocadilho com o Forbes 500]. No prazo de uma década, todo aquele centro foi destruı´do e revitalizado pelas incorporadoras imobiliárias. Vim para Nova York em 1978, e o Mudd Club abriu na semana seguinte. Foi a época de maior agito. Tive muita sorte.

Louise Bourgeois costumava frequentar o Mudd Club quando tinha já seus 70 anos.

Ah, que incrível. Louise era genial. Por sorte, encontrei com ela algumas vezes.

Você foi a algum dos salões dominicais dela?

Uma vez. Fotografei a Louise. E mandei um garoto lindíssimo que me ajudava mostrar os negativos a ela.

Lance esperto.

Ele foi levar os originais para ela escolher. Isso porque sempre digo às pessoas que depois vão escolher a foto que preferem. E ela deu um jeito de garantir que eu cumpriria minha palavra, pois pegou uma tesoura e cortou os negativos de que não gostou, coisa que amei nela. Louise não ia se arriscar confiando na integridade dos outros.
Lembro de um cara que estava gravando uma entrevista com ela e perguntou uma coisa de que ela não gostou. Ela não quis responder, e o entrevistador disse: “Tudo bem, não precisa responder”. Mas ela falou: “Não. Quero que você volte a fita até antes dessa pergunta e apague essa parte”.

Estava coberta de razão. Eu queria que ela ainda estivesse conosco para poder falar com ela. Naquela época, eu era meio tímida demais. Quando vim para Nova York, os artistas realmente queriam ajudar uns aos outros, e agora é tanta rivalidade e inveja. Vivi um período bem longo em que as pessoas realmente se apoiavam. E ninguém tinha galeria. Não havia nenhuma.

Uma vez você me falou que, quando era mais nova, virar artista era como fazer voto de pobreza. Presumia-se que você não ganharia dinheiro nunca.

Isso. E que provavelmente você morreria pobre. O que, no meu caso, decerto vai acontecer mesmo. Era como um voto espiritual, como ser andarilho no deserto. Ainda sinto orgulho por nunca ter feito trabalhos para o mercado. Eu nem sabia o que era o mercado até sair uma vez com Donald Baechler [artista], em 1979; ele me levou ao 9th Circle, um antigo bar gay. Falou de Düsseldorf, Colônia, Milão, Sandro Chia, Francesco Clemente, Enzo Cucchi. Tinha a Escola de Düsseldorf, tinha Martin Kippenberger e os parceiros dele, aquela cena toda. Georg Baselitz. Os três Bs da Alemanha e os três Cs da Itália.

Era uma época alfabética.

Eu estava pensando nisso outro dia. O mundo artístico se baseava na colaboração entre o povo todo, o pessoal com mais sucesso ajudando o pessoal com menos sucesso. Existia um sentimento de comunidade muito bom. Você não precisava ter tal ou tal aparência, tal ou tal comportamento. Agora, esperam que você tenha uma espécie de persona educada, de tipo empresarial. Imagino que um pouco de excentricidade ajuda, mas o que se espera é que os artistas se comportem como todo mundo.

Vamos falar de outros fotógrafos. O que você acha do Jim Goldberg?

Jim Goldberg é um velho amigo. Conheço o Jim desde os anos 1970, acho que a gente se conheceu em Boston. Criado por lobos (1995) é um dos grandes livros de fotografia contemporânea. Para ser sincera, não vejo muitos trabalhos de fotografia. Tenho mais mania por pintura, pintura medieval e renascentista. A fotografia contemporânea que mais me interessa no momento é a da África. Tem por lá um trabalho incrível em andamento. Para mim, era a Suécia, mas agora passou a ser a África.

Christer Strömholm, que fez As amigas de Place Blanche (Les Amies de Place Blanche, 1983)?

É. E J. H. Engström. Gosto de todos eles, mas estou muito mais interessada no trabalho sociopolítico vindo da África. Que mescla o político e o pessoal. Tem Malick Sidibé e Seydou Keïta, do Mali, de outra geração. Um deles ainda está vivo. E são os que ficaram realmente famosos. David Goldblatt é um sul-africano branco que fez trabalho político por muito tempo. Mikhael Subotzky, outro branco sul-africano, fez uma instalação da parede ao teto sobre um projeto habitacional. Cada parede mostrava uma vista diferente. Noroeste, nordeste, sudeste, sudoeste, dos quatro lados diferentes do edifício, mostrando a vida em cada janela. Jodi Bieber, uma mulher que fotografou mulheres de lingerie.

Você esteve na África do Sul?

Não, nunca estive na África Subsaariana. O que me incomoda muito. Tem mais um que eu queria mencionar, não tão conhecido, Zwelethu Mthethwa. E estava fotografando em 1999. Era a primeira mostra sobre a aids em Turim, talvez em toda a Itália. E se chamava Terrível aids. Um fotógrafo africano que fotografava as pessoas em suas choças, principalmente. Não era evidente que eles estavam sofrendo de aids. Mas eram retratos muito bonitos. Cores muito fortes, cores extremas.

E William Eggleston?

Adoro o trabalho dele, mas só foi importante para mim depois que fiz a Balada. Soube dele mais tarde. Não me criei sabendo dele. Me criei com a santíssima trindade da época: Larry Clark, Diane Arbus e August Sander.

Quando foi que você viu Tulsa, de Larry Clark, pela primeira vez?

Em 1972. Estava morando com as drags e tinha tirado um monte de fotos delas em preto e branco, das quais algumas foram publicadas. Tem um monte de material bom que nunca foi publicado. E fui estudar porque queria pôr as drags na capa da Vogue. Então entrei num curso técnico, e não entendia nada, porque sou a pessoa menos técnica do mundo. Tive a sorte de encontrar um professor maravilhoso, chamado Henry Horenstein. Quando ele viu meu trabalho, em 1972, falou: “Já ouviu falar de Larry Clark?”. Foram as primeiras palavras que ele disse.
Naquela época, eu nunca tinha ouvido falar de nenhuma fotografia de arte. Só conhecia Guy Bourdin, Helmut Newton e Louise Dahl-Wolfe. Estava morando com as drag queens. E minha missão era ir todo mês às livrarias da Harvard Square e roubar a Vogue italiana e a Vogue francesa. E eu era boa nisso.

Era boa em afanar nas lojas?

Muito boa. Tenho orgulho em dizer. Mas eu era muito seletiva sobre as lojas de onde afanava.

Precisa ter bom gosto para afanar.

Estou falando de integridade. Você não rouba de loja pequena. Só de loja das grandes redes. O que eu sabia de fotografia vinha da moda. Então fiz aquele curso para aprender a usar uma câmera e acabei sendo apresentada à fotografia de arte. Eu não sabia nada de arte contemporânea nos anos 1970.

Que reação você teve quando viu o trabalho de Larry pela primeira vez? Foi como descobrir uma alma gêmea, ou foi uma coisa que moldou seu trabalho de alguma maneira?

Não diria que foi uma influência, não. Acho que foi em 1973. Eu estava interessada no lado da droga. Naquela altura, eu já tinha sido e deixado de ser junkie.

Quando você começou a usar?

Logo antes de fazer 18 anos…

Estava curiosa?

Era uma grande aspiração minha.

Você precisa ter metas.

Eu sei, foi o que eu disse. Nas reuniões dos aa, eles sempre falam: “Bom, nenhum de nós queria ser junkie”. E eu sempre falo: “Bom, na verdade eu queria”. E como sou uma workaholic, consegui o que queria. Não foi através do William Burroughs, foi mais através do Velvet Underground. Eu queria ser junkie. Tinha toda uma relação romântica com a heroína.

Então, Tulsa foi uma influência enorme, mas não sobre a maneira como olho ou fotografo as coisas. Nunca ninguém me influenciou realmente nisso. Nunca tentei tirar fotos como algum outro fazia. Mas Tulsa foi uma permissão. A ideia de que eu podia fazer um trabalho que fosse mais pessoal, não tão objetivo. A Balada provocou uma grande mudança no mundo da foto, mas Tulsa tinha provocado uma grande mudança em meu mundo. Não sei por que não foi reconhecido como merecia. Talvez fosse avançado demais para a época.

Larry era uma espécie de clássico underground. Uma vez, ele me contou que Lou Reed costumava ficar do lado de fora do prédio onde morava, no West Village, com um exemplar de Tulsa. Larry só achava o cara um pouco estranho, até que um dia, por alguma razão, vieram a se falar. Ao que parece, Reed tentou que Andy Warhol incluísse algum material de Larry na revista Interview, mas Warhol disse: “Ah não, é real demais”.

Não sei o quanto ele era clássico em 1972, quando Henry me apresentou ao trabalho dele. Pois aquele livro foi feito em 1971. Larry teve uma enorme influência em mim, e sempre lhe dou os créditos por isso. Ele falou publicamente coisas bem ruins sobre mim, mas tudo bem. Estava morando com as drags e tinha tirado um monte de fotos delas em preto e branco, das quais algumas foram publicadas. Fui estudar porque queria pôr as drags na capa da Vogue.

Por que você acha que ele fez isso?

Quando fiz uma retrospectiva da carreira no Whitney, em 1996, ele falou que montei a foto de mim mesma espancada, que pus uma peruca e me produzi. Penso que o fato de eu estar usando batom é trágico, quando olho a foto. Quer dizer, foi um mês depois de eu ter sido espancada, e estava em Buffalo dando uma palestra porque precisava dos 500 dólares ou o que fosse, e foi um mês depois da cirurgia, e meu olho caiu, e tive de voltar correndo para o hospital e passar por outra cirurgia. Então a ideia de que eu tinha me produzido era ridícula.

As pessoas sempre te comparam com o Larry, mas para mim é como misturar alhos com bugalhos.

É uma coisa em que a questão de gênero pesa muito, creio eu. Não me importo que me chamem de artista mulher. Além disso, não creio que a relação dele com as pessoas em Tulsa fosse lá grande coisa. Creio que acabaram processando ele. Mas isso também aconteceu quando a Balada saiu. Tinha gente que não queria que suas imagens fossem usadas, pessoas que estavam passando pelo processo de criar uma vida nova ou com raiva de mim por ter uma voz pública. Então eu retirei as imagens.

Para mim, todo o mecanismo psíquico é outro. O trabalho de Larry está mais no âmbito do id, é uma série de identificações narcisistas. Já o seu tem mais a ver com o luto e a melancolia. O fato de que você estava fotografando seu ambiente e ele o dele é uma questão secundária. É apenas o tema.

É, mas esta foi a grande novidade. Muito à frente da época. Não havia mais ninguém lançando livros como Tulsa. Paul Strand, Walker Evans, Harry Callahan, esses eram os astros no mundo da fotografia. Então, Larry era um autêntico renegado. E foi realmente o primeiro a lançar um livro como aquele, feito a partir da experiência pessoal. E a Balada foi o que veio a seguir. Não apareceu nada no meio. Para mim, é realmente muito importante que meu trabalho ajude as pessoas. Acho que Larry jamais se importou com isso.

Você acha então que o trabalho do Larry é mais niilista?

Pura autoexpressão, e dane-se o público.

Quando você diz “o id”, está falando do inconsciente?

Isso. Vejo o trabalho do Larry como o resultado de uma regressão a comportamentos arcaicos e operando no campo do id.
É disso que tratam os filmes dele.

Você gosta dos filmes dele?

De Kids (1995), não gosto. Gosto de Juventude violenta (2001) e de Kids e os profissionais (1998). Kids é cheio de chavões, e além disso é feio e maldoso. É tudo muito chapado. Todos os personagens são sórdidos e mesquinhos.
Queria dizer mais uma coisa sobre o Larry. Creio que, talvez para muitos de nós, apareçam partes nossas que nem sabemos que estamos mostrando em nosso trabalho. Partes que não aparecem de outra forma. Larry parece estar sempre procurando a aprovação do pai. Como se quisesse voltar atrás para ser como aquele pessoal. Ele não tem a ligação profunda com seus temas como eu tenho. Ele não se limita a fotografar skatistas, ele mesmo anda de skate aos 50 anos.

Larry teve alguns problemas iguais aos seus por mostrar imagens de adolescentes transando e se drogando. Lembra a exposição dele, Diga olá ao passado, no Palais de Tokyo, em Paris, em 2010?

Eu estava lá.

Eu também, mas não consegui entrar porque bloquearam tudo. E o prefeito de Paris falou que nenhum menor de 18 anos podia entrar.

Chega a ser irônico, pois os garotos nas imagens do Larry têm menos de 18. Isso também aconteceu comigo. Desde os anos 1980, colocam aviso em minhas mostras. O melhor foi o da Fundação Lambert, em Avignon. Tinha um cartaz dizendo: “Meninada, preparem seus pais. Talvez eles não estejam preparados para essa obra” ou “Todos os pais devem estar sob a supervisão dos filhos”. Maravilhoso.

É um momento conservador no mundo inteiro. As pessoas não entendem o trabalho do Larry. Acham que está expondo imagens pornográficas de adolescentes. Muitos dizem: “Ah, é um pedófilo”.

Também dizem isso de mim. O governo britânico me chamou de pedófila, e teve de vir o Elton John me defender. Crianças são lindas, mas agora é perigoso falar qualquer coisa sobre elas. Mesmo com amigos, a linguagem tem de ser…

Cuidadosa. Eu estava com um amigo brasileiro no Chelsea, almoçando numa mesa grande, coletiva. O garoto ao lado da gente começou a fazer caretas e sorrir para nós. Meu amigo devolveu o sorriso e começou a conversar com ele, e a mãe encarou a gente, tipo: “Fiquem longe do meu menino”.

“Ou chamo a polícia.” Virou uma caça às bruxas. É assim que é comigo, mesmo sendo mulher. Vivo puxando conversa com crianças, e as mães me olham como se eu fosse raptá-las. Não sou homem, então não podem me imaginar como pedófila, aí me imaginam como sequestradora.

Quando você é, na verdade, uma bruxa.

Sou mesmo. Obrigada. Tomo como um grande elogio.

A ideia da sexualidade latente nas crianças passa longe. Ficou uma coisa totalmente inaceitável. Faz pouco tempo, você publicou um álbum de fotos infantis, Éden e depois (2014). Quais eram suas intenções?

Em meu trabalho recente, tento comentar como as crianças são sexualmente polimorfas, e as pessoas me olham horrorizadas. As duas meninas que estão na imagem que me deu fama de “pedófila”, as duas irmãs dançando, são minhas vizinhas em Berlim. Estavam 100% envolvidas naqueles momentos e adoraram. Elas adoram as fotos e me adoram. Não havia nenhum tabu. São filhas de meus amigos e não são criadas dessa maneira. E todos nós rimos com as fotos. As que eu não expus são ainda mais incríveis. E teriam sido ainda mais mal interpretadas. Aconteceu no Brasil, com minha mostra no Rio de Janeiro.

Li outro dia que tentaram aprovar uma lei na França obrigando os professores a contar a história da Chapeuzinho Vermelho como menino e o Lobo Mau como menina… O argumento é que você não pode ter essa menina medrosa na floresta porque reforça os estereótipos de gênero.

Estou tão cheia de tudo isso… Eu era contra o uso de pejorativos para raças ou qualquer coisa assim, mas esse stalinismo que acabou surgindo não tem nada a ver. Estou farta do politicamente correto. Não estou nem aí para o que eu digo. Não estou mesmo. Em certo sentido, creio que fui uma predecessora do politicamente correto.

Em seu trabalho?

Cresci com o movimento feminista. Sempre apareci como bissexual, sempre vivi com gays ou drags. Nunca deixei que ninguém usasse uma linguagem que fosse pejorativa. Mas é isso, e só. Todo o resto é ridículo.

Houve uma mudança dos anos 1960 para os anos 1990. Passou-se da ideia de se libertar da opressão e da interferência dos outros para a adesão às atitudes e códigos corretos.

Vivi cerca de um ano na comunidade separatista lésbica em Provincetown [Massachusetts]. Naqueles tempos, só eu usava batom ou pérolas, então elas me chamavam de “perolinha”. Só eu usava salto alto. Ah, se eu fosse jovem agora, quando todas as lésbicas são tão gostosas. Mas, naqueles tempos, todo mundo usava camisa de flanela, tomava chá de ervas e fazia massagem – gosto de massagem, mas era essa a vida delas. Camisa de flanela marrom.

O mundo gay ficou muito careta.

Quando conheci a Cookie [Mueller], ela estava com a Sharon [Niesp] fazia anos, mas também queria ficar com um cara. E eu entendia plenamente. Ela não vivia no mundo lésbico, vivia no mundo masculino gay. E foi onde cresci.

Você se identifica mais com os homens gays do que com as mulheres lésbicas?

Ah, sim. Acho que sou um gay negro com corpo de mulher. No começo – com 17, 18, 19 anos – vivi como drag queen. Foi o que formou minha identidade. Eu não tinha nenhuma percepção de mim mesma como mulher, como algo separado. E não me arrependo nem um pouco.

Você tinha namorados nessa época?

Tinha, mas eles não gostavam, então deixei de ter.

Você se sentiu atraída por mulheres desde cedo?

Desde muito cedo. A gente fazia aquelas festas do pijama no subúrbio, em que todo mundo dormia na própria casa, e eu levava aquilo muito a sério [risos]. As outras garotas ficavam escandalizadas de ver o quanto eu levava a sério.

Que idade você tinha quando beijou uma garota pela primeira vez?

Tinha 12, 13 anos. Àquela altura, já tinha tido experiências sexuais com um cara. Muito mais velho que eu. Isso aos dez anos. Não sei se lamento ou não. Ainda não me decidi.

Você era muito nova?

Era, mas estava apaixonada. Coisa que acontece muito com meninas novas quando são seduzidas por caras mais velhos. Elas se apaixonam.

Vamos voltar à fotografia. Você não teve formação específica em fotografia.

Isso. O que tenho é uma noção de cor e uma noção de enquadramento, mas não foi uma coisa que aprendi. É totalmente autodidata ou só… instintivo.

É uma artista que por acaso usa uma câmera.

Meu trabalho não é mais tão antifotografia. Agora tem muito mais beleza.

E por que isso?

Talvez brandura. Eu me abrandei com o tempo. O principal é que eu costumava viver no escuro e na noite cerrada, e assim tudo era com muito flash. Agora não gosto de flash, nem um pouco. Então acho que tem uma diferença enorme no espectro de cores e tem luz no trabalho. E isso começou nos anos 1980.

Isso reflete uma mudança de sensibilidade, de atitude sua em relação ao mundo?

As duas coisas. Começou em 1989, quando eu tinha acabado de sair da reabilitação e descobri a luz do dia. Fazia uns dez, 15 anos que eu não via a luz do dia quando fui para a reabilitação. Nos anos 1980, costumava levantar faltando 15 minutos para as três da tarde, para dar tempo de ir ao banco, pois não existia caixa eletrônico. Depois, quando começou a ter caixa eletrônico, eu ficava acordada a noite toda e dormia o dia inteiro, anos, anos e mais anos. Nos últimos dois anos, entre a Balada e a reabilitação, vivi em isolamento completo.

Você mencionou a Diane Arbus como parte desse triunvirato de fotógrafos. Quando conheceu o trabalho dela? Foi na mostra do MoMA em 1972?

Quem me apresentou ao trabalho dela foi aquele cara, o Henry Horenstein. Eu morava com as drags, e elas detestavam a Arbus por causa da maneira como ela fotografava as drags. Eu também detestava. Ela tinha essa necessidade de despir as pessoas. Não conseguia respeitá-las como eram. O trabalho dela, a meu ver, vem de uma patologia profunda, muito profunda, de tentar se pôr na pele do outro, literalmente. Isso é o genial do trabalho dela, mas não respeita algumas coisas que eu respeito.

Como assim?

Bom, também não tenho nenhuma fronteira. Mas sempre adorei as drags. Nunca enxerguei uma drag queen como um homem vestido de mulher. Nunca. Nunca me passou pela cabeça. E para ela, muitas vezes, é uma tentativa de revelar alguma coisa. Uma maneira de mostrar quem ela é, penso eu, seu sofrimento, sua busca pessoal de uma identidade. É o que sinto quando olho seu trabalho.

Cada fotografia é um enfrentamento.

Isso de se experimentar na pele dos outros é que é legal nela. Raríssimas pessoas têm a capacidade de criar empatia ou… não sei se ela se põe numa posição de empatia, mas essa capacidade de tentar sentir ou a curiosidade de sentir o que outra pessoa sente é muito rara.

Creio que ela via a identidade como algo intrinsecamente traumático.

Concordo. Ela fotografava pessoas que tinham traumas, mas nunca considerei as drag queens traumatizadas. Não eram homens e não eram mulheres. Eram uma espécie própria, e isso era verdade desde que eu era menina. Então, também tenho problemas com o trabalho dela. Mas tenho algumas coisas suas. Comprei o Homem de trás pra frente (1961). Sempre gostei dele. O mais importante para mim – e se eu pudesse ter um que não tenho e provavelmente nunca terei – é o Gigante judeu em casa, com os pais (1970). É lindo e comovente, realmente de muita empatia. Então muitos deles parecem quase autobiográficos. Dei uma Arbus de presente às irmãs Rodarte. Aquela do cenário hollywoodiano vazio com cisnes no lago… Muito sombria. Sempre acho que um presente deve ser uma coisa de que você gosta especialmente.

O que você pensa sobre a série Sem título (1970-71)?

Ah, adoro. Muita gente tentou fazer aquilo. Assim como muita gente fotografou muito mal drag queens nos anos 1970 e 1980. Peter Hujar fez um trabalho parecido nos anos 1970, mas era incrível. Ele fotografou num daqueles lugares para cegos. São fotos espantosas. Hujar nunca recebeu nem de longe a atenção que merece, porque não há nenhum sensacionalismo no que ele faz.

Tenho amigos que foram fotografados pela Arbus, e eles dizem que ela esperava até revirarem os olhos ou fazerem alguma coisa que parecesse levemente bizarra, e aí tirava a foto. Achavam que ela era um pouco voyeurista e vicária, tentando deixar as coisas esquisitas. Mas não é o que você vê em seus grandes trabalhos. O trabalho em 35 milímetros de crianças, desde o começo, é incrível.

Warhol foi uma referência importante para você? O que acha dos filmes da Factory?

Os filmes dele, a casa de Warhol. O ateliê. A coisa toda. Os warholianos despertavam meu interesse bem mais do que o próprio Warhol.

Aquela foto do Rene Ricard fumando crack que aparece na Balada é incrível.

Ele era gênio. Conheci o Rene aos 17 anos, por aí, no passeio público de Boston. Ele veio até mim e perguntou: “O que você acha de aparecer em Minha pequena Margie [seriado televisivo dos anos 1950]?”. Eu nunca tinha visto. Ele estava me escalando para um Warhol, e eu era tímida demais para aquilo. Ele queria que eu fosse a Nova York fazer um teste para a filmagem ou coisa assim. E nunca vi a exibição. Foi como conheci o Rene, e a gente sempre se adorou, mas ele dava um pouco de medo. Foi uma das pessoas mais inteligentes que conheci, e tinha uma língua que era uma arma carregada, como ele dizia. Então ele realmente assustava um pouco.

Você quer dizer maldoso?

Brilhante. Se o cara é maldoso, mas é burro, é o mesmo que nada. Só faz diferença se o cara é inteligente. Ele não controlava muito bem a coisa. Mas foi também uma das pessoas mais amorosas que conheci. Uma noite, passei por uma crise séria, fui presa etc. e tal… Quando saí da cadeia, estava que era um trapo, e ele veio, ficou comigo a noite toda, eu histérica por ter sido presa, e ele sempre no maior amor e respeito por mim. Mas falava coisas maldosas sobre todo mundo.

Era a personalidade dele, como o escorpião. Gary Indiana me contou uma grande frase do Rene: “Olha, alguém tem de foder o Andy Warhol”.

Ele era único. Bom, voltando ao povo do Warhol. Como jovem adolescente, eu era maluca pela Viva, Candy Darling, Jackie Curtis, depois que vi A revolta das mulheres (1971); Holly Woodlawn, Ultra Violet e Andrea Feldman, que se matou. Era meu sonho, o ambiente da Factory.

As mulheres na Factory eram muito interessantes, enquanto os caras heterossexuais não tinham interioridade nenhuma. Veja-se Joe Dallesandro.

Pois é. Ele era um objeto. Existem muitas teorias sobre o controle do Warhol sobre as mulheres – quase como o Charles Manson, por quem também sou obcecada.

Warhol parecia viver uma idealização extrema, depois seguida por uma desilusão total com essas mulheres, e aı´ as descartava brutalmente. A mesma coisa se repetia sempre. Edie era sua deusa, até ele enjoar dela. Viva endoideceu quando Warhol deu o fora nela. Para não falar de Valerie Solanas.

Li o Manifesto scum (1967), de Solanas, quando saiu. Tenho o original em algum lugar. “Um homem é capaz de atravessar um pântano de muco e mijo para conseguir a buceta de uma mulher.” Eu adorava isso. Ainda adoro.

Vamos falar de Jack Smith. Quando você viu Criaturas flamejantes (1963)?

Eu estava com 15 anos, e fui para aquela escola hippie gratuita. David Armstrong e eu íamos ao cinema todo dia, ou três vezes por semana. Estava passando Criaturas flamejantes no Boston College, fomos assistir, foi incrível. Ainda considero uma obra-prima, e a trilha sonora também… Eu me lembro claramente daquela sessão. Nas outras vezes que vi depois, não foi a mesma coisa.

Quando era adolescente, minha maior influência foi o cinema. Principalmente diretores italianos, e também Warhol e Paul Morrissey, que dirigiu os últimos filmes da Factory, Carne (1968), Lixo (1970) e Calor (1972). Vi inúmeras vezes. O mesmo com Fellini e Antonioni. Antonioni só melhora. Com Fellini, a primeira vez é sempre a melhor. Mas Satyricon… Na adolescência, David e eu vimos Satyricon umas dez vezes. A gente se vestia como os personagens. Agora, bem neste momento, vejo uma relação na minha cabeça, flashes de relação entre Satyricon e Salò, do Pasolini.

Bom, então conheci Jack Smith só por cima. Se ele ainda estivesse vivo, provavelmente nem lembraria meu nome. Havia um lugar chamado Rafiq’s, de um palestino. Nos anos 1980, eu fazia uma projeção de slides lá a cada duas semanas, ou a cada dois meses. Eu levava o projetor e ficava segurando na mão durante toda a projeção, e a lâmpada queimava, e eu ia correndo até minha casa para pegar outra, e o carrossel dos slides encrencava. O público inteiro consistia nas pessoas das fotos. Era para elas que eu fazia a projeção. Era como um filme caseiro. E retirava as fotos quando a pessoa ficava brava por não ter saído bem. Todo mundo tinha uma espécie de…

Opinião?

Não. Elas apagavam ou censuravam as imagens com base na vaidade própria.

Parece muito colaborativo.

É, era sim. Foram diversas pessoas em diversas épocas da minha vida que me ajudaram a montar as diversas versões. Cada versão era diferente da outra. Às vezes tinha uma hora e meia, outras vezes 20 minutos. Por muitos e muitos anos, as drag queens em preto e branco estiveram no meio disso. Esses slides realmente bizarros que eram feitos a partir dos negativos, sendo que já havia um novo processo para isso. Então eram muito contrastados, arranhados e pareciam bem velhos. As drags apareciam entre os capítulos sobre os homens e as mulheres. Me lembro de gente dizendo que era sua parte preferida da projeção. E aí, em meados dos anos 1980, François Hébel, que na época dirigia os Encontros de Arles, me convidou para apresentar a Balada lá, e sugeriu que eu retirasse as drags. Ele pensou que eu ia ficar louca da vida com ele, mas na verdade achei a ideia interessante. Então, agora há uma projeção separada de slides das drags, e a Balada ficou muito mais concentrada em homens e mulheres.

A Balada sempre teve um componente musical?

Sempre. No começo, eu tinha um namorado que sabia tudo sobre vinis e colocava discos para tocar. Era um dj já em 1980, tocando discos para a Balada. Não se tornou dj, mas era tipo um esboço de dj num tempo em que isso não constituía a habilidade mais suprema que você podia ter, como é agora.

A Balada se transformou no testemunho de toda uma geração. É uma máquina do tempo de um momento cultural irremediavelmente perdido. Quando você fez a primeira versão, de 1981…

Não é só a época. São as pessoas que estão irremediavelmente perdidas.

…você não estava pensando naquela qualidade quando mostrou a primeira versão, em 1981.

Não, porque todo mundo ainda estava vivo.

Aí veio a crise da aids…

Drogas também. Drogas, hiv, suicídio, câncer. Uma parte disso vem com esse lado de ir envelhecendo, mas a grande questão na crise da aids é que as pessoas na faixa dos 30 anos ainda não perderam toda a sua comunidade. Em geral, isso é uma coisa que acontece muito mais tarde na vida da gente.

Sei que você coleciona relicários religiosos. Para mim, a Balada veio a ter essa aura de um relicário fotográfico amplo… Vestı´gios e presenças de pessoas. O formato de projeção de slides é como uma reanimação que traz de volta essas pessoas, que agora existem apenas como imagens.

A maioria das imagens na Balada é, na verdade, pré-aids. No dia em que ouvimos falar pela primeira vez de aids, estávamos em Fire Island, lendo algum artigo de revista sobre o novo câncer gay, e caímos na risada. Eu estava com Cookie e Sharon, Bruce Balboni, French Chris e alguns outros. Metade já morreu ou é soropositivo.
Uma parte de seu trabalho mais recente também tem essa qualidade de relicário. Irmãs, santas e sibilas se afasta do tipo de iconografia padrão que as pessoas costumam associar a você.
O trabalho começa com Santa Bárbara, sobre a qual fiz um trabalho enorme, que não está lá. Ficou reduzido a um capítulo bem, bem pequeno. Mas passei cerca de um ano percorrendo toda a França e a Itália atrás de Santa Bárbara, e até os Estados Unidos. Só no Natal é que percebi que a melhor pintura de todas estava em Lisboa. Mas, fotografando, fiquei com um material imenso sobre Santa Bárbara, em 4 de dezembro, dia de sua morte, na Catânia, Sicília, onde há uma enorme procissão de Santa Bárbara nesse dia. Filmei durante três dias, uma filmagem incrível. Fui a lugares onde as freiras supostamente tinham pedaços dos ossos dela. Fui a cada um dos lugares onde Santa Bárbara viveu, onde era venerada ou onde havia pinturas e imagens dela. Não era tão conhecida assim, e olha que acompanho um monte de santos. Tenho um monte de imagens de Santa Bárbara. Então, ela era como que o ponto central do trabalho.

Originalmente, foi encomendada para o Hospital da Salpêtrière, em Paris, onde Charcot desenvolveu seu trabalho sobre a histeria. Também tinha a ver com minha irmã [que se chamava Barbara], que vivia sendo internada. Além disso, havia uma torre na igreja do hospital relacionada com Santa Bárbara, e toda a história em torno dela tem a ver com uma torre. Então foi isso que deu base a todo o projeto do cenário. Para mim, aquele trabalho só foi apresentado duas vezes, em Salpêtrière e em Arrou, numa igreja do século 12 que também tinha uma torre. É uma instalação.

A Balada tem um elenco variável de personagens, mas Irmãs, santas e sibilas gira em torno da díade composta por você e sua irmã. As imagens das feridas que você inflige a si mesma, com queimaduras de cigarro no braço esquerdo, são pungentes. Parece uma espécie de luto, quando os sentimentos negativos se interiorizam e atacam o ego, mas também parece uma identificação com sua irmã, que te permite conservar a imagem interiorizada dela.

A perda de minha irmã piora com o tempo. A sociedade americana nos dá dois meses para superar a morte de alguém. Talvez a gente nunca supere. Depende de quem e como, mas o suicídio é de uma espécie muito peculiar, pois pode te levar a perguntar: “O que eu poderia ter feito?”.

Uma morte por câncer é como a mão de Deus ou força maior, enquanto…

O suicídio é uma escolha, mas uma escolha sobre a qual os outros sentem que podiam ter influído. Quer dizer, todo o meu lance aos 11 anos de idade, quando rompi com minha família, foi que eu sentia que era escolha dela, e todo mundo tentava tomar a responsabilidade para si. Mesmo que fosse por um terrível sentimento de culpa, de alguma maneira eles estavam mais uma vez tirando sua autonomia, que nunca lhe permitiram ter. A coisa de maior autonomia no mundo é o suicídio. É a única escolha verdadeira que temos em nossa vida.

Você pensa muito em suicídio?

Às vezes. Pensei diariamente nisso durante a maior parte da minha vida.

O que te impediu de se suicidar?

Ah não, dá um tempo, né, rapaz [risada]. De fato, foi provavelmente o que me permitiu sobreviver. Ter algo a que recorrer.

O sentimento de que você pode simplesmente pôr um fim na coisa é libertador. Sentir que ainda tem controle pelo menos sobre isso.

Verdade. Esse pensamento pode ajudar a atravessar períodos realmente ruins, mas também pode se tornar um horror em si mesmo, quando você convive com ele como um impulso diário. Passei por um período em que me recuperei disso por um tempo e aí volta, vai embora, volta outra vez. Costumava ser uma decisão diária, e aí há meses em que não penso nisso, às vezes até muitos meses em que não penso nisso. As coisas que me moldaram mais profundamente aconteceram em torno da morte de minha irmã e de tudo o que aprendi em poucas horas sobre a maneira como funciona a sociedade, como funciona a família. O grau de negação era inacreditável. Refiro-me a minha mãe. Ouvi ela dizer à polícia: “Falem para as crianças que foi um acidente”. As coisas que me moldaram mais profundamente aconteceram em torno da morte de minha irmã e de tudo o que aprendi em poucas horas sobre a maneira como funciona a sociedade, como funciona a família.

Ela mentiu.

Era negação. A história da sociedade americana é de negação. Ouvi quando ela falou aquilo, e para mim deu, acabou. Tive um troço, foi isso. Tinha 11 anos e falei para calarem a boca e pararem de falar sobre a culpa deles, que foi escolha dela e que lhe dessem o respeito que ela merecia. Fui a única olhando minimamente para fora de mim mesma. Entende? Porque a culpa é uma coisa muito autocentrada. É dolorosa demais. O sentimento de culpa de meu pai era real, horrível, e permaneceu pelo resto da vida dele. Minha mãe foi diretamente para o revisionismo. Reescreveu a história e ainda continuou a insistir que podia ter sido um acidente.

É um dos grandes tabus na vida, a maternidade. Existe muita pressão para simular uma realização plena, sem conflitos, quando na verdade pode ser uma coisa psicologicamente muito complexa para a mãe. A mãe que tem um filho e não quer ter, ou quer se livrar dele ou até matá-lo. Jenny Holzer fez um trabalho sobre isso. Pega bem esse terceiro trilho.

Terceiro trilho. Gostei disso. Bonito.

Quando um trabalho toca no conteúdo latente.

Não me interesso pelo trabalho que vem da cabeça. Exceto algumas coisas de Duchamp.
Marcel Duchamp é como Warhol, no sentido de que as pessoas usam o exemplo dele como uma autorização para fazer o que fazem.
Não me interesso em refazer o trabalho de outros artistas. Não faço isso nem com meu próprio trabalho. As pessoas não entendem direito a natureza da influência. Muitos cineastas, artistas visuais e escritores também abriram minha cabeça, mas nunca tentei ser nenhum deles.

Uma parte do problema, hoje em dia, é que o mercado é forte demais.

É o que existe hoje em dia. Tudo é um mercado de futuros. Não existe o mundo da arte, só o mercado financeiro. É pavoroso. Como ficar observando a mudança climática. É tarde demais, não podemos fazer nada com a mudança climática, e não sei se podemos fazer alguma coisa a esse respeito também.

Você vai muito ao cinema em Berlim?

Às vezes, mas aqui não tenho amigos de cinema. Estão passando os filmes favoritos de Susan Sontag em Berlim. Um deles é um dos meus favoritos também, realmente obscuro, mas agora está com legenda em inglês. Chama-se Condenação (Verhängnis, 1994), que significa “destino”, e foi feito por Fred Kelemen, aluno de Béla Tarr. Superlento, supersombrio, em termos tanto visuais quanto emocionais. Sombrio até onde dá.

Então você está no clima para ele.

Sempre estou no clima para isso, meu querido.

Sontag não faz meu gênero. Gostava de alguns ensaios dela dos anos 1960.
Bom, ela foi a pessoa mais inteligente que conheci na vida. Mas também uma das mais frias. Mantivemos uma amizade em Berlim, com altos e baixos, por algum tempo. Robert Wilson também… Uma vez teve um coquetel em meu apartamento em Berlim com Robert Wilson e Susan Sontag, e você não conseguia nem respirar. O ego deles era tão grande que…

Não sobrava oxigênio para mais ninguém?

Exato. Uma vez ouvi Susan Sontag conversando com meu querido amigo Oswald, e ela dizia: “Bom, elas são burras, mas têm uma inteligência visual”. Estavam falando de mim e da Annie Leibovitz. Nem me magoou. Só achei engraçado. Quer dizer, não me considero parte do mesmo clube cerebral da Annie Leibovitz, me desculpe. Para Susan, eu não tinha inteligência suficiente porque não me lembrava de fatos que não me interessavam. Outra vez jantei com a Susan, e então fomos encontrar a Annie no Paris Bar, e estávamos atrasadas. Quando chegamos lá, a Annie estava muito chateada por ter ficado ali sozinha. Aí a Susan falou para ela: “Mas qual o problema? Você não tem vida interior?”. Creio que é uma das coisas mais cruéis que ouvi alguém dizer a outro alguém, que supostamente é seu amante.
Imagino que é o tipo de coisa que a gente nunca esquece.

Ex-viciados ou viciados na ativa lembram cada detalhezinho do que ouvem.

Você se sente numa rememoração total?

Não, antes fosse. Morro de inveja. Quando eu era viciada, anotava tudo. Tenho volumes e mais volumes de notas. Escrevia enquanto trepava, para você ter uma ideia.
Devia ser realmente irritante para o cara ou a garota, dependendo de quem estava ali na hora.

[Risada] Era sim, mas se acostumavam. Não, não completamente. Mas eu escrevia durante todas as conversas. Ia para o banheiro e escrevia e, sabe, escrevia todas as palavras que ouvia. Estava preocupada com minha memória. E aí parei de repente.

Você gravava compulsivamente as pessoas, como Warhol?

Não, mas ainda tenho as fitas da secretária eletrônica dos anos 1980. Tenho um monte de mensagens da Cookie. Fiquei sem ouvir as mensagens durante dois anos, porque as coisas estavam muito no ar. Desde a época em que a Balada saiu até 1988, não ouvi minha secretária eletrônica. Mas gravei tudo. Então, alguma hora quero voltar a elas. Quando morrer, quero que queimem meus diários.

Melhor você mesma queimar, pois do contrário não serão queimados.

Dizem que as pessoas mantêm diários só para serem lidos. O meu é o contrário.

A gente anota as coisas para se livrar delas. Foi algo que você pegou na escola?

Em Boston, frequentei uma escola que seguia a linha Summerhill. Foi lá que conheci o David. Era uma escola experimental. É um sistema de ensino basicamente sem cursos nem aulas. Muitos dos professores eram estudantes de pós-graduação no mit e nos davam câmeras Polaroid. Fiquei imediatamente obcecada com a coisa, e logo virei a fotógrafa da escola. Então eu tinha um papel. Era muito tímida, mas sabia tirar fotos.

Você sempre foi tímida?

Teve um período em que era tão extremamente tímida que chegava a doer. É isso que estou dizendo, fiquei literalmente sem falar por cerca de um ano, quando David me conheceu. Falava num fiapo de voz. Eu teria muito mais popularidade se tivesse continuado assim. [Risos] Mesmo. Não, nada excita mais os homens do que uma garota tímida. Mas superei minha enorme timidez ao perceber que outras pessoas eram tímidas e ao tentar ajudá-las. Estou pensando em escrever um livro de autoajuda. Com outro nome. Mas vou ganhar uma fortuna.

Uma segunda carreira.

Você sabe que meu trabalho tem a ver com isso?

É também uma autoterapia?

Para mim, sim, mas é também para ajudar os outros. Tenho complexo de Pigmalião.

Gosta de refazer os outros?

Não. Gosto de levá-los ao que têm de melhor. Gosto de lhes mostrar quem são.

Louise sempre dizia que as pessoas têm de elevar-se ao seu potencial máximo. É muito simples, mas é verdade. Cada um tem um potencial próprio. E essa é a história da vida.

Mas muitas vezes vejo isso na pessoa e ela não vê em si mesma. Então é uma maneira de fazer a pessoa sair do armário, não sexualmente, mas sair de si mesma.
Você está falando de identidade.

Estou falando do teu senso de um eu, de aceitar, na verdade de reconhecer como você é bonito. É esse o meu trabalho, sempre foi. I’ll Be Your Mirror. O título parece idiota, mas é isso mesmo. Vou ser teu espelho para te mostrar como você é bonito. Vou ser a luz à tua porta para te ajudar a encontrar o caminho de casa. Esse é o meu trabalho. Devolver as pessoas a si mesmas, como se estivessem perdidas.
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Nan Goldin (1953), fotógrafa norte-americana, é autora de A balada da dependência sexual (1986) e Scopophilia(2010), entre diversos outros trabalhos.
Philip Larratt-Smith (1979), canadense, é curador de exposições de arte contemporânea e vive entre Nova York e Copenhague.

Traduzido do inglês por Denise Bottman.
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Entrevista de Philip Larratt-Smith publicada originalmente no site da revista Zoom (www.revistazum.com.br), em 03/10/17.

Exposição Histórias da Sexualidade, em cartaz no MASP, bate recorde de visitação

Nos quatro primeiros dias de exposição, o museu teve um total de 11.000 visitantes, o que representa mais que o dobro em comparação com o mesmo período no ano passado. Matéria publicada originalmente no site do Glamurama (www.glamurama.uol.com.br). +

A abertura da exposição “Histórias da sexualidade”, no dia 19 de outubro, foi a mais movimentada deste ano no MASP, com a presença de 1235 pessoas. Além disso, nos quatro primeiros dias de exposição, o museu teve um total de 11.000 visitantes, o que representa mais que o dobro em comparação com o mesmo período no ano passado. Os números justificam as filas na área externa do MASP e também do lado de dentro – algumas vezes a fila se estende pela escada que liga o primeiro ao segundo andar.

Uma vez dentro da exposição, o congestionamento maior acontece na última sala, exatamente onde se encontra o quadro “Cena de interior II”, de Adriana Varejão. A tela foi um dos pivôs do cancelamento da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que estava em cartaz no Santander Cultural, em Porto Alegre. O quadro de Varejão foi acusado de fazer apologia a pedofilia e a zoofilia. A exposição segue em cartaz até o dia 14 de fevereiro de 2018. Agende-se!
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Matéria publicada originalmente no site do Glamurama (ww.glamurama.uol.com.br).

Advogados se unem para tentar barrar censura a menores em exposição no Masp

Artistas e movimentos sociais se reuniram em frente ao Masp para defender a abertura a liberdade de expressão e a arte durante a abertura da mostra Historias de sexualidade, restrita a maiores de 18 anos. +

Um grupo independente de 18 advogados composto por penalistas, constitucionalistas e representantes de galerias está se mobilizando para propor um novo sistema em que os próprios museus e exposições definirão em conjunto critérios para a classificação etária de suas mostras de artes visuais.

Encabeçado pelo escritório Hesketh Advogados, de São Paulo, o grupo quer fortalecer o diálogo na arte e derrubar a classificação etária de 18 anos da mostra “Histórias de Sexualidade”, definida pelo Masp após uma série de protestos que atingiram exibições como a “Queermuseu", de Porto Alegre, e a performance “La Bête”, no Museu de Arte de São Paulo (MAM), acusadas de promover pornografia e a pedofilia.

Atualmente, por analogia, as instituições de arte aplicam a portaria nº 368 do Ministério da Justiça, que legisla especificamente sobre o audiovisual. Nesse caso, quando existe indicação de 18 anos, menores de idade são proibidos de entrar em cinemas mesmo acompanhados de pais ou responsáveis. Esse é o caso da exibição do Masp, que também seguiu o Guia Prático de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça.

“Se você pegar esse manual, percebe que a indicação é apta apenas para obras audiovisuais, sem se aplicar à arte em si, que carece de legislação. A lei faz analogia, mas não é própria. Por isso o diálogo entre as instituições é tão importante”, diz ao UOLa advogada Lisiane Pratti, uma das responsáveis pelos trabalhos. “Nossa ideia é consolidar um manual, um conceito de classificação próprio às artes. Ela vai continuar existindo, mas com os pais podendo delimitar a entrada ou não.”

Neste primeiro momento de discussão, os advogados estão mapeando projetos de lei estaduais sobre o tema, propostos no calor da discussão sobre as mostras, para alertar sobre possíveis inconstitucionalidades. Segundo relatório assinado pelo grupo nesta terça (24), 13 propostas de 12 Estados apresentadas recentemente no Senado e Câmara dos Deputados ferem a constituição.

“Basicamente, elas dão espaço aos Estados legislarem a classificação indicativa, mas só quem pode agir é a esfera federal”, entende o grupo, que ainda pretende ouvir representantes de museus, galerias e exposições antes de encaminhar parecer a autoridades, o que deve acontecer até o fim deste ano. "O leque pode envolver questionamentos ao judiciário, mas ainda não sabemos."

“Diante desse cenário, é fundamental que seja iniciado amplo debate, envolvendo museus, galerias e demais instituições culturais, no tocante aos critérios que devem ser considerados para a aplicação da classificação indicativa às artes visuais, avaliando-se, inclusive, a adequação do já existente Guia Prático de Classificação Indicativa, elaborado pelo Ministério da Justiça”, escrevem os advogados.
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Matéria originalmente publicada no portal do UOL, em 26/10/17.