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Assembleia proíbe representação de ato sexual e nudez em exposição no ES

O texto foi elaborado pelo deputado estadual Euclério Sampaio (PDT). Como justificativa, o deputado afirma, no próprio PL, que o objetivo é “a promoção do bem-estar das famílias”, e é descrito como “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a nudez humana”. O projeto agora segue para sanção ou veto do Governo do Estado. Matéria de Manoela Albuquerque e Kaique Dias publicada originalmente para o portal do G1 ES, em 23/10/17. +

Um projeto de lei que proíbe pornografia e nudez em exposições artísticas e culturais em espaços públicos no Espírito Santo foi aprovado pela Assembleia Legislativa. A votação aconteceu em regime de urgência, na tarde desta segunda-feira (23).

O texto foi elaborado pelo deputado estadual Euclério Sampaio (PDT). Como justificativa, o deputado afirma, no próprio PL, que o objetivo é “a promoção do bem-estar das famílias”, evitando constrangimento aos cidadãos.

“Não se trata de punir manifestações quaisquer, senão as de natureza sexual que possam causar constrangimento aos cidadãos de diversas idades, crenças e costumes, portanto, o que se pretende com a matéria é a promoção do bem-estar das famílias do Espírito Santo”, escreveu.
No PL, o teor pornográfico em exposições é descrito como “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a nudez humana”.

A proibição, segundo o texto, não se aplica aos locais cuja exposição tenha fins estritamente pedagógicos.

Se sancionada a lei, o descumprimento acarretará em multa de R$ 3.186, 50, que pode ser duplicada, em caso de reincidência.
O projeto foi formulado no Estado após a performance de um de um artista nu no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo gerar polêmica. Um vídeo que viralizou no Facebook mostra quando uma criança de aproximadamente quatro anos toca no pé do homem.

A votação

O deputado Euclério Sampaio entrou com um requerimento de urgência do projeto, que foi aprovado.

A votação foi única no plenário em conjunto, com as comissões de Justiça, Cultura e Finanças dando parecer favorável pelo projeto. Apenas o deputado Sérgio Mageski foi contra o projeto, entre os deputados. Alguns parlamentares disseram que o projeto é “em favor da família”.
Duas emendas ao projeto foram colocadas e aprovadas pelas deputadas Janete de Sá (PMN) e pela deputado Luzia Toledo (PMDB). Uma delas excluiu das proibições obras de grandes artistas renomados e fotos de indígenas e a outra incluiu a necessidade de restringir a participação de pessoas com mais de 18 anos nesses dois casos.

Para o autor do projeto - que agora segue para sanção do Governo do Estado - Euclério Sampaio, o projeto valoriza a vontade da maioria. “A vontade da minoria não pode expor a maioria. Não posso valorizar o que dizem que é arte e não é. Há casos em que pode caracterizar como violência contra a mulher e estupro”, disse o deputado.

No plenário, o deputado citou a exposição em São Paulo e disse que a mãe da criança que tocou no homem nu “deveria ser presa”. Ele se posicionou contra Sérgio Mageski dizendo que “vai ter professora passando batom em menino”. Sampaio citou até o número de mulheres que morrem por estupro no Estado para justificar a ideia do projeto.

Sérgio Mageski, questionou, no plenário, a necessidade do projeto. Ele disse ainda que profissionais da área deveriam ter sido ouvidos na elaboração do projeto e antes da votação.

“A maioria das pessoas não tem acessos às exposições. A violência não é gerada por exposições de arte. Até porque a maioria das pessoas nunca botaram o pé numa exposição de arte. Deveríamos ter ouvido os artistas, ter ouvido o que se pensa sobre isso”, ponderou Mageski.
O deputado Enivaldo dos Anjos (PSD) também citou a questão, apesar de ter votado favoravelmente ao projeto. “Não se pode colocar a culpa das mazelas das sociedades nos artistas. É querer fazer censura”, disse, em plenário.

Artistas contra o projeto

O diretor do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Paulo Sérgio de Paula Vargas, questionou o projeto, em nota, e o classificou como retrógrado e inadequado.

Vargas falou também que haverá dificuldades de aplicação do projeto na prática, “pois não define quem vai julgar se uma determinada exposição artística”. Na opinião do especialista, o projeto pode dar margem a censuras indevidas.

“Do ponto de vista ético não cabe impor limite à arte, pois se assim o fizermos estaremos mutilando o seu princípio fundamental que reside exatamente no livre questionamento do status quo ou dos valores estabelecidos,que suscitam o debate e a reflexão, especialmente sobre a essência da vida e a natureza das coisas”, opinou.

O especialista disse também que impor limites ou censura à arte é próprio de sociedades submetidas a regimes de viés totalitário.
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Matéria de Manoela Albuquerque e Kaique Dias publicada originalmente para o portal do G1 ES, em 23/10/17.

Não pode haver limite à arte, afirma André Sturm, secretário de Doria

André Sturm, secretário municipal da Cultura, defende o MAM e diz que não pode haver limite à arte. "Mas nós temos de tomar cuidado em como a arte é apresentada para a sociedade", afirma. Matéria de Rogério Gentile publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 24/10/17. +

No dia 30 de setembro, o prefeito João Doria (PSDB) criticou uma performance no Museu de Arte Moderna após a divulgação de um vídeo no qual uma criança mexia no pé do artista, que estava nu. Na ocasião, disse que "tudo tem limite" e chamou a performance de "libidinosa".

André Sturm, secretário municipal da Cultura, defende o MAM e diz que não pode haver limite à arte. "Mas nós temos de tomar cuidado em como a arte é apresentada para a sociedade", afirma.

Na entrevista a seguir, Sturm diz que, ao assumir, encontrou uma secretaria aparelhada politicamente e que quase foi agredido por aqueles que tinham medo do que ele pudesse descobrir.

Folha- Ao falar do MAM, o prefeito disse que "tudo tem limite". Há limite para a arte?

André Sturm - De maneira nenhuma. Arte tem de ser livre. A originalidade e a criatividade fazem parte essencial da arte. Ao longo da história, artistas não foram compreendidos e depois viraram ícones. Mas esses são aqueles de que a gente lembra. Há uma série de coisas que não vamos lembrar no futuro. E há as que vamos dizer que tivemos o privilégio de conhecer. Então a arte tem de ser livre. Mas temos de tomar cuidado em como é apresentada. É importante haver classificação indicativa, que não tem caráter de censura, mas de informação. Minha mãe tem 75 anos. Não gostaria de acompanhá-la em uma exposição que tem cena de sexo, ficaria constrangido.

O MAM diz que a sala estava sinalizada. O prefeito exagerou?

Não cabe a mim analisar o que o prefeito fala, mas acho que ele tratava de uma questão mais ampla. De que as coisas precisam ter algum tipo de limite. Não acho que ele tinha todas as informações. Foi pressionado e quis fazer uma manifestação. Para mim, o que ele defende é um limite entre a arte e o acesso das crianças. Não acho que quis dizer que tem de ter limite no que pode ser feito como arte.

Cabia o termo libidinoso?

Não havia nada de libidinoso. Era um homem deitado, não estava excitado. Não que ache isso, mas o que podia ser discutido ali é a atitude da mãe que leva uma criança àquela exposição. O museu não tem responsabilidade. Não era um homem nu andando pelo MAM e que mexeu na criança. Houve uma grande falta de informação. Gente que entrou na onda do pós-verdade, viu a manchete e saiu xingando. E outras que têm interesse em combater a arte e que se aproveitaram dessa situação.

Nestes meses, houve vaias, o gabinete foi invadido e o senhor quase foi agredido. Esperava tanta oposição?

Foi muito maior do que imaginava. Ainda me causa espanto. Houve muita violência. Claro, uma vaia aqui e outra ali estava no pacote.

Houve risco físico de fato?

Mais de uma vez. Na Câmara, quase fui linchado. Participava de uma audiência e, por uma hora e meia, todas as pessoas que se inscreveram me atacaram. Disseram que eu odiava criança e que ia promover o holocausto dos negros da periferia. Peguei o microfone e começou a gritaria. "Fora, Sturm!" Não dava para continuar. Muitas pessoas foram para perto da porta. Quatro guardas civis fizeram um murinho para eu passar. Fui saindo, até que um disse: "Corre que não vai dar para segurar". E saí correndo pela Câmara, com gente gritando "Pega!". Entrei por uma porta. Os guardas ficaram segurando enquanto as pessoas urravam. O vídeo está na internet. Gravaram e se orgulham disso. Uma mulher que diz: "Quero dar um tiro na cara dele".

E o episódio no qual o sr. disse que ia quebrar a cara de um agente cultural?

Não é querer justificar. O episódio da Câmara aconteceu numa sexta, passei o fim de semana refletindo sobre a minha vida. Na segunda, perdi a cabeça. Tínhamos ficado um mês tentando resolver o problema das ocupações culturais. Descobri uma solução, um termo de cessão provisório, e chamei o pessoal de Ermelino Matarazzo. Estava certo de que finalmente ia tirar foto abraçado com os teoricamente inimigos. Quando falo qual era a solução, o rapaz começa a me confrontar, diz que não ia formalizar nada. Perdi a paciência e disse: "Vou quebrar sua cara". Pena que não filmaram. Estava sentado e ele veio na minha direção. Falei que não ia sujar a mão e saí. Não fui para cima dele.

Houve ainda a altercação com um colega do secretariado. O sr. é estourado, agressivo?

Nunca troquei soco com ninguém. Nem na infância, nem no futebol. Agora, tenho sangue. Uma hora você perde a cabeça. Esse foi um marco do ponto em que as coisas chegaram. Estava perto quando falei: "Você não deveria ter feito isso, é um sacana, não faça mais". Alguém filmou e virou home do UOL! Às 7h, havia três jornalistas me procurando para falar da tal crise na prefeitura! Era um não assunto, com todo o respeito. Vinte minutos depois, acertamos nossos ponteiros.

A que o sr. atribuiu a oposição a sua gestão? Insatisfação com o seu trabalho?

Mas não tinha nem começado a fazer! A primeira vez que fui ameaçado foi no dia 19 de janeiro. Estava numa visita a um centro cultural onde eu tinha deixado toda a equipe da gestão passada. Eram quase todos filiados ao PT. Tinha ouvido que faziam um bom trabalho e deixei. Pensei que ia ser abraçado. Havia umas cem pessoas. Fizeram uma fila e a cada três, duas me ofendiam. Diziam que eu estava acabando com a periferia. Dia 19 de janeiro! Não tinha feito nada nem deixado de fazer. Não tinha dado tempo. As pessoas podiam achar que eu ia mexer em algo. Mas então era sacanagem. Ou seja, por eu ser uma pessoa da área da cultura, estavam com medo que descobrisse o que havia aqui. Por isso, preferiam me derrubar e ter um secretario que, de repente, nada percebesse. Eram ataques de má-fé.

O que o sr. encontrou aqui?

Havia um aparelhamento. Ao assumir, troquei poucos cargos. Achei que estavam na secretaria para fazer cultura. Em fevereiro tive de exonerar um monte de gente. Ficavam boicotando. O interesse não era a cultura, mas a política. Havia um jogo do contra.

Que tipo de boicote?

Não cumprir com as obrigações. Aquele rapaz muito gentil de Ermelino Matarazzo [o do "Vou quebrar sua cara"] recebeu da secretaria R$ 400 mil em 12 meses! Ganhou um edital para fazer generalidades. Uma pessoa na secretaria era responsável por acompanhar o contrato e ela nunca tinha pedido prestação de contas. Foram R$ 400 mil numa casa de cultura com quatro pessoas! Assim estavam as coisas. De maneira nenhuma, diria que tinha corrupção. Mas havia um aparelhamento. Depois da eleição, contrataram 80 agentes comunitários de cultura! Apresentaram um plano de trabalho que podia ser qualquer coisa. Várias dessas pessoas que invadiram a secretaria são agentes.

Havia cabo eleitoral?

Num ano eleitoral é possível que tivesse. Mas não quero fazer essa acusação. O que acho mais crítico é que a secretaria tem de ter o cidadão como foco principal. A gente quer atender e estimular a criação artística. Mas o foco tem de ser a relação com a sociedade. Levar a produção cultural até a população. Na gestão passada, não havia essa preocupação. O foco era a relação com os coletivos artísticos. Se tivesse apresentação, ok, mas não era esse o foco.

Era dinheiro para pesquisa?

Para pesquisa, um debate muito rico e proveitoso... Nós suspendemos o edital da dança e fizemos mudanças. Uma delas foi exigir dez apresentações por ano. Do ponto de vista das pessoas que tinham esse edital, não deveria haver obrigação de se apresentar. Afinal, a pesquisa pode não estar pronta depois de um ano. Isso é inaceitável.

E difícil trabalhar com um prefeito que só pensa na eleição?

Por um bom período, o prefeito estava realmente focado 100% do seu tempo na cidade. Acho que em algum momento, pode ter começado a pensar nisso. Mas ele é detalhista e atento. Isso não mudou. Nunca liguei e deixou de me retornar logo. Não vejo diferença. Estamos menos juntos fisicamente, mas ele liga dos lugares mais variados. Tem um pique impressionante.

E a política de doações?

Reformamos a fachada do Theatro Municipal assim. Mas tudo é tão complicado na administração pública que algumas empresas desistem. Há muitas amarras. Quando leio que precisamos ter mais controle, me causa calafrio. As pessoas não têm ideia do que há de controle. Claro que tem de ter. Mas o fundamental é acabar com a impunidade. Foi pego, processo e punição.
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Matéria de Rogério Gentile publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 24/10/17.

Zé Celso perde para Silvio Santos e promete reagir

Em votação realizada na manhã desta segunda (23), o Condephaat tomou decisão favorável à construção de torres no terreno que pertence ao Grupo Silvio Santos e que fica ao lado do Teat(r)o Oficina. Foram 15 votos favoráveis às torres e sete contrários. “Foi um golpe contra a cultura, o Teat(r)o Oficina e o bairro do Bixiga”, afirmou José Celso Martinez Corrêa. O Oficina vai recorrer. Matéria do Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, me 23/10/17. +

Em votação realizada na manhã desta segunda (23), o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) tomou decisão favorável à construção de torres no terreno que pertence ao Grupo Silvio Santos e que fica ao lado do Teat(r)o Oficina. Foram 15 votos favoráveis às torres e sete contrários.

“Foi um golpe contra a cultura, o Teat(r)o Oficina e o bairro do Bixiga”, afirmou José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, ao Blog do Arcanjo do UOL, sobre a nova decisão do Condephaat.

“Ano passado o Condephaat reprovou as torres do Silvio Santos, mas este ano ele voltou com um advogado que teve a coragem de afirmar que nós tínhamos construído um teatro ilegal com o janelão. Faz quase 60 anos que estamos naquele lugar, eu faço teatro há quase 60 anos”, afirmou o diretor de 80 anos.

O Oficina luta há anos para que o terreno em seu entorno seja tombado, alegando que prédios tirariam a visão da grande janela do teatro projetado por Lina Bo Bardi e Edson Elito, que dá para o bairro do Bixiga e a cidade de São Paulo, com os quais as peças do grupo dirigido por Zé Celso dialogam. Segundo o Oficina, com a construção de torres no terreno ao lado, o teatro histórico ficará “encaixotado”.

O grupo propõe que o teatro no seu entorno se torne um parque público, com teatro ao ar livre.
Oficina vai recorrer

O Oficina vai recorrer da nova decisão do Condephaat, que no ano passado havia sido contrário às torres, mas voltou atrás nesta segunda (23), após nova ação do Grupo Silvio Santos.

“Vamos recorrer. Vamos pedir uma revisão desta decisão do Condephaat e também vamos entrar com ações no Ministério Público Federal e Estadual”, afirmou a atriz Camila Mota, vice-presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.

Sem troca de terrenos

Chegou-se a cogitar a possibilidade de troca do terreno ao lado do Oficina, que seria intermediada pela Prefeitura de São Paulo, dando ao Grupo Silvio Santos outro terreno em troca. Houve uma reunião em agosto deste ano, unindo Silvio Santos, Zé Celso e prefeito João Doria. Contudo, segundo Zé Celso, o acordo não foi adiante.
“O Silvio Santos não quer trocar terreno, ele agora quer expulsão da gente pobre do Bixiga. Querem exterminar e matar esse bairro que é vivo e deu origem ao teatro contemporâneo brasileiro. É um crime fazer isso, é um genocídio que não pode acontecer”, declarou Zé Celso.
“Estou encenando ‘O Rei da Vela’ outra vez, 50 anos depois, uma peça que foi escrita por Oswald de Andrade na época da ascensão do nazismo e do fascismo. O ambiente do Brasil hoje é idêntico a esse, mas vamos resistir e reagir”, prometeu Zé Celso.
O Oficina lançou a hashtag #ficaoficina para quem desejar manifestar apoio à companhia nas redes sociais.

Outro lado

Procurado pelo Blog do Arcanjo do UOL, o Condephaat enviou a seguinte nota:

“Na reunião do Condephaat desta segunda-feira, 23 de outubro, o conselho do órgão decidiu favoravelmente ao recurso apresentado pelo Grupo Sílvio Santos para construção na área localizada no entorno do Teatro Oficina, com 15 votos favoráveis e 7 contra, obtendo assim maioria qualificada necessária para tal decisão. Desta maneira, o Grupo pode dar prosseguimento ao processo de obtenção do alvará para realização da obra. A decisão do Condephaat não isenta o Grupo Sílvio Santos de solicitar a aprovação dos demais órgãos competentes, incluindo os de preservação – Conpresp e IPHAN – uma vez que o local também é tombado nas esferas municipal e federal. Demais detalhes da discussão serão publicados em ata no Diário Oficial do Estado.”

O Grupo Silvio Santos não se manifestou sobre o caso, tampouco a Sisan, construtora responsável pelas torres.

Mais belo teatro do mundo

Fundado em 1958 e reconhecido internacionalmente, o Teat(r)o Oficina é o mais longevo grupo de teatro do Brasil e completará 60 anos de trajetória em 2018, sempre sob comando de Zé Celso.

Sua sede, projetada por Lina Bo Bardi, mesma arquiteta do Masp, em parceria com Edson Elito, rendeu ao lugar o título de o mais belo teatro do mundo, concedido pelo jornal inglês The Guardian em 2015.
A arquitetura conta com uma enorme janela de vidro que dialoga com o bairro do Bixiga e a cidade de São Paulo, que agora corre o risco de ser tapada pelas torres.

A disputa do terreno ao lado do Oficina para empreendimentos imobiliários inspirou a série “Castelo Rá-Tim-Bum”, da TV Cultura, na qual o Dr. Abobrinha vivia visitando o castelo mágico para tentar vendê-lo e construir prédios no lugar.
Pascoal da Conceição, ator que interpretou Dr. Abobrinha na série infantil, com várias passagens pelo elenco do Oficina, acompanhou com pesar a reunião do Condephaat nesta segunda. “Perdemos essa batalha, mas a luta continua”, afirmou.

Apoio de Fernanda Montenegro

No último sábado (21), quando estreou a peça “O Rei da Vela” no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, Zé pediu ajuda à sociedade para preservar o Oficina e o terreno no seu entorno. E reiterou o apoio dado por Fernanda Montenegro, que lhe enviou uma carta, ressaltando o trabalho artístico do grupo e seu teatro.

“A partir desse Bexiga, dessa Oficina, o Zé nos traz o desassossego mais provocador, mais tonitruante, mais triunfante de São Paulo e do Brasil culturalmente falando. O Oficina dá ao Bexiga a dimensão da inquietação da Arte na vida e projeta esse bairro à altura da cidade de São Paulo e do País. O Oficina é um marco histórico, cultural, visceral de uma Cidade, de um Estado. O que pretendem pôr no lugar? A desgraça do nada? A lama do nada?”, declarou Fernanda Montenegro.
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Matéria do Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado (www.blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br), publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 23/10/17.

Mostra no Masp sobre sexualidade reforça que censura é inaceitável

Em várias nações europeias, a nudez é exposta em parques, praias e lugares públicos; a poligamia é aceita em países islâmicos; prostituição é prática legal em algumas nações e condenada em outras; há países onde o aborto é livre e outros onde não é. Até mesmo o conceito de criança mudou ao longo do tempo, assim como sua especificação etária. Opinião de Heitor Martins originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17. +

Sexo faz parte integral de nossas vidas; sem ele sequer existiríamos. Por isso mesmo, a sexualidade, nas suas mais diversas manifestações, tem desde sempre ocupado um lugar central no imaginário coletivo e na produção artística. "Histórias da Sexualidade", exposição que o Masp abrirá na próxima sexta-feira (20) para o público, traz amplo recorte dessa produção, com o objetivo de promover um debate sério, maduro e inclusivo, cruzando temporalidades, suportes e geografias.

A presente exposição é fruto de intenso trabalho em torno das várias histórias que o Brasil tem para contar.

Em 2016 inauguramos "Histórias da Infância", e nos últimos dois anos viemos trabalhando no atual projeto que foi antecedido por dois seminários internacionais sobre essas questões e que contou com a participação de especialistas e do público geral.
A exposição também se insere no contexto mais amplo da programação do museu, que neste ano vem tratando do tema da sexualidade com mostras de Toulouse-Lautrec, Miguel Rio Branco, Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Tunga, Guerrilla Girls, Pedro Correa de Araújo e Tracey Moffat.

"Histórias da Sexualidade" inclui mais de 250 obras, reunidas em núcleos temáticos e não cronológicos, sendo muitas delas pinturas fundamentais de nosso acervo: Degas, Manet, Ingres, Poussin, Picasso, Gauguin, Renoir, Perugino, Suzanne Valadon, Victor Meirelles.

Também traz trabalhos de artistas como Adriana Varejão, Ana Mendieta, Balthus, Egon Schiele, Francis Bacon, Jac Leirner, Mapplethorpe, Louise Bourgeois, Marta Minujin, Valie Export e Rego Monteiro.

Ainda que concebida em 2015, "Histórias da Sexualidade" não poderia ser mais atual. Episódios recentes, não só no Brasil mas em todo o mundo, trouxeram à tona –por meio de embates públicos, protestos e violentas manifestações nas mídias sociais– questões relativas à sexualidade e acerca dos limites entre direitos individuais e liberdade de expressão.

Não existem verdades absolutas. As fronteiras do que é moralmente aceitável deslocam-se a toda hora e no decorrer da história.
Esculturas clássicas, hoje consideradas símbolos da arte europeia, não poucas vezes tiveram seus sexos tapados por folhas de parreira e outros subterfúgios. Também os costumes variam entre culturas e civilizações.

Em várias nações europeias, a nudez é exposta em parques, praias e lugares públicos; a poligamia é aceita em países islâmicos; prostituição é prática legal em algumas nações e condenada em outras; há países onde o aborto é livre e outros onde não é. Até mesmo o conceito de criança mudou ao longo do tempo, assim como sua especificação etária.

O único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro e o necessário diálogo.

É preciso criar condições para que todos nós –cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades– possamos viver de forma harmoniosa e escutando uns aos outros.

Por isso mesmo, a radicalização, a intolerância, o cerceamento da liberdade de expressão, não devem e não podem ser aceitos. O Masp, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais.

"Histórias de Sexualidade" objetiva justamente promover, por meio da arte, um debate consistente e sólido a partir de um número muito significativo de obras –arte pré-colombiana, asiática, africana, europeia e latino-americana, pinturas e esculturas, vídeos e fotografias, assim como documentos e publicações "" que fazem parte deste catálogo de nuanças e diferenças, mas também de tudo que nos une e nos faz, cada um à sua maneira, humanos.

HEITOR MARTINS é diretor presidente do Masp e ex-presidente da Fundação Bienal
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HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
QUANDO de 20 de outubro de 2017 a 14 de fevereiro de 2018; ter. a dom. das 10h às 18h; qui., das 10h às 20h
ONDE Masp (av. Paulista, 1.578); tel (11) 3149-5959
QUANTO R$ 30 (inteira)
CLASSIFICAÇÃO 18 anos
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Opinião de Heitor Martins originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17.

Masp abre "Histórias da Sexualidade" com obras que vão além do nu artístico

A exposição, que se distribui em três espaços do museu, "nunca foi tão necessária", afirma a curadora Lilia Schwarcz."Uma série de direitos que julgávamos assegurados, na verdade, encontra-se em risco". Com conteúdo de violência, sexo explícito e linguagem imprópria, a exposição foi classificada para 18 anos, que impede que um menor, mesmo se acompanhado dos responsáveis, tenham acesso à mostra –o Ministério da Justiça não determina a classificação para instituições culturais, que devem fazê-lo por si, seguindo manual da pasta. Matéria de Isabella Menon originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 19/10/17. +

Engana-se quem acredita que o Masp aproveita a onda de conservadorismo que vem resultando em críticas a exposições no Brasil para chamar atenção para a mostra que inaugura nesta quinta (19) e que dialoga sobre questões de sexualidade e gênero.

Na verdade, a instituição colocou a mostra em sua programação em 2016, quando foi introduzido o projeto "Histórias da Sexualidade", que inclui além dela um ciclo de palestras sobre o tema.
A exposição, que se distribui em três espaços do museu, "nunca foi tão necessária", afirma Lilia Schwarcz, curadora-adjunta de história do Masp, em entrevista à Folha."Uma série de direitos que julgávamos assegurados, na verdade, encontra-se em risco".

Com conteúdo de violência, sexo explícito e linguagem imprópria, a exposição foi classificada para 18 anos.
A faixa, autoatribuída pelo museu, impede que um menor, mesmo se acompanhado dos responsáveis, tenham acesso à mostra –o Ministério da Justiça não determina a classificação para instituições culturais, que devem fazê-lo por si, seguindo manual da pasta.

A exposição conta com um batalhão de 150 nomes fortes para o ambiente artístico, que vão desde Renoir (1841-1919), a contemporâneos, como Adriana Varejão –o Masp escolheu sua "Cena de Interior 2", que foi alvo de críticas no "Queermuseu" em Porto Alegre, por, segundo manifestantes, fazer incitação à zoofilia.

As mais de 300 obras estão divididas em nove temas, como "Corpos Nus", "Jogos Sexuais", "Religiosidades".
Cibelle Cavalli Bastos e Alexandre da Cunha, por exemplo, estão na ala "Totemismo", dedicado à representação dos órgãos sexuais.

A obra "Xannayonnx Portal" pode parecer só uma grande espuma rosa. Bastos explica que o trabalho foi construído sobre uma indagação: "E se todos tivéssemos uma genitália híbrida?".
"A alma de uma pessoa não tem gênero, e a energia do masculino e feminino não garante o que a pessoa é."
Para ela, um mundo ideal seria o do filme "Avatar" (2009), onde o alienígena "gruda o rabinho no cabelo [para reproduzir]. Seria incrível se fizéssemos isso".

Do título ao uso de materiais, a obra de Cunha carrega um forte teor sexual."Morning", para ele, é uma expressão que remete à "sensualidade, do acordar para um ciclo".

Além disso, ele utiliza a camiseta como fundo do quadro, em vez da tela habitual; a peça de roupa, diz, está ligada ao "comum uso sobre a pele e o corpo humano". Materiais que a sobrepõem formam relevos que fazem alusão "até mesmo à genitália", explica.

QUEBRA DE PARADIGMAS

Militante dos direitos LGBTs e de profissionais do sexo, Amara Moira participou do ciclo de seminários do projeto em 2016.

Moira, que é travesti, diz ver o Masp como uma instituição "elitizada", "excessivamente pautada por padrões europeus, brancos, masculinos, colonizadores". "Para apreciá-la, a pessoa precisa ter intimidade com os valores e ideais que a produziram."

Por isso, Amara Moira defende a introdução de temas como a sexualidade e gênero para dentro do museu.
"A sociedade começa a se dar conta de que, se quer mesmo discutir sexualidade, pessoas trans e prostitutas devem obrigatoriamente participar do debate."
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Matéria de Isabella Menon originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 19/10/17.

Moralismo e vazio legal dificultam autoclassificação em exposições

A reação contra elites liberais no terreno moral e contra movimentos identitários não é exclusividade do Brasil, onde vivemos uma espécie de reprise na internet da "revanche da província". É uma situação problemática, já que as artes têm suas especificidades, sua história e suas linguagens –que nem sempre podem ser reduzidas a padrões, por exemplo, do cinema ou do teatro. Matéria de Marcos Augusto Gonçalves para o jornal “Follha de São Paulo”, em 19/10/17. +

Está em curso no Brasil uma onda de ataques a exposições e a artistas que ultrapassou os limites da divergência e da liberdade de expressão para ingressar no terreno da difamação.

A acusação de pedofilia, por exemplo, imputada por grupos ultraconservadores nas redes sociais ao artista que apresentou a performance "La Bête" no Museu de Arte Moderna de São Paulo é insustentável à luz da lei –e o inquérito sobre o caso chegará a esta conclusão.

A reação contra elites liberais no terreno moral e contra movimentos identitários não é exclusividade do Brasil, onde vivemos uma espécie de reprise na internet da "revanche da província" (lembrando aqui uma expressão usada pelo crítico Roberto Schwartz ao analisar as reações ideológicas que se seguiram ao golpe de 1964).

O ultraconservadorismo e a "guerra cultural", como se sabe, estão presentes em diversos países. E já vêm de décadas –pelo menos desde 1989 quando a galeria de arte Corcoran, em Washington, cancelou, sob pressões comandadas por parlamentares de direita, a mostra itinerante do fotógrafo Robert Mapplethorpe prevista para chegar àquele espaço.

É nessa atmosfera de caça às bruxas que o Masp inaugura a exposição "Histórias da Sexualidade".
Pela primeira vez a instituição terá uma mostra de arte com classificação indicativa para maiores de 18 anos.
Há, segundo especialistas, uma lacuna na legislação no que tange a museus e exposições. Esse vazio leva essas instituições a terem que trabalhar com normas genéricas ou analogias com a regulamentação para filmes e outros espetáculos.

É uma situação problemática, já que as artes têm suas especificidades, sua história e suas linguagens –que nem sempre podem ser reduzidas a padrões, por exemplo, do cinema ou do teatro.

O Masp consultou um escritório de advocacia, que com base na legislação vigente considerou que a mostra encaixava-se na faixa dos 18 anos. Não se trata apenas de "nu artísticos". Há obras transgressoras e agressivas diretamente associadas a sexo explícito e violência –tópicos que justificariam a autoclassificação escolhida.

Algumas pessoas do meio artístico consideraram a decisão muito conservadora, um recuo diante dos ataques.

Defendem que teria sido melhor optar por 16 anos, faixa em que os pais poderiam decidir levar filhos mais novos. Afinal, se com 16 anos pode-se votar, porque não ver conteúdos sexuais que qualquer um facilmente consegue acessar na internet?

Sugeriu-se também que as obras mais " pesadas" poderiam ser reunidas numa sala fechada. Em tese seria possível, mas um cercadinho "hard-core" quebraria a narrativa da curadoria –e poderia parecer um tanto bizarro.
O caso indica que cabe ao meio artístico se mobilizar (como está ocorrendo) para propor uma regulamentação que faça sentido e não se deixe contaminar pelo clima de exasperação do momento.
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Matéria de Marcos Augusto Gonçalves para Análise no jornal “Follha de São Paulo”, em 19/10/17.

Deputados do Rio votam classificação indicativa para exposições de arte

Entra na pauta de votação da Assembleia Legislativa do Rio um projeto de lei que prevê a elaboração de um manual que estabeleça classificação indicativa para exposições e outras manifestações artísticas com a presença de crianças e adolescentes; levantada pela deputada da bancada evangélica Tia Ju (PRB). Matéria de Roberta Pennafort originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19/10/17. +

Entrará na pauta de votação da Assembleia Legislativa do Rio nesta quinta-feira, 19, um projeto de lei que prevê a elaboração de um manual que estabeleça classificação indicativa para exposições e outras manifestações artísticas com a presença de crianças e adolescentes. As normas seriam elaboradas pelo governo do Estado, com o objetivo de “garantir e preservar os direitos das crianças e adolescentes do Estado” e de atender ao “clamor popular” que surgiu a partir de mostras consideradas por parte da população inadequadas para menores.

A autora do PL é a deputada da bancada evangélica Tia Ju (PRB), que se diz preocupada com a presença de crianças em exposições como a Queermuseu, banida do Santander Cultural, em Porto Alegre, e do Museu de Arte do Rio (MAR) e a performance La Bête, em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ambas foram atacadas por movimentos conservadores, que viram pedofilia e zoofilia nas obras, e defendidas por artistas e curadores, que clamam pela liberdade de expressão e ressaltam o livre arbítrio dos pais das crianças.

Tia Ju nega que seja movida por desejo de censura às artes. “Não queremos censurar, mas classificar. Sou professora de educação infantil e pedagoga, uma admiradora das artes. Mas alguém tinha que tomar essa iniciativa. O Executivo vai determinar quem vai elaborar o manual. Tenho apoio da maioria da Alerj. Apresentei o projeto na semana retrasada e está entrando em votação rapidamente porque é uma situação de urgência”, afirmou ao Estado, nesta quinta-feira.

“Classificação não é um bicho de sete cabeças. É só uma forma de preservar as crianças e os adolescentes. A arte é subjetiva e eles ficam numa situação de vulnerabilidade. Vamos evitar os desgastes que tivemos. As duas exposições só deveriam ser para maiores de 18 anos. Não era para ter criança ali interagindo (com um artista nu, em La Bête), mesmo com a mãe do lado. No momento em que um pedófilo, um abusador ficar na frente da criança na vida real, ela não vai saber discernir, não tem maturidade”.

A criação do “manual de classificação indicativa em eventos de diversos públicas e representações artísticas voltados para crianças e adolescentes” é justificado por Tia Ju da seguinte forma: “Este projeto de lei tem por objetivo garantir e preservar os direitos de crianças e adolescentes em nosso Estado, especialmente no momento em que o país vive um momento de incertezas jurídicas e lacunas provocadas por falta de regulamentação especial, em que o Judiciário vem sendo constantemente acionado para cumprir determinações e ações que seriam de encargo dos poderes Legislativo e Executivo.”

Os produtores apontariam as idades indicadas seguindo os parâmetros estabelecidos no texto. O manual classificaria exposições de arte, espetáculos teatrais, shows e “outras exibições ou apresentações abertas ao público” tendo como norte “a responsabilidade de garantir à pessoa e à família as informações necessárias para defender de diversões públicas inadequadas crianças e adolescentes, nos termos da Constituição Federal e dos artigos 252 e 253 do Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Os artigos mencionados no PL se referem ao aviso à entrada dos locais de exibição quanto à inadequação da permanência de menores no recinto e ao anúncio de peças teatrais, filmes ou outros espetáculos sem indicação de idade. Pelo ECA, essas infrações podem ser punidas com multa de três a 20 salários mínimos.

Pelo PL, o manual teria sete faixas, sendo a primeira “especialmente recomendada para crianças e adolescentes”, a segunda, “livre – para todo o público”, e as seguintes, “não recomendadas” para menores de dez, 12, 14, 16 e 18 anos.

O texto diz ainda que “todo cidadão interessado está legitimado a averiguar o cumprimento das normas de classificação indicativa, podendo encaminhar ao órgão estadual responsável pela atividade de classificação, ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e ao Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente representação fundamentada nas obras e diversões abrangidas por esta lei.”

A deputada Tia Ju argumenta que a competência para a criação da classificação é estadual, e que não haveria conflito caso o governo federal também amplie a classificação indicativa já existente – diante dos protestos contra as exposições recentes, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, tem defendido a extensão da classificação para além dos filmes, games e programas de TV.
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Matéria de Roberta Pennafort originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19/10/17.

Contra censura nas artes, ato reúne manifestantes no vão do Masp

Manifestantes se reuniram para protestar contra os recentes episódios conservadores contra manifestações artísticas. O objetivo do ato desta quinta era “esclarecer o processo de calúnia que estamos sofrendo, pois o artista é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”. Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/10/17. +

"O artista é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo." Essa era a palavra de ordem entoada pelo grupo reunido pelo coletivo #342Artes no vão livre do Masp, nesta quinta (19).

Os manifestantes se reuniram para protestar contra os recentes episódios conservadores contra manifestações artísticas, como o encerramento prematuro da exposição "Queermuseu" Santander Cultural, em Porto Alegre, e as acusações de pedofilia detonadas após uma criança interagir com artista nu na abertura do 35º Panorama da Arte Brasil, no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

O objetivo do ato desta quinta era "esclarecer o processo de calúnia que estamos sofrendo", segundo a marchande Márcia Fortes, da Galeria Fortes Vilaça.

Dentro do museu da av. Paulista, acontecia a inauguração para convidados da exposição "Histórias da Sexualidade", que o próprio Masp classificou como não apropriada para menores de 18 anos.
"Não lido com o medo [de retaliação à mostra do Masp], lido com o amor e o respeito", explica Fortes. "A arte é importante, um povo sem arte é um povo triste."

Professor da Ebac (Escola Britânica de Arte Contemporânea) e artista plástico, Roger Bassetto disse nunca ter achado que "fôssemos precisar fazer esse tipo de manifestação".

"Arte é subjetividade e não quer dizer só uma coisa, há múltiplas interpretações", diz Bassetto. Na opinião do professor, as pessoas contrárias a essas exposições "precisam classificar tudo como 'isso é pedofilia'". Para ele, é necessário que haja tolerância.

Além da manifestação, houve também a leitura de uma carta. O documento, que reunia mais de 800 assinaturas de artistas, intelectuais e profissionais de distintas áreas, foi lido no vão do museu pela artista plástica Renata Lucres, antes do início do ato.

A carta, disponível no site pelademocracia.com, diz que o grupo atua em prol da liberdade de expressão e que "militantes de direita, segmentos de igrejas neopentecostais, alguns políticos de grande responsabilidade pública –be sem espírito republicano–, membros da burocracia de estado no Judiciário, da polícia e do Ministério Público estão atuando em conjunto contra produções e instituições artísticas".
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Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/10/17.

Masp fora da lei

O Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do ECA, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significam qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. Matéria de Hélio Schwartsman para o jornal “Folha de São Paulo”, em 20/10/17. +

Acho que o Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Pior, o faz com base numa interpretação de dispositivos legais e infralegais que me parece francamente inconstitucional.

O ponto central é que o constituinte de 1988 sabiamente retirou do Estado a possibilidade de determinar o que os cidadãos podem ou não dizer, escrever, ler, assistir, encenar etc. O banimento da censura aparece duas vezes na Carta, no art. 5º, IX e no 220.

Só o que o constituinte reservou para a União, na tentativa de proteger menores, é a competência para proceder a uma classificação etária de diversões públicas, tomando o cuidado de especificar que ela tem caráter apenas "indicativo" (art. 21, XVI). Isso significa que a classificação é uma simples sugestão, a ser ou não acatada pelos pais — o que é razoável, considerando que o grau de maturidade de cada jovem assim como os valores de cada família variam.

Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do ECA, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significam qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. Mas quem ler o ECA com atenção verificará que ele em nenhum momento proíbe menores de visitar nenhum tipo de exposição. Diz só que informações sobre a natureza do espetáculo e a faixa etária a que se destina precisam ser afixadas em local visível. Trata a classificação etária como "recomendação", isto é, um conselho, para o qual os pais podem, se quiserem, dar uma banana.

O que há é a portaria nº 1.100 que admite o poder dos pais de passar por cima da classificação etária, exceto quando ela for de 18 anos. Salvo melhor juízo, tal dispositivo carece de base legal e contraria a Carta.

É triste quando até museus param de brigar para que adolescentes tenham acesso à arte.

Hélio Schwartsman, é bacharel em filosofia, publicou 'Pensando Bem...' (Editora Contexto) em 2016.
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Matéria de Hélio Schwartsman para o jornal “Folha de São Paulo”, em 20/10/17.

Paradeiro de obra-prima de Rodin, desaparecida desde 1920, é descoberto

O busto de mármore, avaliado em US$ 12 milhões, estava esquecido sobre um pedestal em um prédio público de Nova Jersey. A escultura foi vista pela última vez em uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, na década de 1920. Matéria publicada originalmente no site Toucharte On via The Art Newspaper, em 17/10/17. +

Um busto de mármore que representa Napoleão Bonaparte, criado por Auguste Rodin, apareceu em um prédio municipal em Madison, Nova Jersey. O grandioso trabalho do escultor francês foi visto pela última vez em uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, na década de 1920.

A obra-prima, datada de 1908, estava sobre um pedestal acumulando poeira durante os últimos 85 anos. Geraldine Rockefeller Dodge, filha de William D. Rockefeller, doou o trabalho junto com o edifício erguido em 1935.
Pesquisas recentes feitas pela fundação descobriram que a Sra. Rockefeller Dodge, dedicada colecionadora de arte, havia adquirido o busto de Rodin em leilão da família de Thomas Fortune Ryan, um magnata do tabaco, que o havia emprestado ao Metropolitan Museum of Art em Nova York de 1915 a 1929.

A obra, que pesa mais de 300 quilos, foi autenticada por um especialista em Rodin. Agora, o busto será emprestado ao Philadelphia Museum of Art, no final deste mês, para o centenário de morte do artista.

Assinatura revelada
Por cerca de oito décadas, o busto olhou silenciosamente para baixo, de cima de um pedestal, na sala principal do prédio, pouco percebido pelos legisladores locais ou pelos transeuntes. Isso até 2015, quando a fundação contratou uma arquivista, estudante de graduação de 22 anos, chamada Mallory Mortillaro, que revelou a importância da escultura. “Ela estava passando o dedo pela base”, disse Nicolas Platt, presidente da Hartley Dodge Foundation, “sentiu uma marca cinza, pegou uma lanterna, pegou uma cadeira e examinou. Lá, estava a assinatura de A. Rodin”.

A fundação contatou o respeitado especialista em Rodin, Jérôme Le Blay, formado pelo Musée Rodin e fundador do Comité Rodin, que autentica o trabalho do escultor. “As primeiras fotos que me enviaram por email imediatamente me impressionaram”, diz Le Blay por e-mail. “Nós temos uma enorme base de dados e arquivos e foi bastante fácil para nós encontrar as origens deste mármore na oficina de Rodin”. Uma fotografia de 1910 mostra até o escultor posando ao lado do busto, oficialmente intitulado Napoleon enveloppé dans ses réves (Napoleão envolto em seus sonhos).

A fundação não anunciou que estava em posse de uma escultura que vale entre US $ 4 milhões e US $ 12 milhões até esta semana, devido a preocupações com segurança. Uma companhia de seguros havia advertido que uma obra de arte tão cara não poderia permanecer em um prédio municipal. Eles entraram em contato com museus que gostariam de tê-lo por empréstimo e, há duas semanas, o Philadelphia Museum of Art aceitou a oferta.

Auguste Rodin

Auguste Rodin (1840-1917) é visto frequentemente como o antepassado rebelde da escultura moderna, mas na verdade ele não levantou nenhuma revolta consciente contra a escultura de sua época. Rodin lutou pelo reconhecimento acadêmico, mas nunca conseguiu passar no exame de admissão da Academia de Artes de Paris.

Em vez disso, ele foi autodidata e desenvolveu um método exclusivo para a modelagem de formas complexas em argila e em gesso. Ainda vivo, muitas de suas obras mais famosas foram criticadas. Elas romperam com uma tradição de escultura idealizada e decorativa, com pouco espaço para abordar como assuntos mitológicos ou literários poderiam ser apresentados.

A característica distintiva de Rodin é uma modelagem realista, mas expressiva, do corpo, juntamente com um grande senso do conteúdo simbólico do tema. Lentamente, ele alcançou popularidade e conquistou seu espaço, especialmente após a decisiva participação na Exposição Mundial em Paris, em 1900.
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Matéria publicada originalmente no site Toucharte On (www.touchofclass.com.br) via The Art Newspaper, em 17/10/17.

Carta-manifesto pela democracia

Carta-manifesto produzida a partir de mobilização iniciada por artistas e críticos de arte, e que teve a adesão de diversos setores da sociedade civil – professores, advogados, engenheiros, psicanalistas, sociólogos, historiadores, cineastas, escritores, arquitetos, designers, jornalistas, fotógrafos, médicos, membros de movimentos sociais, etc.- para fazer frente a onda ultra conservadora que ameaça os direitos individuais, civis e sociais neste pais. Essa carta manifesto é uma resposta à escalada da extrema direita contra os direitos individuais, civis e sociais. Quem quiser, pode aderir pelo liberdadedemocratica1@gmail.com inserindo seu nome e profissão. Acesse a carta no lik https://pelademocracia.com/2017/10/19/carta-manifesto-pela-democracia-2/ +

Somos artistas, intelectuais e profissionais de várias áreas, que temos nos manifestado conjuntamente pela defesa da democracia desde 2015 e que, agora, nos colocamos ao lado das recentes iniciativas contra o recrudescimento da onda de ódio, intolerância e violência à livre expressão nas artes e na educação. Ódio, intolerância e violência que já vêm sendo impressos há tempos contra mulheres, homossexuais, negros e índios.
Somos radicalmente a favor da liberdade de expressão e circulação de ideias, crenças, informações e expressões artísticas. E evidentemente, acreditamos no livre debate de todas essas expressões.
Achamos, todavia, que é preciso nomear os focos de ataque às liberdades. Ficou evidente que militantes de direita, segmentos de igrejas neopentecostais, alguns políticos de grande responsabilidade pública – e sem espírito republicano –, membros da burocracia de estado no judiciário, da polícia e do Ministério Público estão atuando em conjunto contra produções e instituições artísticas. Eles censuram exposições, assediam os visitantes e funcionários dos museus e usam de redes sociais para detratar e ultrajar pessoas das quais discordam. Arrogantes, tais fundamentalistas evitam a leitura mais atenta dos trabalhos e saem à caça de indícios de indecência, leviandade, pornografia e heresia. Não há debate intelectual, não há questionamento, só violência e intolerância.
Foi assim que milícias reacionárias e antidemocráticas conseguiram provocar de maneira abrupta o encerramento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural, de Porto Alegre (RS). Em setembro, a polícia retirou a pintura Pedofilia, de Alessandra Cunha, do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (MS); depois a justiça proibiu a apresentação da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, no Sesc de Jundiaí (SP). Vale lembrar ainda que as mesmas milícias iniciaram uma campanha contra o Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, por conta da performance La Bête, de Wagner Schwartz, com apoio irresponsável do prefeito de São Paulo, João Doria. E uma horda de fanáticos liderados pelo deputado João Leite tentou invadir o Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), e destruir a produção de Pedro Moraleida.
Acreditamos também que não se trata de um ataque específico à produção artística. Mas trata-se de um fenômeno que começou a brotar em 2010 como oposição ao Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3); e que cresceu e foi adubado durante o processo de deposição da presidenta eleita Dilma Rousseff.
É óbvio que nem todos que foram a favor do impeachment sejam dessa linhagem antidemocrática. Mas estavam lá em peso os ativistas e agentes públicos arquiconservadores constrangendo pessoas de pensamento diverso. Eles que distribuíram adesivos para serem colados em tampas de tanque de combustível com a figura da presidenta em um contexto sexista, misógino e constrangedor; eles que atacaram políticos e militantes de esquerda em aviões, restaurantes e até em ambientes sensíveis como hospitais e velórios, eles que bateram e ameaçaram quem se vestia de vermelho.
Depois de consumado o impeachment – bem nomeado, um golpe parlamentar com a compra de votos de deputados capitaneada por Eduardo Cunha – passaram a subtrair ou tentar retirar um número significativo de conquistas obtidas pelos brasileiros a partir da Constituição de 1988. É assim que estão dia a dia limitando os direitos individuais, civis e sociais no Brasil, precarizando as condições de trabalho, ameaçando a liberdade de ensino nas escolas, a proteção ao meio-ambiente, a união de pessoas do mesmo sexo etc. Esse é o conjunto da obra que resulta do golpe de Estado.
Agora, o que necessitamos é ampliar ao máximo, acima de opções partidárias, ideológicas e religiosas, todas as forças democráticas para fazer frente, nas ruas, nas casas legislativas, nos tribunais e nos meios de comunicação disponíveis, às ameaças concretas às liberdades e conquistas sociais. Propomos a articulação de grupos, entre amigos e familiares, entre colegas de profissão para a organização de atos públicos e de ação nas redes sociais para defender e aprofundar o direito a um ambiente de livre circulação de ideias, e denunciar aqueles que querem ver o Brasil sem democracia.
Essa carta manifesto é uma resposta à escalada da extrema direita contra os direitos individuais, civis e sociais. Quem quiser, pode aderir pelo liberdadedemocratica1@gmail.com inserindo seu nome e profissão.
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Acesse a carta no lik https://pelademocracia.com/2017/10/19/carta-manifesto-pela-democracia-2/

Masp para maiores

É a primeira vez que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde que foi fundado, em 1947, veta uma exposição para menores de 18 anos. A “Histórias da Sexualidade”, só maiores poderão ver as 400 obras reunidas. A decisão foi tomada com base na orientação do departamento jurídico da instituição, pelo peso da polêmica que envolveu o MAM, alvo de protestos e o Santander de Porto Alegre, que suspendeu a exposição Queermuseu por causa de ameaças de grupos conservadores. Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal “Estado de São Paulo”, em 18/10/17. +

É a primeira vez que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde que foi fundado, em 1947, veta uma exposição para menores de 18 anos. A partir desta sexta-feira, dia 20, quando for inaugurada a exposição Histórias da Sexualidade, só maiores poderão ver as 400 obras reunidas pelos quatro curadores que respondem pela mostra sob supervisão do diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa. A decisão foi tomada com base na orientação do departamento jurídico da instituição – segundo Pedrosa, nem tanto para evitar o transtorno pelo qual passaram o Santander Cultural de Porto Alegre e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, mas “para seguir a legislação vigente”.

Os advogados do Masp, que fazem parte do Conselho do museu, foram favoráveis à classificação etária para a exposição, mas não fizeram circular o parecer – esse relatório permanece confidencial. Contudo, teve certamente nessa decisão o peso da polêmica que envolveu o MAM, alvo de protestos por causa da interação de uma criança com um performer nu, e o Santander de Porto Alegre, que suspendeu a exposição Queermuseu por causa de ameaças de grupos conservadores, inconformados com o conteúdo da mostra, rejeitada lá e no Rio.

Em tempo: uma obra que esteve na mostra Queermuseu, como Cenas de Interior II – uma “compilação de práticas sexuais existentes”, segundo a autora, Adriana Varejão – está na mostra do Masp. Trata-se de uma reinterpretação das chungas (tradicionais gravuras eróticas japonesas), também instaladas na exposição bem ao lado da pintura de Varejão e de quatro desenhos eróticos da surrealista parisiense Louise Bourgeois (1911-2010).

A rigor, a mostra do Masp é mais ousada que Queermuseu, pois contempla todas (ou quase todas) as formas alternativas de sexualidade, denunciando justamente como as tentativas de reprimir o erotismo (na arte e fora dela) descambaram para a violência. Há, por exemplo, uma série do premiado fotógrafo Juca Martins que acompanhou as históricas batidas policiais do delegado José Wilson Richetti quando o policial assumiu a delegacia seccional do centro e criou a Operação Cidade no governo Paulo Maluf, em 1980. Num só dia ele prendeu 152 pessoas, entre prostitutas, travestis e homossexuais.

Há na mostra histórias ocultas de personagens igualmente marginalizados por sua condição. É o caso da bailarina do impressionista francês Degas, que ocupa o centro de um dos nove núcleos temáticos da exposição, o do mercado do sexo. Uma das curadoras, Camila Bechelany, conta que a modelo da escultura de bronze, filha de uma pobre família belga, possivelmente era uma prostituta de 14 anos. Ladeada por outras colegas de profissão, ela tem a companhia, na mesma sala, de garotos de pro- grama com o sexo exposto no largo do Arouche, antigo ponto de prostituição masculina no centro de São Paulo.

Há uma profusão de obras de artistas brasileiros e estrangeiros de todas as épocas, que expõem de forma explícita a genitália, de uma tela do francês Ingres a uma ingênua pintura do mato-grossense Adir Sodré, que retrata a transgênero Roberta Close como uma ‘maja desnuda’ contemporânea. Há também esculturas, como a do carioca Chico Tabibuia (1936-2007), que também explorou o transgênero sobrenatural ao es- culpir um Exu com sexo duplo.

Os curadores selecionaram 40 obras do acervo do Masp entre as 400 emprestadas por outros museus, galerias e colecionadores particulares, entre elas obras de Picasso, Gauguin, Suzanne Valadon, Poussin e Victor Meirelles. Concebida em 2015, ou seja, dois anos antes das polêmicas que envolveram as exposições do Santander Cultural e Museu de Arte de São Paulo (MAM), a exposição, segundo o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, integra uma série dedicada à sexualidade na arte, da qual fizeram parte as individuais de Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco, Henri de ToulouseLautrec, Tracey Moffatt, Pedro Correia de Araújo e Guerrilla Girls. A próxima será dedicada ao escultor pernambucano Tunga (1952-2016).

Histórias da Sexualidade, apesar do título, não segue a filosofia do francês Michel Foucault (1926-1984), garante Pedrosa. Em todo caso, a mostra, como Foucault, relaciona religião e sexualidade (com destaque para a série bíblica de Leon Ferrari e o São Sebastião – de Perugino e Mapplethorpe). “É um grande mosaico de várias histórias que se entrelaçam e podem ser tanto reais como fictícias”, define o diretor artístico do Masp.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal “Estado de São Paulo”, em 18/10/17.

Herdeiros dão "cara nova" para o centro de São Paulo

Casarões no Arouche e nos Campos Elísios são restaurados e ganham novos usos, como espaço cultural, de coworking e café. +

Fabio e Munir Candalaft Junior, de 53 e 55 anos, praticamente cresceram na região entre o Largo e a Rua do Arouche, na República, centro de São Paulo. Quando jovens, os irmãos de origem libanesa trabalharam com a mãe e o pai em lojas da família, no período em que o entorno era um dos mais nobres da cidade. Já adultos, eles migraram de bairro e escolheram outras profissões, mas, há menos de um ano, resolveram novamente se voltar para o local ao montar, no imóvel construído no início do século 20 e comprado pela família na década de 70, o espaço cultural e de eventos No Arouche.

Com janelas multicoloridas, o sobrado ganhou uma “cara 2017” após os irmãos Candalaft observarem que muitos filhos de amigos haviam se mudado para o centro. Aberto dois fins de semana por mês, o espaço reuniu 25 expositores, apresentações musicais e 2 mil visitantes nos dois primeiros dias.

Na parte interna, traz grafites de 12 artistas convidados pelo arquiteto do projeto, Gabriel Menezes, do Estúdio 011. “A ideia é trazer a arte de rua para dentro do prédio, para quem entra se sentir na rua”, ressalta o arquiteto.

A 1,5 quilômetro dali, um casarão foi inaugurado neste mês na esquina da Rua Guaianases com a Alameda Nothmann, em Campos Elísios. O proprietário, que recebeu a casa há dois anos, batizou o local de Casa Don’Anna em homenagem à sua avó Anna Silva Telles, primeira moradora do imóvel. O casarão poderá ser reservado para eventos e terá um espaço de coworking; o porão abrigará o Café Paulista; e o quintal receberá o Jardim das Orquídeas, um ponto de encontro para amantes da planta, de acordo com um dos responsáveis pelo espaço, Sergio Oyama.

Conjunto de imóveis

Construída em 1912 com projeto do escritório de Ramos de Azevedo, a Casa Don’Anna foi tombada pelo Estado em 2013 dentro do “Conjunto de Imóveis do Campos Elísios”.
Dele, faz parte também a fachada de sobrados da esquina da Alameda Barão de Piracicaba com o Largo Coração de Jesus, na antiga Cracolândia, que passa por um processo de revitalização, bancado pelos irmãos Flávio e Célia Gomes Torres, de 55 e 51 anos, respectivamente.

De acordo com Flávio, a recuperação da fachada é um antigo sonho de seu pai, o imigrante português Isolino Gomes Torres, que, a partir da década de 1950, comprou aos poucos os sete pequenos imóveis que hoje compõem o casarão. A ideia, contudo, antes era inviável por causa da aglomeração de usuários de droga na região.

“O prédio merecia um trato, até pela situação do bairro em si. É nossa obrigação colaborar”, diz. “Se fosse em Paris, um prédio lindo desse, a gente estaria feito, mas o contexto não valoriza”, completa o empresário.

Mesmo nos momentos mais difíceis, Célia não cogitou vender o imóvel, que assumiu com o irmão após o pai adoecer, em 2014. “Uma vez eu vi o forro: as madeiras são encaixadas de um jeito diferente, lindo”, conta.

Ela afirma que o imóvel foi um dos que menos sofreu com a degradação da região, porque o pai era criterioso com os moradores, muitos dos quais são os mesmos há décadas, como a diarista Maria Júlia Santana, de 54 anos. Amante de “coisas antigas”, ela diz que não se imagina vivendo em outro local. “Casei aqui, tive filha aqui (hoje com 27 anos). Quando precisava, o seu Isolino até dava uma olhada nela”, conta.

Autoestima

Feita pela Companhia do Restauro, a obra é uma “conservação para aumentar a autoestima do bairro”, define o diretor e arquiteto Francisco Zorzete. A restauração total é avaliada em mais de R$ 1,5 milhão, valor que a família não pretende investir agora.
Neste momento, o destino da região é avaliado por um conselho, composto por representantes da sociedade civil e do poder público, criado pela Prefeitura, que chegou a considerar a demolição no início do ano. “Todos os imóveis com fachadas tombadas serão preservados em qualquer proposta de requalificação do perímetro”, disse o Município, em nota.
Proprietário relata cansaço em luta por restauração

O número 267 da Rua Pedroso foi o lar de quatro gerações da família Sohn. Mais do que isso, contudo, o casarão, construído em 1927, é uma causa abraçada há 15 anos por um de seus herdeiros, o ator Paulo Goya, de 66 anos. Mesmo integralmente dedicado ao imóvel, tombado em 2002 pelo Município, ele relata cansaço nessa luta.
Desde 2005, calcula ter gasto quase R$ 1 milhão, junto com a irmã e dois primos, em obras e manutenção do Espaço Cultural Dona Julieta Sohn, conhecido como Casarão do Belvedere. “Se eu, com toda a minha experiência, minha vontade e meu desejo de preservação enfrento montanhas intransponíveis, imagina o coitado do proprietário que tem um imóvel de 50 metros quadrados tombado como bem”, lamenta ele, que relata ter recebido a notícia do tombamento por uma ligação de uma familiar que estava na ocasião “aos prantos”.

Com um fomento federal recentemente barrado na Justiça, Goya afirma que a estrutura do telhado da casa está tão comprometida que grande parte das atividades ocorre em um imóvel anexo. Mesmo com as dificuldades, ele afirma, que não vai desistir. “Até o fim da minha vida me verão defendendo esse patrimônio, essa casa, esse projeto. Não me calarão.”
A criação de um fundo para imóveis tombados é defendida pela arquiteta Nadia Somekh. “Os proprietários nem sempre têm recursos necessários para o restauro”, diz. Segundo ela, embora seja uma das principais alternativas para obter recurso, a Transferência do Direito de Construir (TDC) é “incipiente” por cauda da quantidade de tombamentos da cidade, mais de 3,5 mil.
Na prática, o TDC permite a “venda” da metragem construtiva não utilizada do terreno tombado para um terceiro, que poderá aplicá-lo em outro local.

Para o presidente do departamento paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP), Fernando Túlio Salva Rocha, ainda falta apoio técnico público para orientar os herdeiros sobre como conseguir recursos para requalificar propriedades antigas tombadas da cidade.
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Matéria de Priscila Mengue para o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 18/09/17.

O que é um museu?

Um ditado popular que diz que “quem vive de passado é museu”, que vem do fato de que museu ainda está relacionado a um lugar que guarda coisas antigas. Mas ao passar do tempo, o conceito de museu mudou e hoje lutamos para construir espaços que não sejam lembrados apenas como “guardiões” do passado, mas sejam verdadeiras fontes de informação e acesso. Matéria da Diretora do MSC-SP, June Locke Arruda originalmente publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (www.estadao.com.br), em 18/10/17. +

Quem nunca ouviu o ditado popular que diz que “quem vive de passado é museu”? Isso vem do fato de que museu ainda está relacionado a um lugar que guarda coisas antigas, que não têm mais utilidade para ninguém, ou, num linguajar mais popular, coisas velhas mesmo!

Contudo já paramos para pensar qual a origem dessa história? Quando e por que se começou a reunir peças e objetos em forma de coleções? Qual a relevância que essa instituição teve ao longo dos séculos e que magnitude ela tem nos dias de hoje? Vejamos.

A origem etimológica da palavra museu vem do grego e quer dizer musas. As musas eram entidades da mitologia grega, filhas de Zeus e de Mnemosine, a deusa da memória. A casa das musas era o mouseion, uma mistura de templo com instituição de pesquisa voltada para o saber filosófico, onde eram depositados objetos preciosos oferecidos às divindades em sinal de agradecimento. A partir de então, todo objeto reunido ou compilado num determinado espaço com o intuito de contar ou resgatar alguma área do conhecimento passou a ser relacionado à palavra museu.

Na Europa medieval, por exemplo, as coleções eram a principal prerrogativa das casas nobres e da Igreja Católica, sendo consideradas verdadeiras relíquias da cristandade. Tinham na sociedade uma importância econômica muito significativa e eram até utilizadas para financiar guerras e outras despesas de Estado.

Entre os séculos 16 e 17, com a expansão do conhecimento do mundo propiciada pelas grandes navegações, estabeleceram-se na Europa os primeiros museus conhecidos como “gabinetes de curiosidades”. Tratava-se de locais preparados especialmente para guardar coleções altamente heterogêneas e assistemáticas de objetos das mais variadas naturezas e procedências. Essas galerias eram essencialmente inacessíveis à população em geral e as coleções, expostas apenas às pessoas convidadas à residência do proprietário.

A mudança do conceito de museu está vinculada a um processo histórico, como resultado da mentalidade de uma época. No fim do século 19, acompanhando as transformações das ciências em geral, os museus especializaram-se, tomando um novo caráter, sem, no entanto, deixarem de ser conservatórios das mais altas formas do patrimônio cultural da humanidade.


O Museu do Louvre, em Paris, por exemplo, foi a primeira instituição a revolucionar os conceitos de relacionamento com o público. Ele foi considerado, desde o início, o “museu do povo”. Além da finalidade conservatória e documental de classificação, pesquisa, exposição e divulgação de conjuntos de objetos de interesse e valor artístico, científico e técnico, outras funções culturais, mais amplas, passaram a integrar as atividades dos museus a partir de então.

Tal fato veio ao encontro das novas exigências de uma época em que o avanço tecnológico e científico provindo do século 20 fez com que o homem se voltasse para novas experiências e se apegasse ao que é material para contar a sua história. E os museus, que antes eram “santuários” discretos e clubes fechados, passaram a ter como principal pressuposto a aproximação do público. Assim, as práticas colecionistas “antigas” foram dando lugar ao aprofundamento científico, interdisciplinar e educativo dos museus.

Podemos dizer que a reformulação conceitual do espaço dos museus, mesmo enfrentando avanços e retrocessos, ganhou novo impulso nos anos 70 e 80 do século passado, sendo lícito considerar essa reorientação como uma verdadeira revolução na concepção do museu público e a constituição de uma museologia moderna.

Em 1986, o Conselho Internacional de Museus (Icom), fundado no Brasil em 1948, definiu o museu como “uma instituição permanente sem finalidade lucrativa, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que realiza pesquisas sobre a evidência material do homem e do seu ambiente, as adquire, conserva, investiga, comunica e exibe, com a finalidade de estudo, educação e fruição”.

Assim, é fundamentada nessa concepção de museu trazida pelo Icom que abro espaço para falar de um museu que pouco se conhece, mas tem uma grande importância na história de São Paulo: o Museu da Santa Casa de São Paulo (MSC-SP), que ocupa parte do complexo hospitalar construído no ano de 1884, conhecido na época como “Castelo da Misericórdia”, projetado pelo então engenheiro e arquiteto Luiz Pucci.

O MSC-SP nasceu em 2000 pela iniciativa do irmão mesário Augusto Carlos Ferreira Velloso, que, junto com o novo milênio, veio presentear a população paulista com o resgate da memória e da história da irmandade, que ao longo das décadas se mistura com a história e a evolução da cidade. Instalado na provedoria da Santa Casa, o museu é composto por objetos religiosos, textuais, iconográficos, pinturas, esculturas, mobiliários e instrumentos médicos, entre outros, que nos ajudam a reconstruir essa importante parte da memória paulista, contada por meio de peças coletadas dentro da própria Santa Casa ou doadas por médicos e irmãos que por lá passaram.

O MSC-SP, como instituição museológica, busca aperfeiçoar sua prática diária valorizando o ensino e a pesquisa, aproximando o visitante, de forma a criar empatia, identidade e reconhecimento com essa instituição que ao longo dos séculos vem prestando serviços à sociedade.

Que os museus que lutamos para construir hoje não sejam lembrados apenas como “guardiões” do passado, mas sejam verdadeiras fontes de informação e acesso, garantindo à sociedade, com seu acervo, o estudo e a reflexão sobre um patrimônio cultural que contribui efetivamente para a formação da diversidade brasileira.
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Matéria da Diretora do MSC-SP, June Locke Arruda originalmente publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (www.estadao.com.br), em 18/10/17.

Ministro e deputados batem boca em audiência sobre "Queermuseu" e MAM

O que se viu em audiência na Câmara aproximou-se mais de um ringue que opôs ministro, deputados a favor "da família" estavam a um palmo de distância, em bate-boca com voz alterada e bombardeio de comentários absurdos dirigidos ao ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão. Até que Alberto Fraga (DEM-DF), que presidia a audiência pública, sugeriu: ou a sessão continua "ou vocês caem na porrada". Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo” , em 18/10/17. +

A ideia era ouvir o ministro Sérgio Sá Leitão (Cultura) sobre o "Queermuseu", mostra gaúcha que, para críticos, fazia apologia a pedofilia e zoofilia, e a exposição no MAM paulistano que trouxe interação entre uma criança e um artista nu — ambas realizadas com incentivos fiscais da Lei Rouanet.
O que se viu em audiência na Câmara nesta quarta-feira (18), contudo, aproximou-se mais de um ringue que opôs ministro, deputados a favor "da família" e Glauber Braga (PSOL-RJ), voz solitária pró-mostras entre os colegas.

Já no fim do debate, apresentando-se como católico, Givaldo Carimbão (PHS-AL) perguntou se o ministro acharia razoável expor sua progenitora como artistas do "Queermuseu" o fizeram com Virgem Maria, a quem chamou de "minha mãe".

Obras da exposição cancelada satirizavam e sexualizavam a mãe de Jesus, como uma em que ela aparecia acalentando um macaco. Carimbão lançou a hipótese da mãe de Leitão retratada "de pernas abertas", com genitália à mostra.

Leitão se exaltou e, aos berros e com dedo em riste, acusou o deputado de "ofender minha falecida mãe".

"Ele baixou o nível e ofendeu diretamente a minha mãe, já falecida. De modo gratuito. Fez comentários absurdos. Superou o meu limite. Lamento profundamente", disse Leitão à Folha.

A audiência pública foi encerrada após a celeuma, gota d'água numa sessão acalorada que se estendeu por mais de duas horas.
A certa altura, Braga quase caiu no braço com Delegado Eder Mauro (PSD-PA). A um palmo de distância, em bate-boca com voz alterada, os dois foram apartados por seguranças da Casa e por um colega, Pastor Eurico (PHS-PE).

Mauro disse que não daria "porrada aqui dentro", mas estava disposto a levar a discussão às vias de fato fora da Câmara.
"Eu quero ver se tu é homem!", gritava o paraense a Braga, que respondeu com uma provocação: "Tá nervoso?".

"Tô defendendo criança inocente", rebateu o delegado. "Vai botar teu filho pra passar a mão em macho!", completou, com o dedo apontado para a cara do desafeto político.

Relembre polêmicas nas artes cênicas e visuais

O entrevero se alongou por quase cinco minutos, até que Alberto Fraga (DEM-DF), que presidia a audiência pública, sugeriu: ou a sessão continua "ou vocês caem na porrada".

Feliciano também brigou com Braga e o acusou de chamar sua mãe de "puta". Ameaçou deixar a sala e depois se desculpou pelo destempero ("a esquerda tira a gente do sério").

O clima no plenário 12 da Casa foi pesado do início ao fim.

Sob intenso bombardeio de deputados que evocavam a "defesa da família" contra a "imundice" da cena artística, Leitão lá estava como convidado a "prestar esclarecimentos sobre exposições realizadas com recursos públicos, onde foram constatados ilícitos penais que causaram reação social e que resultaram em conflitos com reflexo na segurança pública", conforme indicava a placa na porta.

Deputados questionaram a falta de uma condenação enfática do Ministério da Cultura às exposições, deram murros sobre a mesa para expor suas opiniões e levantaram cartazes com cenas das mostras que traziam "pornografia travestida de cultura".

A plateia foi dominada pela ala conservadora da Câmara, com vários membros da bancada evangélica, como Marco Feliciano (PSC-SP) e João Campos (PRB-GO), ex-presidente da frente religiosa. Também presente: a psicóloga Rozangela Justino, que trabalha no gabinete de um parlamentar aliado de Silas Malafaia, Sostenes Cavalcante (DEM-RJ), e que ficou conhecida por defender a terapia para pacientes homossexuais, apelidada de "cura gay".

Feliciano reclamou de obras do "Queermuseu", como a de "uma hóstia que trazia 'vagina' escrito".

Argumentou o deputado-pastor: a imprensa fez um "auê" quando, em 1995, um bispo da Igreja Universal chutou a imagem de uma santa. "Ok, isso foi crime", disse.

Mas por que a mídia se calou quando a mostra em Porto Alegre exibiu a performance "Atos da Transfiguração: Desaparição ou Receita para Fazer um Santo"?

Nela, o artista usa um ralador para transformar uma imagem de gesso de Nossa Senhora Aparecida em pó –depois jogado sobre seu corpo nu. Os episódios de 1995 e 2017 se equivalem no desrespeito à fé, segundo o deputado do PSC.

"Essas pornografias travestidas de cultura" estão "virando moda no Brasil", e tudo às custas do contribuinte, disparou Laerte Bessa (PR-DF). "A Constituição não fala em pornografia." Não adianta querer se impor isso num país com o nisso, que é um país de família."
Glauber Braga questionou: o que seus colegas querem? Que projetos, para usufruirem da Rouanet, passem por uma comissão avaliadora com Silas Malafaia e Feliciano?

Leitão se posicionou contra o "dirigismo cultural" e afirmou que "a liberdade de criação, expressão e manifestação" são direitos resguardados pela Constituição.

"Não podemos de maneira nenhuma incorrer na questão da censura."

O que não quer dizer que limites inexistam, continuou o ministro. Para evitar desrespeito ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), exposições devem ter classificação indicativa por força de lei, como já acontece no audiovisual, defendeu.

Feliciano rebateu: em certos casos, a classificação deveria ser "proibitiva, e não apenas indicativa", já que há pais dispostos a levar seus filhos para conferir obras "inadequadas". Foi o caso, a seu ver, da mãe da menina que interagiu com um homem nu no MAM.

Alberto Fraga abriu audiência criticando o "Quérmuseu" (colegas logo corrigiram a pronúncia aportuguesada para "Queermuseu", e ele riu e se desculpou: "Não sei falar inglês").

"As crianças que visitaram a mostra foram expostas a vídeos criminosos", afirmou, destacando um deles, em que "um homem recebe jato de sêmen". Também se mostrou desgostoso com o trabalho que faz alusão ao tumblr "Criança Viada", "muito apreciado pela comunidade LGBT".
"A virtude está no meio", afirmou Leitão. Citava Aristoteles para propor um diálogo "ponderado" que conciliasse os dois lados. Por hoje, ao menos, nada feito.

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Leia na íntegra a nota enviada pelo Ministério da Cultura:

O Ministério da Cultura vem a público prestar os seguintes esclarecimentos:

1) A convite das Comissões de Cultura e de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, participou hoje de audiência pública na câmara dos deputados;

2) Em sua fala, o ministro tratou da posição do Ministério da Cultura em relação a exposições artísticas realizadas recentemente em Porto Alegre e São Paulo, e prestou os esclarecimentos pedidos pelos deputados;

3) Sá Leitão reforçou a posição do MinC favorável à extensão da classificação indicativa para exposições de artes visuais;
4) O ministro respondeu com serenidade a todas as perguntas e compartilhou as informações pedidas, reafirmando sua convicção de que o assunto deve ser tratado com equilíbrio e racionalidade;

5) Em determinado momento da audiência, houve colocações ofensivas dirigidas ao ministro, sem qualquer relação com o objeto ou com o tom do conjunto da audiência.Diante das repetidas ofensas, o ministro encerrou sua participação;

6) Após o incidente, o deputado Alberto Fraga, da Comissão de Segurança, ligou para o ministro Sá Leitão e pediu desculpas em nome da Comissão e dos deputados que a compõem. O deputado Thiago Peixoto, presidente da Comissão de Cultura, fez o mesmo;

7) O ministro reitera seu respeito a todos os parlamentares e ao Congresso Nacional, e seu desejo de construir um debate amplo e respeitoso, fundado no verdadeiro diálogo, que possa contribuir de fato para o fortalecimento da cultura, da democracia e do estado de direito em nosso país.
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Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo” (www1.folha.uol.com.br), em 18/10/17.

“Tragam seus filhos para ver gente nua”

Pais que levaram os filhos para ver “gente nua” em museu de Paris falam da tentativa de censura à arte no Brasil. Artigo de Willy Delvalle , de Paris, publicado no portal http://www.diariodocentrodomundo.com.br +

Uma campanha para incentivar os pais a levar os filhos para ver gente nua. Poderia ser no Brasil, mas é no Museu d’Orsay, em Paris.
Há dois anos, banners com a mensagem “tragam seus filhos para ver gente nua” foram espalhados pelo transporte público da cidade, o que, de acordo com os organizadores, foi um sucesso e não resultou em polêmicas.
A proposta é retomar a campanha neste mês. Depois que o artista Wagner Schwartz foi acusado de pedofilia, junto com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, depois de um vídeo que uma criança toca o corpo dele nu durante uma performance, imagino se uma ideia como seria posta em prática no Brasil.
Perguntei a visitantes do D’Orsay, que é repleto de esculturas e quadros representando a nudez, o que eles pensam tanto sobre a campanha e também expliquei a eles o ocorrido no Brasil.
Para a francesa Martine, de 57 anos, a iniciativa francesa é muito boa. “É uma outra maneira de ver o corpo, interpretada pelos artistas de uma outra época, quando o corpo não tinha a mesma visão que hoje”.
Ela, cujo filho tem 32 anos, disse que se ele fosse criança o traria do mesmo modo ao museu, “sem nenhuma dificuldade”.
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Para Martine, o que ocorreu no Brasil foi um exagero. “Pedofilia não tem nada a ver com isso. Há um artista que tira fotos de pessoas nuas, fotos magníficas. Não tem nada de chocante”, opina.
O inglês Peter, 80, traria o neto. “É importante que as crianças apreciem a arte”, afirma. Sobre o caso do Brasil, ele acredita que a orientação cabe aos pais. “A criança precisa entender que não é sexual, que é arte. O papel dos pais é fazê-la entender isso e observar suas crianças. O mais importante é que a criança que vá assistir a uma performance como essa tenha a maturidade necessária.”
O alemão Holger, 50, tampouco vê problemas na nudez. No entanto, ele avalia que essa percepção depende da cultura. “Aqui na Europa, é menos complicado do que em outras partes do mundo. Às vezes, coisas que têm a ver com religião são muito diferentes. É uma questão de tempo que as coisas se tornem mais fáceis”, declara.
Alessandra, italiana de 56 anos, defende que a nudez pode ser interpretada e apreciada de outro modo quando o assunto é arte. “Para não chegar à pornografia, depende da idade das crianças, da educação cívica e moral”, observa.
No caso específico do Brasil, ela diz que as instalações modernas não devem ultrapassar “a moral pública e individual”.
E que “se isso (uma criança poder tocar o corpo de um artista nu) fazia parte de uma interpretação artística… Depende de qual parte do corpo. Eu acho que não é grave”, pondera.
A americana Susan, 71, discorda da reação de setores da sociedade brasileira à performance de Schwartz. Perguntada sobre a campanha do museu francês, ela traria seus filhos sem problema algum. “É história. É um trabalho clássico. As crianças precisam ver isso”, diz.
Seu conterrâneo Bill, 61, não vê problemas em nenhum dos casos. “É parte da vida. Um fato da vida. Isso aparece nos livros. Se apresentado corretamente pelos pais, não há problema”.
A também americana Liana, 42, trouxe a filha Sofia, 11, para visitar o museu. Para ela, nudez na arte é uma forma de apreciar a forma humana. E ela mesma pergunta à filha o que acha. “Eu não gostaria de ver isso (risos)”, diz Sofia, 11.
A russa Julia, 43, que veio acompanhada do filho adolescente e da irmã, também avalia como parte da arte ver pessoas nuas, mas critica a possibilidade de uma criança tocar o corpo de um artista.
“Ele poderia pensar melhor sobre as consequências e não fazer isso”. Mesmo assim, ela discorda do ponto a que chegaram as críticas. “Não é correto acusá-lo de pedofilia”.
Também encontrei brasileiros. O primeiro aceitou dar entrevista, mas decidiu interrompê-la logo no início quando seu grupo disse que ia entrar na instituição. O outro também aceitou ser entrevistado, mas diante das perguntas, preferiu não participar. “Sou ultraconservador”, justificou.
No Museu d’Orsay estão obras dos séculos XIX e XX, assinadas por, entre outros, Van Gogh, Auguste Rodin e Paul Gauguin. A nudez aparece principalmente nas esculturas, com referências ao ideal de beleza da Grécia Antiga.
Mas o nu também é utilizado para falar de tristeza, solidão, da condição humana, sua existência, divisões sociais, miséria, inocência, valores culturais, natureza.
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Artigo de Willy Delvalle , de Paris, publicado no portal http://www.diariodocentrodomundo.com.br

Em Paris, proibição do Museu do Louvre a escultura gera polêmica

O Museu do Louvre acaba de vetar uma obra na tradicional Feira Internacional de Arte Contemporânea. A escultura “Domestikator" é habitáculo de 12m de altura que sugere um homem copulando com um animal, deveria ser exposta ao ar livre, mas a obra do ateliê holandês Van Lieshout não foi autorizada. Matéria de Maurício Torres Assumpção para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17. +

Após o fechamento da "Queermuseu", a interdição da mostra no Rio e o escândalo causado pela performance "La Bête", no Museu de Arte Moderna de SP, muitos olhos se voltaram à Europa.

O farol da civilização, porém, pisca quando o maior museu do mundo interdita uma obra por razão duvidosa.
Por um lado, a França irradia ideias arrojadas e nortes morais, sociais e políticos.

Um museu como o d'Orsay, em Paris, lança campanhas para atrair o público jovem, sobretudo crianças, com slogans que deixariam o pastor-prefeito Marcelo Crivella (PRB) de topete arrepiado. "Tragam seus filhos para ver gente nua", diz um deles, sobre a tela "Mulher Nua Deitada" (1907), de Auguste Renoir.

Mas, no outro lado do rio Sena, o Museu do Louvre acaba de vetar uma obra na tradicional Feira Internacional de Arte Contemporânea, que ocorre de 19 a 22 de outubro.

"Domestikator", escultura-habitáculo de 12 m de altura que sugere um homem copulando com um animal, deveria ser exposta ao ar livre, mas a obra do ateliê holandês Van Lieshout não foi autorizada.
Em público, a direção do museu culpou o calendário: não haveria tempo para que o trabalho fosse aprovado pelas comissões encarregadas.

Contudo, como revelou o "Le Monde", o presidente do Louvre, Jean-Luc Martinez, foi explícito em carta enviada à direção do evento: "circulam rumores na internet que atribuem a esta obra uma visão brutal demais, que pode ser mal interpretada pelo nosso público tradicional".

"É de uma hipocrisia total", reagiu o artista holandês Joop Van Lieshour. "Em Bochum (Alemanha), turmas inteiras de colégios vieram conhecer o 'Domestikator'." Para ele, "se crianças viram algo de sexual, é porque já têm idade para ver essas coisas".

"É ridículo, senão ilegal!", protesta a advogada Agnès Tricoire, fundadora do Observatório da Liberdade de Criação, que defende artistas censurados. "Se seguirmos a lógica, teremos de listar telas que deveriam ser retiradas."

A ONG francesa ressalva que a arte pode ter limites. A pedofilia, por exemplo, aceita na literatura (como em "Lolita", de Nabokov), é um dos tabus que provocam reações.

Daí a definição de Tricoire: "A pedofilia num desenho é uma coisa. Mas, obviamente, jamais aceitaríamos que uma criança participasse de ato sexual numa obra de arte".

Se na França a classificação por faixa etária se limita ao cinema e ao teatro, como no Brasil, nos museus ela fica por conta do curador.

A direita francesa pode ser atuante, como demonstrou em protestos contra o casamento homossexual. A escultura "Dirty Corner", do judeu Anish Kapoor, é bom exemplo. Exposta nos jardins do Palácio de Versalhes, a obra recebeu pichações antissemitas em setembro de 2015.

Meses antes, a escultura inflável "Tree", do americano Paul McCarthy, que lembra um brinquedo erótico, já havia sido vandalizada no centro de Paris, enquanto o artista recebia bofetada de um moralista mais exaltado.
Em tempo: o museu Centre Pompidou, também em Paris, já se ofereceu para abrigar o 'Domestikator'.
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Matéria de Maurício Torres Assumpção para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17.

Masp abre mostra sobre sexualidade com obras de artistas consagrados

A exposição chega num momento em que a discussão sobre sexualidade na arte está em alta, dentro e fora do Brasil. E essa mostra de trabalhos, segundo o Masp, suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. Entre os artistas que terão suas obras expostas estão Francis Bacon, Edgar Degas, Édouard Manet, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Robert Mapplethorpe, Victor Meirelles e Adriana Varejão. Matéria publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/10/17. +

O Museu de Arte de São Paulo (Masp) inaugura na próxima sexta-feira, 20, a mostra Histórias da Sexualidade, que faz parte do foco temático do Museu em 2017. A exposição fica no Masp até o dia 9 de fevereiro de 2018.

Entre os artistas que terão suas obras expostas estão Francis Bacon (1561-1626), Edgar Degas (1834-1917), Édouard Manet (1832-1883), Pablo Picasso (1881-1973), Paul Gauguin (1848-1903), Suzanne Valadon (1865-1938), Robert Mapplethorpe (1946-1989). Brasileiros como Victor Meirelles (1832-1903) e Adriana Varejão (1964) também terão trabalhos na mostra. Entre outros.

A exposição chega num momento em que a discussão sobre sexualidade na arte está em alta, dentro e fora do Brasil. Por aqui, instituições culturais estão discutindo a criação de um manual para exposições.

Em torno da mostra Histórias da Sexualidade estão sendo apresentadas ao longo do ano exposições de artistas brasileiros e internacionais, cujos trabalhos, segundo o Masp, suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. São eles: Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Henri de Toulouse-Lautrec, Miguel Rio Branco, Guerrilla Girls, Pedro Correia de Araújo e Tunga.

Em artigo publicado nesta terça, 17, no jornal Folha de S. Paulo ("Mostra no Masp sobre sexualidade reforça que censura é inaceitável"), o diretor presidente do Masp, Heitor Martins, apresentou a exposição e fez ressalvas, lembrando que "o único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro e o necessário diálogo".

"É preciso criar condições para que todos nós –cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades– possamos viver de forma harmoniosa e escutando uns aos outros", escreveu Martins.

"Por isso mesmo, a radicalização, a intolerância, o cerceamento da liberdade de expressão, não devem e não podem ser aceitos. O Masp, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais", prosseguiu. O diretor reforça que a exposição pretende construir um "debate consistente e sólido".

Ainda de acordo com o Museu, a programação anual pretende discutir múltiplas perspectivas sobre a sexualidade, "considerando, especialmente, narrativas descolonizadoras, que extrapolem conceitos ocidentais hegemônicos e de classes dominantes, e provoquem atritos entre acervos diversos".

Histórias da Sexualidade está inserida em um projeto mais amplo de exposições do MASP, que atenta para histórias plurais, que vão além das narrativas tradicionais, tais como Histórias da Loucura e Histórias Feministas (iniciadas em 2015), Histórias da Infância (em 2016) e Histórias da Escravidão (programada para 2018).

A exposição chega coincidentemente num momento em que o debate tomou conta das redes sociais no Brasil, e chegou até ao Ministério Público. No fim de setembro, a participação de uma criança em uma performance protagonizada por um homem nu deu início a nova polêmica sobre a liberdade artística. O teor dos comentários foi o mesmo daqueles que levaram ao cancelamento da exposição Queermuseu, alvo de protesto ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) em Porto Alegre.

HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
MASP. Av. Paulista, 1578, Primeiro andar. De 20/10/2017 a 9/2/2018. Indicação etária: 18 anos. R$ 30.
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Matéria publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/10/17.

O Jockey volta à moda

O primeiro empreendimento da Vila Portugal no Jockey Club do Rio de Janeiro, a Carpintaria, abriu as portas em novembro de 2016 e já se transformou em um dos endereços mais bacanas do Rio de Janeiro. Projeto da renomada galeria paulistana Fortes Vilaça (agora, Fortes D’Aloia & Gabriel), o local, além de apresentar trabalhos de diferentes artistas, vai abrigar eventos e encontros para discussões culturais, num galpão feito sob medida para o empreendimento, com vistas para a pista de corrida e as montanhas. Em junho, entra em operação o Camolesi, misto de restaurante, pizzaria, cervejaria e clubinho de jazz, que terá no comando o empresário Cello Macedo (dono de outras casas famosas no Rio) e o artista Vik Muniz. Outros dois negócios estão prestes a ser finalizados – a primeira galeria de Oskar Metsavaht, o fundador da Osklen, e uma nova unidade da já tradicional Nara Roesler. “O entusiasmo com que esse grupo embarcou na nossa ideia foi fundamental para a viabilidade do projeto”, diz Neves. Matéria originalmente publicada no site da revista “Época Negócios”. +

Quando criança, o carioca Luiz Gustavo Neves costumava acompanhar o pai – um turfista apaixonado – em suas longas tardes de apostas no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro. À época, o Jockey Club Brasileiro já não ostentava mais o glamour das décadas de 40 e 50, quando os páreos faziam lotar as arquibancadas e os eventos sociais reuniam boa parte da elite carioca. Mas o terreno amplo – são mais de 300 mil metros quadrados encravados entre o Jardim Botânico, o Leblon e a Lagoa Rodrigo de Freitas – e a vista privilegiadíssima para o Corcovado eram suficientes para encantar o garoto.
Hoje, aos 36 anos e ainda sócio da instituição, Neves continua frequentador do lugar e, nos últimos tempos, tornou-se também um dos maiores entusiastas da revitalização da área. “Ficava triste de ver um local tão bonito sendo tão pouco aproveitado pela população”, diz Neves. “Queria fazer algo para mudar esse quadro.”

A chance surgiu quando Neves percebeu, em uma área abandonada do hipódromo, uma oportunidade para fazer negócios – e, de quebra, atrair muito mais gente à região. Neves uniu-se ao amigo Francisco Pellegrino, de 37 anos, para viabilizar a Vila Portugal, um complexo de galerias e restaurantes que, aos poucos, começa a tomar forma, ocupando o que antes eram apenas ruínas de uma antiga vila operária. “Queríamos fazer algo que tivesse relação com o bairro”, diz Neves. “Por isso, pensamos no polo cultural. O Jardim Botânico tem muitos ateliês e um circuito de arte reconhecido.”

O primeiro empreendimento da Vila Portugal, a Carpintaria, abriu as portas em novembro de 2016 e já se transformou em um dos endereços mais bacanas do Rio de Janeiro. Projeto da renomada galeria paulistana Fortes Vilaça (agora, Fortes D’Aloia & Gabriel), o local, além de apresentar trabalhos de diferentes artistas, vai abrigar eventos e encontros para discussões culturais, num galpão feito sob medida para o empreendimento, com vistas para a pista de corrida e as montanhas. Em junho, entra em operação o Camolesi, misto de restaurante, pizzaria, cervejaria e clubinho de jazz, que terá no comando o empresário Cello Macedo (dono de outras casas famosas no Rio) e o artista Vik Muniz. Outros dois negócios estão prestes a ser finalizados – a primeira galeria de Oskar Metsavaht, o fundador da Osklen, e uma nova unidade da já tradicional Nara Roesler. “O entusiasmo com que esse grupo embarcou na nossa ideia foi fundamental para a viabilidade do projeto”, diz Neves.

A primeira turma a apostar na Vila Portugal foi o trio Márcia Fortes, Alessandra D’Aloia e Alexandre Gabriel, da Carpintaria – apresentado a Neves e Pellegrino por intermédio dos artistas Otávio e Gustavo Pandolfo, OSGÊMEOS. “A ideia inicial, nas conversas com o Neves e o Pellegrino, era montar quatro restaurantes e uma galeria de arte. Mas nós os convencemos a dar mais ênfase à parte cultural”, conta Márcia Fortes. “O projeto, então, se encaminhou para as três galerias e o clube de jazz.”

A exposição Uma Canção para o Rio, feita com a colaboração de dois curadores de Los Angeles, Douglas Fogle e Hanneke Skerath, marcou a estreia da Carpintaria na Vila Portugal. Márcia explica que a mostra explorou a relação entre as artes visuais e a música por meio de um conjunto de obras assinadas por artistas brasileiros e do exterior – entre os quais Martin Creed, Hélio Oiticica, Nuno Ramos, Barrão e Rivane Neuenschwander. “A Carpintaria tem um conceito: ser um espaço para o diálogo cultural entre artistas e o mercado, por meio de shows, exposições e debates”, afirma Márcia. “Acho, enfim, que essa é a vocação da Vila como um todo.”

Idealizado pela primeira vez em 2010, o projeto da Vila Portugal foi marcado por uma série de obstáculos. O primeiro deles foi chegar a um modelo de negócios que atendesse tanto à necessidade dos novos ocupantes como dos sócios e frequentadores do Jockey. As negociações com a diretoria do clube arrastaram-se por mais de um ano. No final, chegou-se ao seguinte: os galeristas e empresários são responsáveis pelos custos de revitalização ou das novas construções, e pagam diretamente ao Jockey o valor dos aluguéis – em contratos de oito anos. Neves e Pellegrino ficam com um percentual sobre cada contrato.

Resolvido esse impasse, a dupla de amigos ainda precisou lidar com a morosidade para a obtenção de todas as licenças e autorizações – além de uma resistência dura da Associação de Moradores do Jardim Botânico. O grupo chegou a fazer uma denúncia no Ministério Público, acusando o clube por crimes ambientais e contra o patrimônio cultural. “Foi um erro nosso”, diz Neves. “Boa parte da confusão se deu por uma falha de comunicação.” A situação foi resolvida depois que o projeto foi apresentado de forma detalhada durante várias reuniões, com grupos de moradores e também do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão da prefeitura responsável pela preservação de edifícios de valor histórico e arquitetônico.

“Tudo é aprendizado”, diz Neves, que não esconde a satisfação ao falar da empreitada. Ele e Pellegrino são agora sócios da Negroni, uma consultoria especializada em prospectar áreas degradadas ou ociosas com bom potencial para revitalização. Outros três projetos já estão engatilhados, um deles com o próprio Jockey. Além do Hipódromo da Gávea, o clube também é dono de um complexo de três prédios no centro da cidade. “O Rio está cheio de possibilidades para projetos como o da Vila Portugal”, diz Neves. “E nós estamos com a maior disposição para executá-los.”
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Matéria originalmente publicada no site da revista “Época Negócios”, em 18/08/17.

Retrato de Jesus “Salvator Mundi”, de Da Vinci, pode arrecadar US$ 100 milhões

A pintura de Leonardo, datada de cerca de 1500, é uma das 20 obras menos conhecidas do artista e é a última em mãos privadas. Ela foi registrada pela primeira vez na coleção do Rei Charles (1600-1649), passou por um leilão em 1763 e foi redescoberta em 2005. A casa de leilões Christie's de Nova York também venderá ao seu lado a versão de Warhol da Última Ceia. Matéria de Eileen Kinsella originalmente publicada no site da artNet (artnet.com), em 10/10/17. +

A Christie's fez uma revelação nesta manhã (10/10) ao anunciar dois lotes de grande impacto para o próximo leilão de novembro: a enorme obra com 60 painéis “Last Supper” (A Última Ceia) de Andy Warhol, com uma estimativa de US$ 50 milhões, ao lado de uma obra mais peso pesado ainda: a impressionante e última obra-prima conhecida de Leonardo da Vinci, “Salvator Mundi”, que traz a estimativa de US $ 100 milhões.
As obras foram anunciadas na sede da casa de leilões no Rockefeller Center com observações de uma série de executivos, incluindo os co-chefes do departamento de arte do pós-guerra e contemporâneo Loïc Gouzer e Alex Rotter, juntamente com o especialista sênior do antigo mestre, Alan Wintermute, e o chefe do departamento do Old Master Francois de Poortere.
O Leonardo foi consignado pelo bilionário russo Dmitry Rybolovlev, conforme um representante de confiança da família confirmou para Artnet News. Ele comprou o trabalho em 2013 por US$ 127,5 milhões. (Christie's afirmou apenas que o trabalho vem de uma coleção privada européia.) Tanto o Leonardo quanto o Warhol possuem garantias de terceiros.
Explicando a decisão de colocar o Leonardo ao lado do Warhol na venda contemporânea, Gouzer disse que isso reflete no "diálogo entre esses dois artistas", bem como a propensão da Christie’s por empurrar fronteiras e "perturbar" as categorias de vendas. Ele alcançou sucesso com os recentes esforços na criação de chamadas vendas híbridas que combinam ofertas surpreendentes de arte clássica com obras contemporâneas de ponta.
Wintermute delineou a história da pintura de Leonardo durante a conferência de imprensa. Datada de cerca de 1500, a obra é uma das 20 obras menos conhecidas do artista e, segundo notícias, é a última em mãos privadas. Ela foi registrada pela primeira vez na coleção do Rei Charles (1600-1649), passou por um leilão em 1763 e foi redescoberta em 2005. Em 2011, foi exibido na Galeria Nacional em Londres.
A pintura foi considerada durante um bom tempo como se fosse um trabalho feito por um seguidor de Leonardo e foi vendida na Sotheby's London em 1958 por apenas £ 45. Wintermute notou observou que o trabalho foi examinado pelo Museu Metropolitano de Arte e considerado autêntico.
Desde que ressurgiu, o “Salvator Mundi” esteve envolvido em várias complexas e severas batalhas legais. A mais famosa aconteceu quando o trabalho incitou uma longa luta entre Rybolovlev e seu antigo assessor de arte, Yves Bouvier, que comprou o trabalho em 2013 de três concessionários em uma venda negociada pela Sotheby's “entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões", de acordo com um relatório do New York Times. Então, Bouvier supostamente vendeu para Rybolovlev por muito mais do que pagou.
"Como sabemos agora, em maio de 2013, Yves Bouvier adquiriu o Salvator Mundi de da Vinci por US$ 80 milhões", diz o porta-voz, acrescentando que o giro acrescentou "uma margem grotesca e não autorizada" de US $ 47,5 milhões. "Agora, o próximo leilão deste trabalho finalmente acabará com um capítulo muito doloroso para a família Rybolovlev".
A obra de Leonardo foi exibida por apenas duas horas na Chritie's e, em seguida, enviada para um tour mundial por Hong Kong, Sãn Francisco, e Londres, antes de retornar a Nova York em 15/11 para o leilão.
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Matéria de Eileen Kinsella originalmente publicada no site da artNet (artnet.com), em 10/10/17.