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Andrea Rosen fecha galeria e anuncia co-representação de Felix Gonzalez-Torres

A renomada galeria do Chelsea vai fechar depois de 27 anos. +

Depois de quase três décadas, Andrea Rosen fechará sua galeria de Nova York, localizada na Rua 24 Oeste. Ela está tomando o movimento drástico, a fim de consolidar seu foco na represnetação de Felix Gonzalez-Torres.
Este movimento drástico tomado por ela é para consolidar seu foco na propriedade de representar o artista Felix Gonzalez Torres. Em uma declaração enviada em 21/02/17, Rosen explicou sua motivação para mudar de rumos, e expressou sua tristeza por desviar-se de um curso que ela tinha seguido por 27 anos. Eu percebi que para que ser abertamente destemida e responsiva ao nosso tempo requer mobilidade, flexibilidade e disposição para mudar, então decidi mudar minha vida e o foco da galeria de forma significativa”, escreveu ela.
Rosen não vai mais representar artistas vivos, mas continuará a trabalhar significativamente com a representação de Felix Gonzalez-Torres, artista cuja obra inaugurou a galeria em 1990, e com quem trabalhou pessoalmente até sua morte em 1996.
Hoje, ela é executora Presidente da Fundação Félix Gonzalez-Torres, um grupo fundado em 2008. Andrea Rosen Gallery agora co-representará a propriedade do artista com a Galeria David Zwirner. "Eu me aproximei de David para co-representar Félix, a escolha é óbvia, pois eu respeito muito o rigor do programa de David e o foco de sua galeria na representação holística de artistas. O futuro envolvimento com o resto dos artistas que andrea representa, de Lizzie Fitch e Ryan Trecartin a Andrea Zittel, permanece obscuro.
"Por enquanto a galeria continua a existir com atividades seletivas, como a representação de Felix Gonzalez-Torres, mas eu não terei mais um espaço público permanente e também não representarei mais artistas vivos”. “Esta transição ocorrerá nos próximos meses ", completa ela.
Rosen é visivelmente vaga a respeito de onde exatamente sua energia será transferida, mas ela explica em sua declaração que a galeria consumiu sua vida, e que agora, está diminuindo o ritmo, talvez para se concentrar na maternidade de sua filha adolescência.
"Eu sempre achei que estar aberto ao público e apoiar artistas era o canal perfeito para tudo o que me importava. No entanto, percebi que a única maneira de estar verdadeiramente disponível e de dar um exemplo para minha filha do que significa ser um cidadão ativo, gentil e conectado, ou tentar viver sem um compromisso ético exige tempo e a simplificação da minha vida."
Artnet News chegou à perguntar para a galeria sobre planos para outras propriedades representadas pela galeria, como a Fazenda de Alina Szapocznikow, mas não recebeu uma resposta até o momento da publicação.
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Texto de de Alyssa Buffenstein publicado originalmente no site Artnet | 22/02/17

Olhe antes que apaguem

Enquanto a maior cidade do País enfrenta problemas graves, a nova gestão quer fazer faxina nos muros de São Paulo. +

Em apenas seis horas de seu primeiro dia como prefeito de São Paulo, João Doria Jr. e boa parte de seus secretários posavam para as câmeras enquanto varriam por uns segundos a Praça 14 Bis, na região central da cidade. Essa seria a primeira de uma série de ações para divulgar o carro-chefe da gestão até agora: o programa Cidade Linda. Na ocasião, Doria prometeu voltar à atividade de gari todas as semanas. Mas, em vez disso, vestiu-se de pintor para tingir os muros da cidade de cinza, apagando grafites e pichações, e inaugurando uma campanha contra manifestações que, há tempos, são consideradas “patrimônios culturais” da cidade.
Uma decisão judicial do dia 13 de fevereiro proíbe que a Prefeitura de São Paulo apague grafites espalhados pela cidade sem a autorização do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo). A ação foi movida após Doria apagar um mural na Avenida 23 de Maio e pintar o muro de cinza.
Em caso de descumprimento, a Prefeitura será multada em R$ 500 mil diários, além de outras sanções. A Prefeitura de São Paulo informou que recorrerá da decisão: “Cabe lembrar que a Prefeitura não está removendo grafites de maneira indiscriminada. Na Avenida 23 de Maio somente foram apagadas obras pichadas e em mau estado de conservação –no local, será feito um trabalho paisagístico que cobrirá as paredes com vegetação. A Prefeitura de São Paulo é, portanto, favorável aos grafites e contrária às pichações”.

A discussão é antiga. Nos anos 1960, o grafite surgiu como forma de protesto. “Artistas pioneiros, como Alex Vallauri e Maurício Villaça, foram presos por realizarem trabalhos sem autorização”, diz Lilian Amaral, especialista em arte urbana. “Mas hoje as pessoas se acostumaram com essa estética.” Para ela, limpar os grafites é apagar memórias. Lilian explica: “Não é todo mundo que se identifica com esse tipo de expressão. Mas nem todos gostam do Cristo Redentor, no Rio, ou do edifício do Banespa, em São Paulo. Mesmo assim, eles fazem parte da cidade e de sua história”.
Mas a questão está longe de ser unânime. A produtora cultural e jornalista Perla Nahum não pensa da mesma forma. “Sou entusiasta de tudo que João está fazendo. Ele é competente. Adoro a proposta do Cidade Linda. Não dá para cada um fazer o que quer num ambiente em que todos vivem. São Paulo é uma cidade que já tem muita informação. Pichação deprime, as pessoas querem deixar marcas de ódio indiscriminado. Isso agride as pessoas, e eu não quero ser agredida, muita gente não quer.”
Seja como for, diversos pontos de São Paulo reúnem desenhos, como grafites e pichações, que estão incluídos em roteiros turísticos: Beco do Batman, na Vila Madalena, esquina das ruas Santo Antônio e 13 de Maio, no Bixiga, as pilastras do Minhocão, no centro, avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte, muros da avenida 23 de Maio, que liga o aeroporto de Congonhas, na zona sul, ao centro…
A decisão de “limpar” a cidade, começando justamente pelos grafites e pichações, gerou reação nas ruas e fora delas. “Doria: Pixo é arte” informa uma das frases que irromperam nos muros. Nos gabinetes, a proposta estaria causando divergências dentro da prórpia administração. Nada confirmado, mas dizem que André Sturm, secretário municipal de Cultura, estaria fotografando obras consagradas no concreto público para preservá-las.
As redes sociais, como de hábito, não perdoaram. “Quando será que Doria vai se fantasiar de prefeito?”. O novo gestor recebeu até o apelido de Doria Grey (cinza em inglês), em referência ao personagem do escritor Oscar Wilde, no romance O Retrato de Dorian Gray.
Mas o que seria lindo para a gestão municipal, levando em conta que a beleza e a feiura de São Paulo não são tão óbvias assim? Pense: segundo o Mapa da Desigualdade, feito pela Rede Nossa São Paulo, que reúne mais de 700 organizações da sociedade civil e é coordenada pelo empresário Oded Grajew, a expectativa de vida de quem mora em Cidade Tiradentes, no extremo leste, é de 53,85 anos, enquanto no distrito de Pinheiros, na zona oeste, é de 79,67 anos. Uma diferença de mais de 25 anos.
São Paulo, a maior, a mais rica e a mais influente cidade do País, ainda sofre com um déficit de 25% na coleta e tratamento de esgoto dos imóveis regulares. Esgoto, bueiros e escombros, aliás, são suportes usados pelo artista plástico Zezão, que começou a grafitar nos anos 1980 e ganhou espaço justamente porque se aventurou pelos subterrâneos do rio Tietê, jogando luz em problemas sérios de infraestrura da cidade.
Seu nome hoje é conhecido pelo mundo por causa de suas obras – ele já expôs em cidades dos Estados Unidos, em diversos países da Europa, como Inglaterra, Alemanha, Suíça, França e Itália, e na Argentina. Em São Paulo, é representado pela galeria Zipper, onde suas obras são avaliadas, em média, em R$ 25 mil.
De acordo com o texto publicado no site da prefeitura, o programa Cidade Linda contempla “serviços de manutenção de logradouros, conservação de galerias e pavimentos, retirada de faixas e cartazes, limpeza de monumentos, recuperação de praças e canteiros, poda de árvores, manutenção de iluminação pública, reparo de sinalização de trânsito, limpeza de pichações, troca de lixeiras e reparo de calçadas”.
Além de expectativa de vida e falta de rede de esgoto, outras questões implicam a dinâmica de melhoria de uma cidade do porte de São Paulo e há exemplos de sobra. Oficialmente, faltam 65 mil vagas em creches municipais. O déficit habitacional é de 358 mil famílias. A cidade tem ainda uma frota de oito milhões de carros e uma carência de áreas verdes. Rios e córregos também precisam de ajuda e existem 167 parques propostos no Plano Diretor que precisam ser tirados do papel. Isso sem falar na poluição do ar e no desemprego que afeta quase dois milhões de pessoas na região metropolitana. A pergunta é: o que incomoda mais?
Há ainda uma contradição nessa discussão localizada, totalmente paulistana, porque os grandes grafiteiros brasileiros são conhecidos no mundo todo. Além de Zezão, OsGêmeos, Eduardo Kobra, Nunca, Speto… correm o mundo para mostrar suas obras em muros, galerias e museus.
Promessas
Não importa. Ainda neste mês de fevereiro a prefeitura pretende fazer a “faxina” nas avenidas Mateo Bei, Ipiranga, Cruzeiro do Sul e São Luis, além de assepsia no centro histórico (Praça da Sé, Líbero Badaró e Pateo do Colégio). “A atividade do grafite precisa ser disciplinada. Todo mundo sabe produzir coisas maravilhosas, mas existem formas de fazer isso chegar ao público”, afirma Perla. “Sobre os painéis da 23 de Maio, prefiro que aquilo seja verde. Existe até uma proposta de tornar aquilo um jardim vertical.”
Miguel Chaia, pesquisador do Núcleo de Arte, Mídia e Política da PUC-SP, afirma que o Cidade Linda é fruto de uma política conservadora, que quebra com tradições anteriores e cria rupturas em cima da ideia de excluir. “O programa enfatiza a importância de repressão e controle. O grafite é o pretexto para dizer que os radicais, que ele iguala com marginais, serão controlados. É o apagamento tanto do desenho e da escrita quanto do personagem e ator radical.”
Para ele, o programa Cidade Linda é um marketing, digamos, perverso. “Começa polemizando, cria a relação amigo-inimigo e se mostra à sociedade como quem está enfrentando os rivais, opositores. Política é o reino da aparência, Maquiavel já dizia que político precisa aparentar ser o que não é. Doria se transveste de trabalhador, indo contra a ideia do político que não trabalha.”
Outra relação construída por Doria, de acordo com Chaia, é a da política com a arte. “O conceito de arte é polissêmico, ele se altera, tem camadas. O novo prefeito é uma pessoa arguta, que sentiu o espírito do tempo. Se pensar bem, ele faz performance. Não no mesmo conceito da arte, mas se apropriando da linguagem da arte. Isso conduz a situações trágicas, como o realismo socialista, a arte nazista e a arte fascista. Esses regimes se utilizaram da arte. Aliás, quem sacou primeiro essa fonte da relação entre política e estética foram os regimes totalitários.”
O urbanista Martin Corullon concorda. “O programa é mais um conjunto de ações de marketing do que políticas públicas de fato, que não resolverá os problemas que, em tese, pretendia solucionar, como os de moradia e lazer. E isso tudo é feito de forma violenta. Em vez de buscar o diálogo, é por meio da repressão.”
Wellington Neri, educador e artista plástico, diz que a gestão é um grande equívoco. “Doria não conhece nada da cidade. Isso já ficou evidente. Em todas as metrópoles do mundo, existe um grande avanço com relação à cultura urbana e a apropriação da cidade. Mas ele está por fora dessas discussões.” Neri é membro do Imargem, coletivo que nasceu no Grajaú, na zona sul, e hoje atua por toda a extensão da cidade com ações artísticas e pedagógicas.
Enquanto Neri concedia entrevista à reportagem da Brasileiros, o grafiteiro Mauro, do Veracidade e do Imargem, era detido pela polícia no Parque do Ibirapuera e levado para a Delegacia de Crimes Ambientais. Mauro estava lavando com água a tinta cinza que encobria uma de suas pinturas. “Doria quer criminalizar a cultura da rua”, diz Neri. “Ele declarou guerra e isso não é bom para ninguém, nem para ele nem para nós. O braço pesado do Estado, que é a polícia, vai cumprir a função de reprimir. E todo mundo sabe onde a corda estoura: nas costas do negro da periferia.”
Fato é que o pixo e a desigualdade são íntimos. “É uma forma de a população que é esquecida, deslocada pelo capital, se fazer presente. A importância de um espaço urbano sendo ocupado e os confrontos socioeconômicos por trás da questão. Existem sujeitos ativos, criativos, que querem se colocar no espaço público, e a reação da política conservadora é não admitir isso, que eles consideram uma intromissão”, diz Miguel Chaia.
Retirada
Embora no programa Cidade Linda não conste nada que se refira a moradores de rua, a prefeitura cutucou os sem-teto, que somam, de acordo com o último censo, de 2015, 15.905 pessoas. Nos primeiros dias de governo, moradores dos arredores da Praça 14 Bis foram expulsos dali para serem realocados em uma quadra e em um estacionamento construídos debaixo do Viaduto 9 de Julho. O espaço foi cercado de tela colorida. Desta vez, a preferência foi pelo verde. A prefeitura alegou tratar-se de uma medida de proteção aos sem-teto.
Mas há quem a considere higienista. Para o padre Julio Lancellotti, da pastoral do Povo da Rua, esta gestão quer “esconder a população de rua da região”. Ainda de acordo com ele, o grupo é ameaçado pelos moradores do bairro, que são contra o uso da quadra para acolher pessoas que não têm teto. Mesma opinião tem a urbanista Raquel Rolnik, professora da FAU-USP. “O Programa Cidade Linda inclui ações de limpeza urbana, com alvos como grafites e pichações e moradores de rua”, escreveu em seu blog.
Esse não foi o único ataque a quem vive em calçadas e sob marquises. Em 21 de janeiro, Doria revogou um decreto que dizia que as ações de “zeladoria” deveriam ser preferencialmente realizadas das 7h às 18h, de segunda a sexta, para evitar ações, por exemplo, enquanto as pessoas estivessem dormindo. Agora, estão liberadas as ações em qualquer dia e horário sem justificativa.
Também era vedado recolher “itens portáteis de sobrevivência” – papelões, colchões, colchonetes, cobertores, mantas, travesseiros, lençóis e barracas desmontáveis. Se surgisse um vacilo, a recomendação era clara: “em caso de dúvida sobre a natureza do bem, os servidores responsáveis pela ação deverão consultar a pessoa em situação de rua”.
Em resposta ao cancelamento desses dispositivos, três dos quatro servidores da Coordenação de Políticas para a População em Situação de Rua pediram exoneração. A prefeitura afirmou ser um mal-entendido e defendeu que “a retirada de quaisquer objetos pessoais, dentre eles cobertores e lençóis, continua proibida, até porque seria desumano”.
Sobre ter ou não ter grafites, a urbanista Paula Santoro, também da FAU-USP, diz que a política de Doria é autoritária e gera um acirramento de conflitos, reforçando um discurso de ódio que ganha força nas redes sociais. “Não tem respaldo popular, nem testou quem é a favor e contra, usa um discurso de beleza e feiura para escamotear a tentativa de inviabilizar as ações de resistência e contestação das pessoas e dos movimentos sociais através do grafite. E essa invisibilização se dá por meio do apagamento da presença simbólica dessas pessoas, dessa periferia. Tentando mostrar que essa diversidade não existe.” Mas todo mundo sabe que ela existe.
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Texto publicado no site da revista Arte! Brasileiros | 20/02/17

Marta Mestre deixa curadoria do Inhotim após menos de um ano

O Inhotim mudará sua estratégia de curadoria, contratando profissionais para atuar de forma temporária em projetos pontuais. +

Menos de um ano depois de assumir parte da curadoria do Instituto Inhotim, o megamuseu de arte contemporânea nos arredores de Belo Horizonte, a portuguesa Marta Mestre está deixando seu cargo em meio a uma reestruturação da alta cúpula do museu.
No curto período em que esteve no museu do empresário Bernardo Paz, Mestre se dedicou à programação das comemorações dos dez anos da instituição no ano passado, centrada numa homenagem a Tunga, morto no ano passado, além da mostra da artista Claudia Andujar agora em cartaz em Lisboa.
\\\"Meu objetivo foi concretizar uma experiência pontual, focada na especificidade desta instituição por um lado, e tomar contato com a expertise do Inhotim em dinamização de projetos culturais num modelo entre público e privado, por outro\\\", diz Mestre. \\\"Entrei num momento de passagem, os dez anos da instituição, que serviram para indagar sobre o que foi feito e como será daqui para a frente.\\\"
O americano Allan Schwartzman, que integra o time de curadores do museu desde sua fundação em 2006, agora assume a direção artística do Inhotim, subsituindo o interino Antonio Grassi, que vinha acumulando o cargo com o de diretor executivo.
Schwartzman vive em Nova York e terá o apoio de María Eugenia Salcedo, ex-curadora-assistente agora alçada ao cargo de curadora-adjunta do museu. De acordo com o museu, o Inhotim agora mudará sua estratégia de curadoria, contratando profissionais para atuar de forma temporária em projetos pontuais.
Além de assumir o comando do Inhotim, Schwartzman acaba de vender sua agência de consultoria, a Art Agency, Partners para a Sotheby\\\'s, uma das maiores casas de leilão do mundo. Na negociação de US$ 85 milhões, ou R$ 263 milhões, Schwartzman agora é responsável também pela consultoria aos clientes da casa de leilões, entre eles Bernardo Paz, fundador do Inhotim.
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Texto de Silas Martí publicado originalmente no jornaç Folha de S. Paulo | 20/02/17

Arte precario: ¿De qué viven los artistas y comisarios jóvenes?

Rondan la treintena y reivindican mejoras dentro de su profesión, en un sector en el que cada vez hay más prácticas abusivas. +

Ni totalmente consagrados, ni radicalmente emergentes. Rondan la treintena y reivindican mejoras dentro de su profesión, agobiados por la precarización de un sector que adopta, cada vez más, prácticas abusivas. La mayoría han trabajado en el extranjero -muchos de ellos se encuentran viviendo fuera-, venden en ferias, protagonizan exposiciones individuales, ganan reputados premios y, sin embargo, no encuentran la tan demandada estabilidad económica.

Esta semana se presenta en el Campus Nebrija Madrid-Princesa el exhaustivo estudio La actividad económica de los/las artistas en España, coordinado por los profesores Isidro López-Aparicio (Universidad de Granada) y Marta Pérez (Universidad Antonio de Nebrija). La investigación recoge los testimonios de 1.100 creadores, no solo jóvenes. Pero, igualmente, el paisaje que describe es desolador: "Más del 45% de los artistas afirma que sus ingresos totales anuales, ya sea por actividades artísticas o de otra índole, se sitúa por debajo de los 8.000 euros, es decir, por debajo del salario mínimo interprofesional en España. De esos ingresos, los que proceden del arte llegan al 20%".

A las puertas de ARCO y con dos muestras de referencia recién inauguradas en Madrid ( Generaciones y Circuitos), hablamos con un grupo de comisarios y artistas sobre presente y futuro del mundo del arte. ¿Es posible vivir de ello?

Malas Prácticas
El caso de Alfredo Aracil (1984), responsable de Proyectos durante cinco años en LABoral, y a la vez falso autónomo, se convirtió durante la época de la crisis en una práctica habitual en muchas instituciones. "Son personas que acuden a un lugar de trabajo, fichan, firman, tienen encomendadas tareas concretas e incluso de cierta responsabilidad, pero son situadas al margen de cualquier convenio y han de pagarse su propia Seguridad Social", contaba José Manuel Costa en este mismo medio. Aracil dejó el trabajo hace un año y denunció; ahora se encuentra a la espera de juicio.

"El mundo del arte puede estar inspirando al último capitalismo, sobre todo en lo que tiene que ver con lo dóciles que somos los productores culturales, que no conocemos sindicatos", señala. "Tampoco ponemos ninguna pega a no tener vacaciones, no tener una jornada laboral reglada, cambiar de domicilio cada poco tiempo y, para colmo, estar dispuestos a ofrecer nuestros conocimientos como capital".
El trabajador asturiano se rehizo del daño tras abandonar el cargo y durante 2016 comisarió dos exposiciones, programó un ciclo de cine y estuvo preparando la muestra Apuntes para una psiquiatría destructiva, que se inaugurará a mediados de marzo en la Sala de Arte Joven de Avenida de América. Sin embargo, sigue pensando que la precariedad es la tónica general y que "no puedes hacer planes a dos años vista".
Regina de Miguel (1979) vive en Berlín desde hace siete años. Ella ha sido una de las seleccionadas en Itinerarios 2017, la beca que la Fundación Botín otorga a ocho reconocidos creadores cada temporada y gracias a la que ha financiado la producción de una película que se podrá ver a partir del 18 de febrero.

La artista malagueña, que también expuso en 2016 en Berlín, Gijón, Madrid, Lisboa y Bogotá, insiste en que es francamente complicado vivir del arte. Todo al final "pasa por la autoexplotación, la precariedad máxima y la desigualdad con respecto a las instituciones que no respetan pactos acordados o plazos de pago".

"Las condiciones conllevan la precarización a todos los niveles", valora Oriol Fontdevila (1978), miembro del equipo de Sala d'Art Jove de la Generalitat de Catalunya. "No solo económico, sino que la calidad del trabajo se puede ver mermada por las dinámicas de multiplicación de actividad a las que nos tenemos que someter por mera supervivencia".
Si a esto le sumamos la total incomprensión de la administración, tenemos una bomba de relojería que de vez en cuando estalla y se presenta en forma de inspecciones. De Miguel relata como el ir y venir de diferentes cantidades de dinero en su cuenta, destinadas a producción, son el caldo de cultivo para "acabar teniendo una inspección de trabajo que se pregunte qué quiere decir esa beca" fruto "de una mala formulación de esas ayudas" y "una fuerte desconfianza hacia la actividad del artista".

Curriculum vs. pagar la luz
"Hay una idea instalada por la cual parece más importante aumentar tu curriculum que pagar la factura de la luz", cuenta el artista Julián Cruz (1989), editor de una de las publicaciones más interesantes que existen en español: Nudo. "Los artistas tienen que competir entre ellos por reconocimientos que, en la mayoría de las ocasiones, son simbólicos y que no suelen sacarles de su pobreza".

Rubén Rodrigo (1980) fue uno de los seleccionados en la última convocatoria de Ayudas a la Creación Visual de VEGAP, dotado con 7.000 euros para producción de obra en la categoría Artes Plásticas. ¿Cuál es su opinión en que el premio solo implique la realización de obra? "Es una cuantía generosa y ellos buscan la excelencia en el proyecto. Si esa cantidad al final la destinara a pagar el alquiler de mi casa y la comida, no me quedaría nada para trabajar".

Por su parte, el pintor José Díaz (1981), que en 2016 celebró su segunda exposición individual en la galería The Goma, habla de la falta de medios para vivir dentro del arte contemporáneo. "Básicamente hay dos vías, una como artista de galería que sobrevivirá en la medida en que haga ventas. Pero, lamentablemente, España no cuenta con demasiados coleccionistas como para hacerlo sostenible y peor aún, no contamos demasiado fuera como para exportar", mientras que la segunda sería dentro del mundo de la institución, que permite prosperar unos contados años mediante becas y subvenciones.

La comisaria Carolina Jiménez (1983), una de las tres ganadoras en 2016 de Inéditos, la convocatoria de La Casa Encendida que fomenta la inserción de los jóvenes comisarios en los circuitos profesionales, también es muy dura con el papel de las instituciones y su uso del dinero público. "Artistas que jamás imaginarías por su renombre y trayectoria lo pasan realmente mal para pagar el alquiler", revela sobre una situación que ya se ha hecho frecuente.

"Hoy en día un artista tiene que trabajar tanto hacia dentro como hacia afuera", enuncia Cristina Garrido (1986), quien durante el año pasado recibió dos becas de residencia en el extranjero. La artista madrileña, cuya obra gira alrededor de la crítica institucional, sostiene "que nuestro contexto beneficia al creador muy joven (becas, certámenes). Pero no existe una estructura en la que instituciones, agentes y coleccionistas colaboren para generar un contexto artístico rico y sostenible".
Jiménez, que acaba de mudarse a Barcelona, aunque sigue viviendo a distancia de su trabajo en Berlín, desmonta el supuesto interés de los premios: "En primer lugar por su propio carácter individual y puntual, que no produce retorno en el tejido artístico y, en segundo lugar, por sus modalidades, que hacen que tampoco reviertan en la carrera de los propios premiados, al margen de la difusión mediática que genera el anuncio del premio". Y llama la atención sobre los auténticos beneficiarios del "tinglado no artístico": empresas de montaje, catering, agencias de viaje, etc.

España es un país de fachadas
"Tenemos medios, pero a medias", cuenta un crítico Guillermo Mora (1980), que en 2016 ha tenido una exposición individual en el Centre d'Art La Panera (Lleida) y dos exposiciones colectivas organizadas por DKV, en el Museo Lázaro Galdiano y en el MUPAM de Málaga. "España es como imaginar un engranaje mecánico con piezas exquisitamente terminadas, pero sin carburante que las mueva. Cuando hablo de carburante hablo de dinero, que al fin y al cabo es lo que mueve el engranaje".

La escasez es la nota dominante en un país donde importa más el envoltorio que el contenido. "Disponemos de museos y espacios envidiables, que quieren programar, pero que no pueden implicarse en las producciones porque no disponen de dinero. Muchos proyectos no se llevan a cabo por este motivo", destaca Mora, que viajó el año pasado a Nueva York gracias a una residencia en ISCP. "Y por otro lado tampoco existe un mercado privado fuerte que apoye y sustente las producciones y carreras artísticas", remata.

El madrileño Santiago Giralda (1980), que ganó Generación 2013 y este año ha sido becado por la Academia de España en Roma, denuncia que “el artista está muy desamparado. Las cuotas de autónomos son muy elevadas para alguien que no tiene ingresos fijos. El IVA tampoco es equiparable con el de otros países y, si existiera, la Ley de Mecenazgo sería fundamental”.

La cineasta Ana Esteve Reig (1986), además de desarrollar una importante carrera como creadora -el año pasado participó dentro del festival Márgenes con El Documental de Dalila y fue seleccionada para la edición de Circuitos 2017-, también da clases de videoarte en la Universidad Nebrija. La actividad docente junto a otro tipo de trabajos alimenticios, como la edición de vídeos, hacen que su punto de vista sea más crítico. "Existen becas y premios, pero es muy difícil sostenerse solo a base de concursos", asegura. "Hasta ahora, yo no he encontrado el modo de seguir produciendo sin dejar de tener otro tipo de trabajos".
Es prácticamente imposible vivir del arte. De hecho, la mayoría de los artistas, algunos muy conocidos y con carreras muy amplias, subsisten con otros trabajos; el más común de ellos es la enseñanza.
Lo que le pasa a Reig, de 30 años, también le ocurre a artistas más veteranos. Pepo Salazar (1972), uno de los elegidos para representar a España en la última Biennale di Venezia y cuya obra se pudo ver el año pasado en galerías y museos de Nueva York, París, Amsterdam, Colonia, Barcelona, Madrid o Vitoria-Gasteiz, apostilla que "es prácticamente imposible vivir del arte. De hecho, la mayoría de los artistas, algunos muy conocidos y con carreras muy amplias, subsisten con otros trabajos; el más común de ellos es la enseñanza". Salazar habla por experiencia. Durante veinte años, desde 1992 hasta 2011, compaginó su labor artística con el cargo de director creativo para series de animación.
Un último ejemplo: Matadero es uno de los principales contenedores de arte contemporáneo del Ayuntamiento de Madrid. Vanesa Viloria (1979) estuvo alternando contratos temporales como programadora y coordinadora de proyectos dentro de la institución de 2011 a 2015. A pesar de la inestabilidad del sector, explica que hace pocas semanas rechazó una oferta de trabajo que le proponía llevar la producción de un conocido festival de la Comunidad de Madrid, "porque la propuesta económica que hacía la empresa adjudicataria estaba escandalosamente por debajo de los precios de mercado".

Viloria incide en los procesos de selección de estas empresas y los leoninos pliegues de condiciones. "Cuando en unos pliegos de condiciones se premia la oferta económica más baja, sin proteger los salarios de los trabajadores y sin tener previsto ningún mecanismo que evalúe la eficiencia del proyecto, además de poner en riesgo la solvencia económica de las personas y la calidad de las propuestas culturales, contribuyes al empobrecimiento de la cultura", concluye esta productora cultural, que desde enero de 2016 colabora con el Área de Cultura de Podemos. Parece que vivir del arte se ha convertido, más que nunca, en una actividad de riesgo.
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Artigo de Abraham Rivera originalmente publicado no jornal El Diario (http://www.eldiario.es) em 14/02/17.

Grécia rejeita solicitação de Gucci para fazer desfile na antiga Acrópole

A Grécia também disse “Não” a uma oferta de 2 milhões de euros para ajudar a financiar a restauração do local. +

O Ministério da Cultura da Grécia rejeitou um pedido da marca de luxo italiana Gucci para usar a antiga Acrópole para um evento de moda em junho deste ano.
A Acrópole é um Patrimônio Mundial classificado pela UNESCO, a organização cultural das Nações Unidas. Sobre o pedido da casa de luxo italiana, o Conselho Arqueológico Central da Grécia (KAS) declarou: "O caráter cultural único dos monumentos da Acrópole é inconsistente com este tipo de evento".
"O Parthenon é um monumento importante e um símbolo universal que nós gregos protegemos, particularmente, à luz de nossos esforços seguem para preservar e reunir os mármores do Parthenon," disse a ministra Lydia Koniordou da cultura grega a respeito da decisão.
"Temos o dever de defender a importância da Acrópole ... um símbolo global de democracia e liberdade", sublinhou.
A Gucci queria criar uma passarela entre o Parthenon e do Erechtheion para um desfile de 15 minutos com um público de cerca de 300 convidados. Em contrapartida, o jornal grego de língua inglesa Ekathimerini informa que a marca de moda ofereceu um subsídio de 2 milhões de euros para obras de restauro do local durante um período de cinco anos ou financiar um projeto semelhante.
No ano passado, em seu aniversário de 80 anos, a marca de moda de luxo Fendi realizou um espetáculo impressionante na icônica Fonte de Trevi de Roma, cujo subsídio de US $ 2,2 milhões ajudou a financiar o restauro do patrimônio.
Os pedidos de uso comercial de monumentos antigos gregos são muitas vezes negados. A Acrópole, no entanto, foi aprovada para acesso no passado.Em 2008, a cantora Jennifer Lopez realizou uma sessão de fotos lá, e em 2014, filme "The Two Faces of January" estrelado por Viggo Mortensen e Kirsten Dunst filmou algumas cenas em suas instalações.
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Texto de Perwana Nazif publicado originalmente no site Artnet | 17/02/17

Restauração desastrosa de afresco salva economia de cidade espanhola

Considerada a pior restauração do mundo, a tentativa de recuperar o afresco Ecce Homo começou como um desastre para a arte, mas se transformou na salvação da cidade de Borja que já recebeu cerca de 300 mil turistas interessados em conhecerem a "nova" obra de arte. +

Quem não se lembra do desastre causado por uma senhora no afresco “Ecce Homo”, em 2012? O que foi um enorme problema à época, se transformou numa oportunidade única para atrair turistas do mundo inteiro interessados em conhecerem a desastrosa restauração. A obra, que havia sido pintada em 1930, colocou a cidade de Borja, no interior da Espanha, no centro do turismo mundial.

Desgastado com o tempo, o afresco de Elías Garcia Martínez necessitava de uma recuperação. Pensando em ajudar, dona Cecilia Giménez, uma artista plástica, na época com 81 anos, decidiu reformá-lo. O resultado passou longe do esperado. A repercussão foi tão grande, que a notícia da desastrosa restauração ganhou as manchetes dos principais jornais mundiais e viralizou nas redes sociais.

O estrago estava feito e a melhor solução era transformar o limão numa doce limonada e os espanhóis fizeram isso com sucesso. O desastre se transformou rapidamente num símbolo do vilarejo de cinco mil habitantes. Pouco tempo após o fato, surgiram os primeiros curiosos interessados em conhecerem o afresco restaurado e os moradores aproveitaram para criar um lucrativo negócio em torno da situação.
Com o aumento do turismo apareceram os primeiros souvenires com o afresco destruído. As lembranças variam entre as tradicionais camisas e canecas de porcelana ilustradas com a obra até vinhos com a marca. O turismo local que girava em torno da obra de arte conseguiu se recuperar.

Nos últimos cinco anos, a cidade recebeu mais de 300 mil turistas interessados em conhecerem a 'nova' obra de arte, que dona Cecilia ajudou a pintar. Nos cinco anos anteriores ao fato, o Santuário da Misericórdia, local onde está o afresco, havia recebido aproximadamente 10 mil visitantes. Atualmente, todo dia 25 de agosto, data da restauração, é comemorado no vilarejo com uma homenagem a artista que salvou a cidade.

Divisão dos lucros

Se hoje o fato se transformou em dividendos à dona Cecília, na época quase lhe custou um processo judicial. A família do pintor ameaçou processá-la por depredar o afresco de Martínez, mas recuou com o posterior sucesso da 'nova obra de arte'. Atualmente, os dois lados dividem os generosos lucros que a restauração malsucedida gerou. Uma parte da receita ainda é doada a um hospital local. O Santuário cobra € 1 para cada visitante admirar o famoso afresco.
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Texto originalmente publicado no site "Eco Viagem Uol" (www.ecoviagem.uol.com.br) | 16/02/17.

Foto de assassinato do embaixador russo na Turquia é eleita a melhor de 2016

Júri do concurso World Press Photo premia o fotógrafo turco Burhan Ozbilici - melhor foto do ano. Os fotógrafos brasileiros Lalo de Almeida e Felipe Dana também foram premiados, em outras categorias. +

O fotógrafo turco Burhan Ozbilici, da agência de notícias Associated Press, assina a foto do ano de 2016, que mostra os momentos subsequentes ao assassinato de Andrei Karlov, embaixador russo na Turquia. A decisão foi anunciada nesta segunda-feira (13/02/17) pelo júri do prêmio World Press Photo. O atentado foi cometido em 20/12/16, dentro de uma galeria de Ancara, por um policial turco de 22 anos, que depois dos disparos disse estar vingando atrocidades cometidas em Aleppo (Síria). A foto foi publicada na capa do "The New York Times", entre outros veículos. “É uma imagem explosiva que realmente fala sobre o ódio da nossa época. Cada vez que ela aparecia na tela a gente tinha quase que recuar”, disse a jurada Mary Calvert, em nota. Este é o principal prêmio dedicado ao fotojornalismo no mundo.
Mevlüt Mert Altintas, o atirador que assassinou o diplomata, fez oito disparos e feriu outras duas pessoas, antes de ser morto em confronto com as forças de segurança. “Deus é grande! Deus é grande! Nós morremos em Aleppo, vocês morrem aqui! Matam gente inocente em Aleppo e na Síria!”, gritou ele, empunhando a arma. O fotógrafo premiado contou no ano passado que estava por acaso no local do atentado, uma galeria de arte onde o embaixador participava da inauguração de uma exposição de fotos. Quando o agressor começou a disparar, Ozbilici continuou clicando em vez de se proteger dos tiros. “Pensei: ‘Estou aqui. Mesmo que ele me ferir ou me matar, sou um jornalista e devo fazer meu trabalho’. Eu poderia ter me deslocado para me esconder, mas nesse caso como iria responder quando perguntassem por que eu não fiz fotos?” Ozbilici, que trabalha há 27 anos para a Associated Press e já retratou, entre outros temas, o êxodo dos curdos do Iraque depois da morte de milhares de pessoas por causa dos ataques com gás ordenados por Saddam Hussein, então no poder. Cobriu também conflitos na Arábia Saudita, Egito e Síria.
Esta edição do World Press Photo teve a participação de 5.034 fotógrafos de 125 países. O júri avaliou 80.408 imagens, e o norte-americano Jonathan Bachman ganhou na categoria Temas Contemporâneos, com uma foto da enfermeira negra Iehsia Evans enfrentando pacificamente a tropa de choque policial em Baton Rouge, durante os protestos contra a morte de um homem, também negro. Pouco depois, a mulher e vários outros manifestantes foram detidos.
O vírus zika foi contemplado pelos especialistas do World Press Photo com uma série sobre os bebês com microcefalia e suas mães, de autoria do brasileiro Lalo de Almeida. Houve prêmios também para pautas como o enterro do ex-presidente cubano Fidel Castro, a violenta luta contra o tráfico de drogas ordenada pelo presidente filipino, Rodrigo Duterte, a luta das comunidades nativas dos Estados Unidos contra o oleoduto que deverá cruzar suas terras ancestrais em Dakota do Norte e a crise dos refugiados no Mediterrâneo.
A primeira edição do World Press Photo data de 1955, quando um grupo de jornalistas da Associação Holandesa de Fotojornalismo transformou o prêmio nacional da instituição em uma competição internacional. Naquele ano, 42 colegas de 11 países apresentaram 300 imagens. Em 1956, a cifra de fotos quadruplicou, com participantes de 22 nacionalidades.
No ano passado, o prêmio de melhor foto do ano foi dado a uma imagem que mostrava o drama dos refugiados no Mediterrâneo, de autoria do australiano Warren Richardson. Ela retrata o momento em que um homem entregava um bebê a outra pessoa sob uma cerca na fronteira entre a Hungria e a Sérvia.
O enfoque do prêmio também mudou ao longo das décadas. Desde o princípio, o júri evita se concentrar apenas no estilo das fotos. Mas nas primeiras edições havia as categorias Notícias e Esportes, Reportagens e Séries, com uma seção especial para as imagens a cores. Depois, as fotos noticiosas passaram a ser separadas da categoria intitulada Reportagens de Interesse Geral.
Às vezes, uma foto que não se enquadra totalmente no regulamento é mencionada pelo júri por sua relevância. A primeira a receber essa menção foi feita pelo astronauta Edwin Aldrin durante seu passeio de 1969 pela lua. “Sem ela, a narrativa visual do ano teria estado claudicante”, disseram naquela ocasião os jurados, que procedem de países industrializados e em desenvolvimento, professam diversos credos e têm distintas filiações políticas.
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Texto de Isabel Ferrer originalmente publicado no site "El País" (http://brasil.elpais.com) | 13/02/17.

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World Press Photo premia dois fotógrafos brasileiros

Os trabalhos dos fotógrafos brasileiros Lalo de Almeida e Felipe Dana foram premiados nesta segunda-feira (13/02/17), em Amsterdã, pela organização World Press Photo, que destaca as melhores fotos jornalísticas em nível internacional a cada ano.
Lalo de Almeida ficou em segundo lugar na categoria "Contemporary Issues" (histórias de assuntos contemporâneos) por uma série de imagens sobre as consequências do vírus da zika em crianças brasileiras.
"Para mim, é sempre uma questão delicada. Como retratar doenças? Almeida faz isso de uma forma muito amável", explicou o diretor da World Press Photo, Lars Boering, que ressaltou o fato do fotojornalista ter alcançado seu objetivo "sem se concentrar em imagens excessivamente dramáticas".
Os bebês aparecem em preto e branco, com as mães e em diferentes situações, como em uma consulta médica, sendo banhados ou tomando uma mamadeira.
"Vimos muitas fotografias de crianças vítimas da zika", lembrou o presidente do concurso, Stuart Franklin, que considerou Lalo de Almeida "muito respeitoso e com um olhar muito empático" por não tentar mostrar um "aspecto 'freak'" nas crianças.
O outro brasileiro premiado, Felipe Dana, ficou em terceiro lugar na categoria "Spot News" (notícias da atualidade) por uma foto tirada em Mossul em novembro de 2016 durante uma batalha entre tropas iraquianas e combatentes do grupo jihadista autodenominado Estado Islâmico.
Dana, que cobriu este conflito para a agência americana "Associated Press", capturou com sua câmera as chamas produzidas pela explosão de um carro-bomba, que se vê ao fundo da imagem. Em primeiro plano, três soldados iraquianos se protegem por trás de um comboio, que hasteia uma bandeira nacional.
Franklin afirmou que a foto "é muito difícil de ser tirada" e reconheceu que, após terminar a avaliação do concurso, foi ao site da agência de Dana para observar seu trabalho.
"Tinha curiosidade e acho que ele tem um olhar fantástico", concluiu o presidente do concurso.
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Texto originalmente publicado no site "Terra" (https://diversao.terra.com.br) 13/02/17.

Mês da História Negra rende diversas mostras nos EUA

O "Black History month" é uma celebração às contribuições dos afro-americanos à história, sociedade e cultura dos EUA. Confira 11 exposições na cidade de Nova York e pelo país apresentando a produção de artistas afro-americanos. +

Dia 01/02/17 marca o início do mês da História Negra ("Black History month"), em celebração às inúmeras contribuições dos afro-americanos à história, sociedade e cultura dos EUA. Entre os eventos comemorativos, há 11 exposições na cidade de Nova York e pelo país, apresentando a produção de proeminentes artistas afro-americanos.

1. “Lorna Simpson: Hypothetical?”
No Fisher Landau Center for Art (38-27 30th Street, Long Island City, Queens)
“Hypothetical?” é uma das primeiras incursões de Lorna Simpson em instalação sonora. Foi exibida pela primeira vez na Whitney Biennial de 1993. Não é apresentada desde a retrospectiva itinerante da artista de 2006 e 2007. Composta de bocais de instrumentos de sopro e gravações de respiração difícil, a peça aborda as limitações da linguagem.
Entrada franca
Até 07/08/17

2. “Mickalene Thomas: Waiting on a Prime-Time Star”
No Newcomb Art Museum of Tulane (Woldenberg Art Center Newcomb Circle, New Orleans)
“Waiting on a Prime-Time Star” reúne pinturas, esculturas, vídeos e colagens de Mickalene Thomas, além de instalação site specific. A obra dela continua desafiando as simples noções de beleza na representação da mulher. Ela trabalha entre a abstração e a representação. Simultaneamente, cria novas e complexas definições da feminilidade.
Entrada franca
Até 09/04/17

3. “Deana Lawson, Judy Linn, Paul Mpagi Sepuya”
No Sikkema Jenkins & Co. (530 West 22nd Street, Nova York)
A mostra coletiva reúne obras que exploram diferentes tipos de relações humanas. O trabalho de Deana Lawson parte de retratos tradicionais de pessoas de cor. A fotógrafa exibe obras que documentam sua prima Jasmine, seu companheiro Eric e a criança deles durante os três anos em que Eric esteve encarcerado no Mohawk Correctional Facility (no Estado de Nova York).
Entrada franca
Até 18/02/17

4. “Artist Residency: Laboratory For Freedoms”
No MoMA PS1 (22-25 Jackson Avenue, Long Island City, Queens)
Hank Willis Thomas e Eric Gottesman criaram o primeiro PAC (political action committee; comitê de ação política) em janeiro de 2016, chamado For Freedoms. Por meio do PAC, eles utilizam a arte para reivindicar espaço político, convidando outros artistas para colaboração em posters, mostras e outras atividades pelos EUA. O objetivo é criar discussões sobre valores democráticos fundamentais em vez de defender partidos políticos específicos. O MoMa PS1 os hospeda em uma residência artística durante os primeiros cem dias do governo Trump.
US$ 10 (adultos); US$ 5 (estudantes e idosos); grátis para moradores da cidade e menores de 16 anos.
Até 29/04/17.

5. “Wangechi Mutu: Ndoro Na Miti”
Na Gladstone Gallery (530 West 21st Street, Nova York)
A produção recente de Wangechi Mutu aborda a forma como vemos a natureza, a sociedade e o corpo por meio de recontextualizações das tradições ocidentais e orientais. “Ndoro Na Miti“ é uma expressão Gikuyu para barro e árvores e vem do ambiente ao redor do ateliê onde ela trabalhou nas obras expostas. A artista vê a terra como uma continuidade de seus questionamentos artísticos de identidade, psicologia e luta social.
Entrada franca
Até 25/03/17

6. “Rashid Johnson: Hail We Now Sing Joy”
No Kemper Museum of Contemporary Art (4420 Warwick Blvd, Kansas City, Missouri)
Após o sucesso da exposição “Fly Away“ na Hauser & Wirth no ano passado, em Nova York, Rashid Johnson marca presença agora no Missouri. O trabalho dele fala de identidade, experiência afro-americana e afro-futurismo no corrente estado de tensão política e incerteza.
Entrada franca
Até 21/05/17

7. “Circa: 1970”
No Studio Museum Harlem (144 West 125th Street, Nova York).
O museu exibe obras do acervo que refletem sobre a situação sócio-política, cultural e histórica dos EUA entre os anos 1970 e 1979. A década de 1970 foi fundamental para a cultura e a história dos negros nos EUA. São expostas obras de artistas como Romare Bearden, Benny Andrews, David Hammons e Ed Clark.
US$ 7 (adultos); US$ 3 (estudantes e idosos); grátis para membros do museu e menores de 12 anos
Até 05/03/17

8. “Collection Spotlight: Morton Broffman”
No Bronx Museum of the Arts (1040 Grand Concourse, Bronx, Nova York)
Exibição de quatro obras de Morton Broffman, um dos fotojornalistas que acompanharam a marcha de Selma a Montgomery pelos direitos de voto em 1965. A marcha foi a maior manifestação em favor de direitos civis no Alabama.
Entrada franca
Datas a definir

9. “Kehinde Wiley: A New Republic”
No Toledo Museum of Art (2445 Monroe Street, Toledo, Ohio)
Após a exposição no Brooklyn Museum em 2015, a exposição de Kehinde Wiley continua em itinerância pelos EUA. O trabalho chama a atenção para a ausência de reconhecimento aos afro-americanos no legado à história e cultura dos EUA. O artista utiliza retratos de velhos mestres e reposiciona membros da nobreza europeia em temas negros contemporâneos.
Entrada franca
Até 14/05/17

10. “Nick Cave: Until”
No MASS MoCA (1040 MASS MoCA Way, North Adams, Massachusetts)
Nick Cave está ainda criando sua maior instalação imersiva, usando contas, cristais e candelabros, entre outros objetos que encontra. Ele aborda a violência armada, relações raciais e políticas de gênero em um espaço cintilante, repleto de lustres, imagens de armas, balas e alvos. Cave convidou também dançarinos, músicos, poetas e compositores para participar da programação paralela, que conta com painéis de discussão e outras formas de engajamento público.
US$ 18 (adultos); US$ 16 (idosos); US$ 12 (estudantes); US$ 8 (crianças entre US$ 6 e US$ 16); grátis para crianças menores de 5 anos.
Até agosto.

11. “Yinka Shonibare MBE: Prejudice at Home – A Parlour, a Library, and a Room”
Na James Cohan Gallery (533 W 26th Street, Nova York)
A sexta exposição de Yinka Shonibare na James Cohan Gallery investiga a identidade coletiva e individual ao longo da história. São fotografias e três instalações. "The British Library" foca nas contribuições de imigrantes para a sociedade e cultura britânicas. A mostra trata de poder, preconceito e alteridade.
Entrada franca
De 17/02/16 a 18/03/17

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Texto de Sarbani Ghosh originalmente publicado, em inglês, no site "Artnet" (www.artenet.com) | 10/02/17.
Na imagem acima, obra de Mickalene Thomas.

Sérvulo Esmeraldo deixa como legado obra com invenções

O artista sofreu um AVC hemorrágico e morreu 01/02/17. O nome dele figura entre os pioneiros da arte cinética brasileira. +

Quando se deitou para dormir, na noite do dia 13/01/17, o artista cearense Sérvulo Esmeraldo disse para a mulher, Dodora Guimarães, que estava preparando uma obra muito bonita. No dia seguinte, ele não acordou. Havia sofrido um AVC tão semelhante ao que o acometeu em janeiro de 2016 que o médico usou a palavra espelhado para descrever a imagem. Dodora pensou que isso era mesmo obra de Sérvulo. Muitas de suas gravuras, afinal, pareciam imagens espelhadas. O artista resistiu durante pouco mais de 10 dias, mas faleceu em 01/02/17 em consequência de um AVC hemorrágico muito extenso.
Em Fortaleza, onde morava, Esmeraldo deixou um legado que se estende hoje para além-mar. A história do artista está dividida entre dois continentes, embora tenha desejado, a vida inteira, voltar para o Crato, onde nasceu em 1929. O nome dele figura entre os pioneiros da arte cinética brasileira, ao lado de gente como Abraham Palatinik e Mary Vieira. Foi em Paris, para onde se mudou em 1956, depois de conseguir uma bolsa do governo francês para estudar na École des Beaux Arts, que Esmeraldo começou a ficar conhecido. Primeiro, com xilogravuras e gravura em metal, esta última aperfeiçoada no ateliê de Johnny Friedlaender. A primeira era praticada desde a infância na região do Cariri, terra de tradição da gravura popular.
Mas foi com os objetos nomeados Excitáveis que o artista ganhou as rodas parisienses. Construídos com base em energia eletrostática, as obras compostas com materiais leves como fios de cabelo e madeira de balsa repousavam no interior de uma caixa acrílica. Bastava que o público aproximasse a mão da superfície para que os objetos se deslocassem dentro da caixa e a composição da obra mudasse de configuração. “Os Excitáveis deram grande notoriedade ao Sérvulo na Europa. Foi um invento dele, concomitante ao grande movimento da arte cinética internacional”, lembra Dodora, que é curadora e crítica de arte. “E na França, alguns dos principais artistas cinéticos eram latino-americanos, como o (Julio) Le Parc (argentino), (Carlos) Cruz-Diez e Jesus Raphael Soto (venezuelanos).”
Para Jaqueline Medeiros, crítica, pesquisadora e coordenadora de artes visuais do Centro Cultural Banco do Nordeste, os Excitáveis eram excepcionais por conta de certas particularidades. “A obra exigia participação maior do espectador do que as obras dos outros artistas”, explica. “Os outros usavam elementos mecânicos para acionar as obras, o público tinha que apertar um botão. Na obra do Sérvulo, não. Pouca gente fazia aquela espécie de precariedade criativa.”

Manipuláveis
A curadora Denise Mattar acredita que os Excitáveis receberam pouca atenção devido à produção mais concretista do artista. “A obra dele é muito interessante. A gente acaba sempre associando o Sérvulo a um determinado tipo de produção que é bem minimalista, mais concretista, mas ele tem um período interessantíssimo em que fazia essas obras manipuláveis, com materiais muito simples e com um efeito extraordinário”, diz. “Acho que a gente está tendo uma redescoberta da arte cinética no mundo. Aqui no Brasil, atribuímos apenas à Lygia Clark o pioneirismo de trabalhar com uma arte manipulável, transformável, enquanto a gente tem artistas maravilhosos como a Mary Vieira e o próprio Sérvulo, que as pessoas quase não conhecem.” A arte cinética, lembra a curadora, foi um momento de passagem da produção dos concretistas e geométricos da tela para a tridimensionalidade. Ao começarem a trabalhar com a repetição, descobriram o ritmo a acabaram por abandonar a superfície plana da tela e a construir os objetos cinéticos antes de chegar ao extremo das obras penetráveis que fizeram sucesso com Hélio Oiticica.

Encaixe
Além da produção cinética e concreta, Sérvulo Esmeraldo também foi autor de uma série de esculturas públicas que marcam cenários como a Beira Mar, de Fortaleza. Sempre geométrico, ele dizia que o círculo, o quadrado e o triângulo eram as bases dos trabalhos. “Esses três elementos estão presentes na maioria dos meus trabalhos, eles ganham um certo encaixe que se une, seria a imagem primeira do meu trabalho”, explicava.
A relação com a matemática, disciplina da qual gostava muito, ajudava. “O trabalho dele sempre foi geométrico. Matemática era a grande paixão dele e a geometria tinha uma particularidade. Existem muitos artistas construtivos geométricos no Brasil, mas o trabalho do Sérvulo se distingue por sua natureza orgânica. Toda a geometria dele partia de coisas muito simples como uma folha”, conta Dodora.
Gilmar de Carvalho, crítico e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que coerência é um aspecto importante da obra do artista. “Ele manteve uma coerência, apesar de ter passado por várias linguagens e suportes. Fez desenhos, pintura, e na escultura, encontrou sua síntese”, explica. “Racional, não se deixou levar pelo cerebralismo. Sua arte bem cuidada, perfeccionista que foi, nos leva à emoção. Em muitos momentos, atinge uma dimensão poética. Brinca com luzes e sombras, com o movimento, trabalha com linhas retas e com as sinuosas.”

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Três perguntas para Gilmar de Carvalho

Quais eram as preocupações artísticas de Sérvulo Esmeraldo?
Creio que deixar uma obra. Isso ele conseguiu, com maestria. Era um artista exigente. Trabalhava com maquetes. Acompanhava a execução e montagem das esculturas, examinava cada relevo que deveria ter suas marcas autorais, fazia joias, e, neste sentido, a metáfora da lapidação das peças de metal pode se ampliar a abranger tudo o que fez. Exigia o rigor milimétrico, sem abrir mão do todo da peça e do conjunto do que fez durante quase setenta anos de trajetória artística.

Quando falamos em abstração brasileira, qual o papel dele?
Sérvulo passou pela pintura, mas não foi nela que alcançou sua maior grandeza. A abstração está nas esculturas, que se filiam ao melhor que a escultura brasileira atingiu, no que se refere ao concreto, ao geométrico, ao cinético, ao mesmo tempo com uma leveza que o caracterizava e o definia.

Qual o lugar do artista na história da arte brasileira?
Sérvulo Esmeraldo tem um lugar de destaque na arte brasileira. Lugar conquistado pelo talento, aliado à disciplina e à determinação. Nascido no Crato (CE), onde se iniciou na xilogravura, quando jovem, passou por Fortaleza, viajou para São Paulo e amadureceu em Paris. Sérvulo manteve uma coerência, apesar de ter passado por várias linguagens e suportes. Fez desenhos, pintura, e na escultura, encontrou sua síntese. Pode-se dizer que vale pelo conjunto da obra, como grande artista que foi.

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Texto de Nahima Maciel originalmente publicado no site do jornal "Correio Braziliense" (www.correiobraziliense.com.br) | 11/02/17.
Foto: Gentil Barreira.

Museu alemão encontra desenho feito por Rembrandt

O museu Herzog Anton Ulrich, de Braunschweig, informou sobre a descoberta de um desenho do mestre holandês, até então atribuído ao pintor de animais Johann Melchior Rosso. +

O museu Herzog Anton Ulrich da cidade alemã de Braunschweig informou nesta terça-feira (14/02/17) sobre a descoberta, em seus fundos, de um desenho do mestre holandês Rembrandt, em posse da galeria desde 1770 e atribuído até há pouco ao pintor de animais Johann Melchior Rosso.
"A descoberta é uma sensação", afirmou o museu ao apresentar à imprensa o desenho, um esboço de giz preto de um cachorro sentado.
Segundo a entidade, há poucos desenhos de animais atribuídos a Rembrandt no mundo todo, entre os quais destacam-se quatro feitos a giz, muito parecidos esteticamente, de um elefante e um cavalo.
Em comunicado, o museu explicou que começou a investigar a obra após detectá-la no processo de digitalização de cerca de 10 mil desenhos que está sendo realizada.
Começou então uma extensa análise que incluiu exames microscópicos, estudos de originais de Rembrandt comparáveis em Amsterdã, Paris e Viena e consultas com autoridades internacionais sobre o pintor holandês.
O diretor da área de gravuras do museu, Thomas Döring, apresentou na revista especializada "Master Drawings" as conclusões da pesquisa, segundo a qual o desenho de um cachorro sentado é uma obra autêntica de Rembrandt em torno de 1637.
As reações, segundo o museu, foram unanimemente positivas e o desenho será incluído no índice de obras do artista holandês.
Rembrandt realizou desenhos de animais como estudo sobretudo na décadas de 1630, quando incluiu em muitas de suas obras cachorros como motivo secundário.
O terrier descoberto em Braunsweig se parece muito, segundo a instituição, ao cachorro que ladra no quadro "A Ronda Noturna", pintado em 1642 pelo artista.
A ministra de Ciência e Cultura do estado federado da Baixa Saxônia, Gabriele Heinen-Kljajic, ressaltou a importância do achado, "um prêmio extraordinário" para a região que reforça a posição internacional e o trabalho de pesquisa do museu Herzog Anton Ulrich, instituição inaugurada em 1754 e que conta com destacadas obras de Giorgione, Rubens, Rembrandt e Khan Vermeer van Delft.
Em 06/04/17, o novo Rembrand deve ser exposto ao público pela primeira vez.
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Texto originalmente publicado no site da agência EFE (www.efe.com) | 14/02/17.

O artista formador: Carmela Gross

Em série de depoimentos à revista "Select", grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações. +

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Carmela Gross; artista e autora da instalação Escada-Escola, que liga a Chácara Lane (Museu da Cidade) à Escola Municipal Gabriel Prestes, SP; pensa sobre a dimensão formativa da arte:

“Borrar os limites entre o que chamamos arte e aquilo que consideramos ensino”
Minha primeira proposição para o projeto desta exposição foi imaginar uma integração ativa e formal entre o espaço da Chácara Lane e a Escola Municipal Gabriel Prestes, em São Paulo: apagar os limites físicos entre uma e outra, retirar o muro/grade que as separa, integrar atividades e fazer com que a escola e a casa-museu pudessem se coordenar em uma nova unidade espacial e programática. Além de unificar os espaços, minha proposta pretendia borrar os limites entre o que chamamos arte e aquilo que consideramos ensino. Poder recompor a atividade artística como ação lúcida e lúdica, pensar a educação como atividade livre e criadora. Mas essa enorme tarefa não cabia no âmbito da exposição. Então, imaginei um dispositivo simbólico que pudesse significar o salto desejado – uma escada dupla que fizesse a transposição sobre a grade, tornando possível passar da escola para o museu e do museu para a escola. Projetei uma escada metálica de dois lances, com 1,5 metro de altura, 0,60 metro de largura e 4,60 metros de comprimento, com nove degraus de cada lado, articulada por uma pequena plataforma central. Todo o conjunto é pintado de vermelho. O desenho em linhas metálicas vermelhas talvez assinale um caminho.

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Texto de Luciana Pareja Norbiato e Felipe Stoffa originalmente publicado na edição 33 da revista “Select” | 10/02/17.
Crédito da foto: Paulo D'Alessandro.

Centro Pompidou recebe renovação de US$ 110 mi em seu 40° aniversário

O projeto levará dois anos para ser concluído. Entre 1998 e 2000, a estrutura foi fechada para uma reforma que custou US$ 108 milhões. Desta vez, o museu pretende permanecer aberto durante todo o período de recuperação. +

Renegado pelos parisienses por sua aparência chocante após ser inaugurado em 1977, o Centro Pompidou acaba de completar seu 40º aniversário e, como presente, receberá um projeto de renovação orçado em US$ 110 milhões que levará dois anos para ser concluído.
Desenhado pela dupla até então desconhecida, Renzo Piano & Richard Rogers, o edifício foi o vencedor de um concurso para um novo museu e centro cultural no histórico bairro Le Marais de Paris, destacando-se no contexto com suas galerias abertas e infraestrutura aparente na fachada.
O projeto de renovação preservará essa estética única, restaurando a icônica fachada (incluindo elementos de ar-condicionado que já não estão funcionando) e substituindo a famosa escada rolante do prédio, conhecida amigavelmente como "a lagarta", a um custo de US$ 24,5 milhões. Devido ao fato de boa parte da infraestrutura do museu estar exposta às intempéries, o edifício necessita de significativos reparos.
Entre 1998 e 2000, a estrutura foi fechada para uma revisão que custou US$ 108 milhões. Desta vez, o museu pretende permanecer aberto durante todo o período de reforma.
"Será um tipo de jogo de construção, mas nosso objetivo é permanecer aberto", disse Serge Lasvignes, presidente do Centro Pompidou. - "Esse é o objetivo."
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Texto de Patrick Lynch originalmente publicado, em inglês, no site "ArchDaily" (www.archdaily.com.br) | 09/02/17.
Tradução: Romullo Baratto.

Olha o golpe aí. E não estou nem falando do impeachment

Não dá mais para negar que tem um golpe em curso. Só que não é aquele que você está pensando. +

Esta semana foi decisiva no eletrizante enredo do drama político brasileiro, de fazer inveja aos roteiristas de “Game of Thrones” (nem vou mencionar “House of Cards”, que virou coisa de amador). Como acontece nas melhores séries gringas da TV, peças que pareciam tremendamente distantes no tabuleiro começaram subitamente a se mover de maneira sincronizada, rumo a um desfecho chocante, inesperado. E trágico.
De um lado, tudo indica que o novo juiz do Supremo será mesmo um político amante do poder, umbilicalmente ligado ao PSDB e ao PMDB, com reputação de ser um soldado, desses que fazem o que precisa ser feito. Alexandre de Moraes não é o primeiro ministro do Supremo com forte conexão a um partido político. Gilmar Mendes trabalhou no governo de FHC e é obviamente próximo do PSDB, Dias Toffoli foi advogado do PT antes de trabalhar no governo Lula. Ambos são frequentemente acusados de fazer jogo partidário dentro do principal tribunal da Justiça brasileira – em geral um em oposição ao outro. O interessante é que Moraes, segundo apurou o "Radar", da "Veja", parece ter chegado ao cargo graças à articulação de ambos nos bastidores – Gilmar e Toffoli trabalharam juntos para escolher o novo colega. Indício de que as cúpulas dos arquirrivais PT e PSDB, assim como o pivô da discórdia entre eles, o PMDB, parecem estar alinhados, pelo menos em alguma coisa.
Outro indício vem da Câmara dos Deputados, onde uma ampla articulação de praticamente todos os partidos – PT, PSDB e PMDB incluídos – prepara-se para usurpar o poder do Tribunal Superior Eleitoral. Nas palavras do colunista Josias de Sousa, o que os políticos estão prestes a conseguir é uma “licença para assaltar dinheiro público”. Simplesmente, os partidos ficariam blindados de punição, desobrigados de prestar contas dos bilhões de reais que recebem do Fundo Partidário, bancado pelo contribuinte. Enquanto isso, no Senado, um presidente com fortes suspeitas de corrupção é substituído por outro com fortes suspeitas de corrupção, numa clara demonstração de que nada está mudando e que Moraes não precisa se preocupar – vai ser mesmo confirmado como ministro.
Junte a esse cenário a continuidade da gastança dos políticos – que fica intocada diante de uma estratégia de enfrentar a crise econômica apenas com a redução dos gastos sociais – e o enfraquecimento dos órgãos de controladoria e das agências que defendem o interesse público. Acrescente ainda as tentativas de eliminar da Matrix todos os partidos que não fazem parte do esquema (que já são pouquíssimos), pela imposição da cláusula de barreira. Aí fica difícil negar que tem um golpe em curso: um golpe perpetrado pela elite da classe política e pelos seus financiadores, contra o resto de nós.
O golpe passa por um ataque brutal contra nossos recursos naturais, nossa diversidade cultural, nossos direitos humanos e o potencial de nossas crianças. Ao enfraquecer agências de controle, desprezar salvaguardas e direitos, relativizar a proteção da Constituição e sucatear saúde e educação, a classe política enche sua pança e a de seus aliados ao custo de devorar nosso futuro.
O golpe em curso não é da direita sobre a esquerda, nem vice-versa: é um golpe do sistema todo, tentando se perpetuar, sobre as pessoas. Não é, tampouco, uma questão meramente moral: é um colapso sistêmico que precisa ser enfrentado pela sociedade inteira, com coragem.
O problema é que boa parte da população ainda não está nem enxergando a treta. Uns dormem tranquilos, convictos de que o pior já passou, com a queda de Dilma e o esfarelamento do PT. Outros estão ocupados demais denunciando a ilegalidade do impeachment de Dilma, ocorrido no ano passado, e não percebem que o tal “golpe” é muito mais amplo do que a derrubada de sua presidenta – ele começou bem antes disso, ainda com ela à frente, e segue se aprofundando com apoio de parte do próprio PT.
E isso nem é tudo. Da mesma maneira que os heróis e vilões se engalfinham em “Game of Thrones” sem nem se lembrar dos mortos-vivos que podem surgir a qualquer momento, talvez a maior ameaça que nos aguarda nem esteja no centro do palco hoje. Com a falência da reputação de todos os grandes partidos políticos brasileiros, vai ganhando força uma narrativa simplista e violenta, que decreta guerra à política tradicional e aposta todas as fichas num salvador da pátria intolerante, ao estilo fascista. Bolsonaro tem atraído multidões cada vez maiores por onde passa, apesar de estar absolutamente claro que suas ideias toscas só piorariam nossos problemas, como está acontecendo no Reino Unido e nos Estados Unidos. Enfim, o quadro é tão sombrio quanto é possível ser.
Resta torcer para que aquilo a que estamos assistindo não seja o final da série, mas apenas um season finale dramático – deprimente sim, mas a história não acabou ainda, esperemos a próxima temporada. Fosse mesmo um seriado dos bons, este seria o momento em que os mocinhos, encurralados, acabam descobrindo aliados onde menos esperavam, e encontrando uma saída que parecia impossível.
Para mim, a cada dia fica mais claro que as famílias que protestavam contra a corrupção de camisa amarela e os jovens que apanhavam da polícia de camisa vermelha, sem falar na turma de roupa colorida que vem desde 2013 exigindo serviços públicos decentes, são todos vítimas desse golpe. E, a essa altura do drama, à parte os raros gatos pingados que sobreviveram íntegros no meio de um sistema podre, eles só têm uns aos outros. Afinal, diferenças ideológicas à parte, acho que podemos todos tolerar viver num país sem corrupção, com Estado que não nos espanque e serviços públicos de qualidade, não? O único jeito de parar esse golpe é gritarmos todos juntos e exigirmos uma nova forma de representação, diante da obviedade de que a maioria de nós não está sendo representada. Se não for isso, é bom começar a se acostumar com o som da expressão “presidente Bolsonaro”.
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Texto de Denis R. Burgierman originalmente publicado no "Nexo Jornal" (www.nexojornal.com.br) | 09/02/17.
Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010. Escreve sobre a vida e suas complexidades.

Eva Doris deixa a secretaria de estado de Cultura do Rio de Janeiro

Para o cargo, o governador Pezão nomeu o deputado estadual André Lazaroni. +

Quase dois meses após o governador Luiz Fernando Pezão ter prometido que manteria Eva Doris Rosental como secretária de estado de Cultura, o governo voltou atrás, a exonerou e nomeou o deputado estadual e líder do PMDB na Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro (Alerj), André Lazaroni, para seu lugar. A informação foi publicada no Diário Oficial do estado na última sexta-feira (03/02/17). Eva Doris ocupava o posto desde janeiro de 2015.
Formado em direito, com especialização em direito ambiental, Lazaroni é filho da professora, escritora e política Dalva Lazaroni. Deputado estadual reeleito em 2015 para o quarto mandato consecutivo, sua atuação política é marcada por ações nas áreas do esporte e do meio ambiente — entre 2013 e 2014, licenciou-se da Alerj para assumir a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer do Rio e a presidência da Superintendência de Desportos do Estado (Suderj).
No ano passado, o novo secretário esteve envolvido em uma polêmica, após a prefeitura ter contratado sem licitação empresas que têm entre os acionistas seu pai e seu tio para concluir obras da Olimpíada depois de romper o contrato com empresas escolhidas em concorrência pública.
Ao "Globo", a ex-secretária afirmou que "apesar das dificuldades financeiras por que passa o estado, a secretaria está bem estruturada e conta com uma equipe técnica competente e comprometida com os projetos que desenvolve".
Ainda na tarde desta segunda-feira (06/02/17) Eva Doris terá um encontro com o novo secretário, que planeja "estudar a situação da SEC e dar prosseguimento às atividades e ações conduzidas até aqui", disse.
Em novembro de 2016, Pezão havia decidido submeter a Secretaria estadual de Cultura (SEC) à Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação. O anúncio da decisão levou a um amplo movimento reivindicando a permanência da pasta.
Guiada por representantes do Conselho Estadual de Política Cultural e por diversos movimentos culturais, a campanha #FicaSEC ganhou adesão popular e de um grande número de deputados, que iniciaram a redação de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) com o objetivo de transformar a secretaria em um direito fundamental na Constituição Estadual.
Pressionado, o governador decidiu manter a SEC. Em dezembro passado, Pezão entrou em contato com Eva Doris para comunicar que a secretaria teria a sua autonomia mantida.
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Texto de Luiz Felipe Reis originalmente publicado no jornal "O Globo" | 06/02/17.

Conheça a primeira vítima de Álvaro Siza

Há 60 anos, o gerente de uma empresa de pesca ousou chamar um jovem desconhecido, ainda com o curso de arquitetura por terminar, para desenhar uma casa. Era o primeiro projeto daquele que transformou-se em um dos mais importantes arquitetos do mundo contemporâneo: o português Álvaro Siza Vieira. No Brasil, ele é autor do prédio da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS). +

Há 60 anos, um homem em Matosinhos (Portugal) ousou apostar num jovem desconhecido, sem qualquer currículo ou carreira, com o curso de arquitetura ainda incompleto, para lhe projetar uma casa. Como o terreno era grande e havia familiares também necessitados de nova habitação, no total foram desenhadas quatro casas. Hoje, em qualquer parte do mundo, não faltará quem deseje ou ambicione ter um edifício com a assinatura daquele rapaz também natural de Matosinhos, a cursar Belas Artes no Porto e chamado Álvaro Siza Vieira. Porém, há 60 anos, tomar uma decisão deste tipo envolvia alguma dose de atrevimento, de coragem e gosto pelo risco.
Foi o que fez Manuel Fernando Rodrigues Neto. Agora com 93 anos, a completar no próximo dia 19, mostra orgulhoso a casa onde se mantém e para onde foi viver com a mulher e dois filhos no dia 28 de maio de 1957. Este homem constitui o sonho de qualquer arquiteto. Não apenas por aquela decisão inicial, mas em particular pelo modo como acarinhou a casa ao longo destas seis décadas.
Moradia inalterada
Numa situação rara, mesmo com projetos de grandes nomes da arquitetura, a moradia está tal como a concebeu Álvaro Siza. Nunca ali foi feita qualquer modificação, a não ser as necessárias obras de manutenção, em particular nas casas de banho. De resto, tudo se mantém igual.
Desde logo a cozinha. Irresistível ponto de entrada, chama a atenção para o modo flagrante como, pelas formas e materiais utilizados, remete para Antonio Gaudi, uma das referências de Álvaro Siza (ver entrevista). Mesmo se o arquiteto diz ser possível detetar ali, também, algo de Corbusier, a verdade é que é o imaginário do catalão que mais se impõe naquele espaço, transformado em antecâmara de todo um universo marcado pela diferença.
“Esta casa tem 60 anos, mas ainda é uma casa moderna”, diz Manuel Neto. Está tão contente com a escolha feita tantas décadas atrás, que se revela certo de, “como moradia”, ainda não ter visto “nada que se possa dizer que esteja desatualizado”.
Apesar das polémicas. Apesar dos ditos e dichotes ouvidos aquando da construção. Agora, à distância, admite ter ficado incomodado. “O arquiteto não ligou nenhuma. Disse que o tempo é que falaria”.
Pelos vistos falou, ao ponto de a casa ser agora um ponto de visita obrigatório para estudantes de todo o mundo que chegam à região do Porto à procura de contactos com a obra de Siza. As solicitações eram tantas que se tornou necessário canalizar os pedidos através da Casa da Arquitetura, de modo a poder ser feita uma gestão mais razoável e racional das solicitações feitas.
O tempo das afrontas
Ainda assim, a memória daqueles tempos passados não esmoreceu, até porque a mulher de Manuel Neto, já falecida, sentiu muito particularmente aquelas afrontas. Por exemplo um texto publicado no jornal “Comércio do Porto” a falar do desfile que estaria a fazer-se em Matosinhos para ver “os casinhotos” que se construíram na Avenida D. Afonso Henriques, perto das atuais instalações da Câmara Municipal, “como se Matosinhos fosse terra sertaneja e não houvesse aqui pessoas (…) que têm noções de arte”. Depois de questionar o que pensarão os membros da Comissão de Estética daqueles “casinhotos”, o jornalista pergunta se “terá desaparecido o bom senso de gente que tem o dever de velar pela estética da vila e evitar atentados arquitetónicos como esse”. Aos céticos, aconselhava a irem lá ver e dizerem-lhe depois “se aquilo está certo numa cidade servida por um porto de mar, com aeródromo próximo e vizinha da cidade do Porto”.
Manuel Neto ficou desagradado. Como o chefe de redação que autorizara, ou solicitara, a publicação do texto era seu vizinho, resolve um dia questioná-lo para lhe dizer “que estava a queimar um arquiteto em início de carreira”. Convida-o a ir visitar a casa, mas a visita nunca se concretizou.
Siza não podia assinar
Numa das divisões da casa, o proprietário afixou há algum tempo o projeto inicial, assinado pelo engenheiro civil Rogério Lobão, dada a circunstância de, então, Siza ainda não ter autorização para assinar projetos. Fê-lo mais tarde. Junto à assinatura de Rogério Lobão, Siza acrescentou o seu nome. “Com 55 anos de atraso – na altura ainda não podia assinar porque ainda não era arquiteto”, escreveu pelo seu próprio punho. Ao lado, Neto conserva o último recibo relativo ao pagamento da última prestação (três mil e 500 escudos) pelo trabalho do jovem Siza.
Esta é uma história que começa em 1955, quando Manuel Neto compra o terreno onde se torna viável a construção, ao longo dos dois anos seguintes, de quatro casas. À época, Neto tinha uma empresa de pesca de sardinha e frequentava muito a zona onde vivia a que veio a ser sua mulher, próxima das antigas instalações da fábrica “Vacuum”, onde acabava por encontrar e conversar muito com António Siza Vieira, que tinha um cargo na Refinaria Angola e era tio de Álvaro.
Entre os muitos diálogos travados vem um dia à superfície a informação de que Neto comprara o terreno onde pretendia construir casa. António pergunta-lhe se já tem arquiteto e, face à resposta negativa, sugere-lhe a hipótese de entregar a obra ao sobrinho Álvaro.
Se não gostar não aceita o projeto
Era caso para pensar. Um dia Álvaro vai falar com Neto, que o leva a visitar uma moradia na zona das Antas muito do seu agrado, mesmo se, no final, as duas casas nada têm a ver uma com a outra. Fica acertado que avançarão, embora Neto reivindique a prerrogativa de cancelar tudo, caso o projeto não lhe agrade. Coloca, até, uma condição: teria de haver uma varanda a todo o correr da casa, virada para a Avenida, por causa das festas do Senhor de Matosinhos.
Casa custou 275 contos
Numa fase seguinte comunica quanto pode gastar e acaba por ter um orçamento de 275 contos. “Na época era dinheiro. O meu ordenado era de 4 contos como gerente de uma firma”.
Quando o projeto é apresentado, a reação é desde logo positiva. Gostam. Não obstante, como em todas as obras de todos os arquitetos, terem gostado mesmo muito de algumas soluções, de outras nem tanto. “Na sala havia uma parede que Siza queria com a pedra à vista, mas a minha mulher não gostava. Ele concordou, mas se calhar hoje era capaz de não aceitar”.
Quando para lá foram viver. Foi uma festa. Vinham de um bairro próximo e traziam dois filhos. Uma rapariga com 9 anos, e um rapaz com 3 anos de idade. A primeira neta nasceu lá, e era ali que faziam todas as festas. Em particular as da filha enquanto adolescente vigiada por uma mãe muito zelosa.
Passados todos estes anos, Manuel Neto pode garantir que praticamente todos os grandes arquitetos da atualidade já por lá passaram para verem a casa. Na memória guarda ainda discussões homéricas, em particular sobre a intensiva utilização da madeira no exterior. Dada a proximidade do mar, isso gerava grandes dúvidas e preocupações. Não esquece a resposta de Siza: “Garanto-lhe que um dia o senhor vai embora, os seus filhos e netos também, e a madeira continua aqui”.
Continua, de facto. Se algo impressiona numa visita à casa, com parte importante da fachada exterior revestida a madeira, é o excelente estado de conservação. O tempo não parece ter passado por ali. Claro que houve o cuidado de assegurar a manutenção, mas na origem está a decisão de escolher boas madeiras e um jovem que, não sendo ainda formalmente arquiteto, tinha já uma noção exata dos caminhos que pretendia percorrer.
Aquela é uma obra inicial. Está marcada por múltiplas associações, feitas, quer pelo proprietário, quer pelo arquiteto. Um e outro raramente se encontram. Ainda assim, quando Siza vê Manuel Neto, cumprimenta-o. “Faz-me sempre uma festazinha. Há uns três anos encontrei-o na homenagem a Manuel Dias da Fonseca, que era meu amigo de infância. O Siza virou-se para mim e disse-me: ‘o senhor foi a minha primeira vítima’”.
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Texto de Valdemar Cruz originalmente publicado no site português "Expresso" (http://expresso.sapo.pt) | 07/02/17.
Foto: Lucília Monteiro.

O artista formador: Danillo Barata

Em série de depoimentos à revista "Select", grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações. +

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Danillo Barata, videoartista e professor dos cursos de Cinema e Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), pensa sobre a dimensão formativa da arte:

“Tenho sido, muito mais ao modo de Mário de Andrade, um aprendiz”
Minha experiência de ensino no Recôncavo da Bahia tem me transformado profundamente, pois aqui a troca de saberes e a horizontalidade na prática de formação são vividas cotidianamente no ambiente escolar e fora dele. Um espaço de dialogias, transformações e do mistério.
Os trabalhos artísticos que tenho desenvolvido têm se constituído pela poética do corpo, utilizando como linguagens o vídeo e as videoinstalações. Motivado por essa tendência, busco a ampliação desse conceito e dos meios artísticos de expressão na realização de uma produção na linha de processos criativos.
Em uma avaliação de conceitos ligados às principais teorias e práticas das artes visuais, minha pesquisa constituiu-se de uma produção prática, na qual são utilizadas técnicas de captação e manipulação de imagens, para mostrar o enfrentamento do corpo em relação aos meios contemporâneos de expressão artística.
A relação dialógica estabelecida com o Recôncavo talvez encontre ressonância na frase da canção do santamarense Roberto Mendes e de Capinam na canção Massemba: “Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas”. Acredito que, no fim das contas, tenho sido, muito mais ao modo de Mário de Andrade, um aprendiz.

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Texto de Luciana Pareja Norbiato e Felipe Stoffa originalmente publicado na edição 33 da revista “Select” | 02/02/17.
Crédito da foto: Sora Maia.

MCH Group compra parte da alemã Art.fair

O MCH Group, sediado na Suíça e dono da Art Basel, adquiriu 25,1% da Art.fair International GmbH, baseada em Colônia (Alemanha) e organizadora da recém-fundada Art Düsseldorf. +

O MCH Group, sediado na Suíça e proprietário da franquia Art Basel, anunciou a aquisição de 25,1% da Art.fair International GmbH, baseada em Colônia (Alemanha) e organizadora da recém-fundada Art Düsseldorf, que permanece sob o controle dos atuais proprietários: Andreas Lohaus e Walter Gehlen. O grupo suíço, no entanto, pode ter uma participação majoritária no negócio no futuro.
O investimento do MCH está alinhado com a estratégia do grupo de fortalecimento e diversificação do portfólio de feiras regionais de arte, como no caso da participação na India Art Fair, em Nova Deli, de 60,3%.
"A participação do MCH Group na Art Düsseldorf constitui mais um grande passo na implementação de nossa estratégia de expansão mundial com um novo portfólio de feiras regionais em importantes cidades", disse Marco Fazzone, diretor de feiras de design e de arte regionais da MCH. A ideia dele é tornar o evento de Düsseldorf na "principal feira regional da Alemanha", título que é da Art Cologne.
Fazzone ressalta que a Art Düsseldorf (de 16 a 19/11/17) "permanecerá autônoma", mas se beneficiará da "experiência e da rede de trabalho" da MCH, bem como de "sinergias com as outras feiras de arte regionais que, num futuro próximo, vão formar uma forte rede global ".
O sócio Walter Gehlen está confiante. "Nossas atividades em Düsseldorf estão atraindo o interesse de galerias de todo o mundo, as quais desejam fazer um uso de sucesso da feira."
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Fonte: texto de Henri Neuendorf originalmente publicado, em inglês, no site "Artnet" (www.artnet.com) | 09/02/17.
Na foto, Walter Gehlen, Marco Fazzone, René Kamm (CEO do MCH Group) e Andreas Lohaus. Crédito: Nils vom Lande.

Apresentadora Oprah Winfrey arrecada US$ 150 milhões com venda de Gustav Klimt

Apresentadora fechou negócio com comprador chinês, segundo fonte próxima à transação. +

O mundo da arte está sentindo o toque de rei Midas da apresentadora e empresária Oprah Winfrey. Ela vendeu uma pintura de Gustav Klimt por US$ 150 milhões em um dos maiores acordos privados do ramo artístico de 2016, informou uma pessoa próxima à transação. Oprah, diretora-executiva da Oprah Winfrey Network, comprou a obra “Retrato de Adele Bloch-Bauer II” por US$ 87,9 milhões em 2006, em um leilão da casa Christie’s em Nova York – ainda um recorde para o pintor austríaco. Desde então, o quadro viu seu valor aumentar em cerca de 71%.
Em 2014, Oprah emprestou a pintura anonimamente ao Museu de Arte Moderna de Nova York, por cinco anos, segundo a fonte, que pediu para não ser identificada pela confidencialidade da informação. O empréstimo foi intermediado pelo magnata do entretenimento David Geffen, amigo de Oprah e benfeitor do museu. Representantes da apresentadora e de Geffen se recusaram a comentar.
“Retrato de Adele Bloch-Bauer II”, de 1912, representa uma mulher trajando um longo e estreito vestido e um chapéu preto, posicionada diante de um fundo lilás e verde. Tal mulher foi casada com um patrono das artes judeu em Viena.
Quando o quadro esteve nas galerias do quinto andar do MoMa no ano passado, Oprah foi abordada através de Geffen pelo negociador Larry Gagosian, que tinha um potencial comprador encaminhado, disse a fonte. A apresentadora estava disposta a se desfazer do quadro por US$ 150 milhões, informou.
Antes de vender o trabalho a um comprador chinês não identificado, Oprah concordou em emprestá-lo temporariamente à Neue Galerie, em Nova York, para a exposição “Klimt e as Mulheres da Era Dourada de Viena, 1900-1918”.
— Adele Bloch-Bauer é o único assunto que Klimt teria retratado duas vezes – primeiramente no icônico retrato dourado em 1907, depois em 1912 em uma obra muito diferente, exuberantemente colorida — explicou Scott Gutterman, vice-diretor da Neue Galeria. — Ver esses dois quadros lado a lado permite ao espectador ver como o trabalho de Klimt mudou durante esse período-chave de seu desenvolvimento artístico.
O quadro foi parte de um conjunto de obras saqueadas por nazistas e restituído pelo governo austríaco aos herdeiros dos Bloch-Bauer em 2006. A batalha legal em torno das telas inspirou o filme “A Dama Dourada”, estrelado por Helen Mirren em 2015.
Klimt é alvo de colecionadores
A obra é o segundo mais valioso quadro de Klimt que já mudou de mãos desde que o mercado de arte começou a contrair. O bilionário russo Dmitry Rybolovlev vendeu “Water Serpents II” (1904-1907) privadamente por US$ 170 milhões em novembro de 2015, segundo Sandy Heller, consultora de arte de Rybolovlev. Ambas as pinturas de Klimt foram para Ásia, onde a riqueza em expansão construiu uma crescente rede de colecionadores ávidos para adquirir grandes obras ocidentais.
— Klimt está na lista de algumas pessoas — afirmou Grace Rong Li, que aconselha colecionadores asiáticos sobre arte ocidental moderna e contemporânea. O apelo do artista, conhecido pela obra “O Beijo”, é tanto estético quanto financeiro, acrescentou ela.
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Texto da agência Bloomberg News reproduzido no site do jornal "O Globo" (http://oglobo.globo.com) | 08/02/17.

Colômbia poderá ser escolhida como sede latino-americana do Centre Pompidou

A instituição celebra 40 anos com um crescente sucesso de público e projetos de expansão para outros países. +

O Centre Pompidou, em Paris, abriu suas portas em 1977. Mais de 200 mil obras fazem da coleção de arte moderna e contemporânea do Pompidou uma das mais completas do mundo, integrando mestres como Pablo Picasso, Joan Miró, Amedeo Modigliani, Henri Matisse, Francis Bacon e Jean Dubuffet. Sua coleção se equipara a de outras grandes instituições do mundo, como a Tate Modern de Londres e o MoMA de Nova York.
Desde o início, a instituição parisiense vem reafirmando sua importância. Em 2016, o Centre Pompidou registrou 3,3 milhões de visitantes, 9% a mais do que no ano anterior e 30% a mais do que há 10 anos, mesmo apesar dos ataques terroristas que a cidade enfrentou recentemente.

Agora, o Pompidou revela seus projetos de expansão. Em uma entrevista ao “El País”, o diretor do centro, Serge Lasvignes, expressou a intenção da instituição em estabelecer sedes internacionais em distintas capitais de arte. Em 2015, o primeiro passo foi dado, com a inauguração de um projeto-piloto do Pompidou em Málaga, onde atualmente são exibidas 90 obras da coleção e cuja parceria deve ser prorrogada até 2020. A próxima sede deverá ser inaugurada em Bruxelas em 2018, ocupando um edifício art deco de 35 mil m²; Shangai também está nos planos da instituição, porém sem nenhuma data ainda definida. O Pompidou conta ainda com uma sucursal em Metz desde 2010.
Sobre a possibilidade de uma sede na América Latina, Lasvignes afirma: “Está nas nossas perspectivas futuras”, enfatizando que o projeto está em fase preliminar, ainda que tenha um país concreto na mira. “Tenho interesse pela Colômbia. É um país promissor e com muitos recursos, onde os coletivos de artistas têm contribuído muito para pacificar a vida social”.

As comemorações do 40º aniversário do Centre Pompidou vão de encontro a estas metas de descentralização, com um projeto itinerante chamado “1977-2017: Le Centre Pompidou Fete ses 40 ans”, uma série de 40 exposições com obras de sua coleção histórica, espalhadas por diferentes museus regionais franceses.
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texto originalmente publicado no blog Touch of Class | 08/02/17

Se sua vida não tem cor, não desbote a nossa

Reportagem da revista aeroportuária "29Horas" destaca o trabalho de Eduardo Kobra: de pichador da periferia de São Paulo a artista de reconhecimento internacional. +

"Se sua vida não tem cor, não desbote a nossa". Esta mensagem foi escrita em um muro da 23 de Maio, em São Paulo, depois que o prefeito João Doria removeu, em meados de janeiro, os grafites da avenida com tristes camadas de tinta cinza. Mais de 15.000 m² de arte urbana foram retirados nessa cruzada contra grafiteiros e pichadores. O trabalho de Eduardo Kobra, de 41 anos, foi poupado, mas no dia seguinte o muro de 1.000 m² com releituras de cenas da São Paulo antiga amanheceu pichado com a figura de Doria empunhando um rolo de tinta.
Devastado com a situação, já que ele começou seu trabalho como pichador e é amigo de muitos deles – “Essa é a minha origem, jamais vou ser contrário a qualquer expressão de arte na rua”, ele já declarou –, Kobra não quer falar sobre o assunto. Mas ele topa contar sua incrível história, desenhada com muitas latas de tinta – milhares delas –, e que começou no bairro do Martinica, no Campo Limpo, em São Paulo.
Filho de um tapeceiro e de uma dona de casa, ele curtiu a infância livre de garoto de periferia: empinava pipa, jogava bola e descia de carrinho de rolimã as ruas da região. “Aos doze anos, comecei a pichar. Sempre gostei de desenhar, foi natural passar a trabalhar nos muros. Eu fazia de forma ilegal, mas eram desenhos já elaborados”. Na adolescência, Kobra conviveu com amigos que se envolveram com drogas e até com crimes. “Eu nunca fui para esse lado, e acabei tomando um rumo oposto, indo pelo caminho da arte. Nunca pensei que o meu trabalho pudesse alcançar os cinco continentes como acontece hoje”, diz o artista, que tem 25 murais espalhados no exterior, em países como Estados Unidos, França, Holanda, Itália, Suécia, Polônia, Rússia e Japão, entre outros.
Cerca de 90% das pinturas que ele faz não têm apoio financeiro, são produzidas voluntariamente. “Não aceito remuneração para modificar o meu trabalho, tem que respeitar o meu modo de ver”. Mas ele não faz intervenções sem pedir antes a autorização do poder público ou do dono do imóvel. Os ganhos maiores vêm da venda de suas telas originais, que custam em média US$ 50 mil em galerias de Nova York. A preocupação com o lado social sempre foi um norte para ele, autor da série “Realidade Aumentada”, sobre crianças desaparecidas e moradores de rua de São Paulo.
No projeto “Greenpincel”, ele denunciou a caça às baleias no Japão, a devastação da Amazônia e o pequeno índio sob a mira de uma arma, assunto do mural “Belo Monte em Alta Mira”. “Trabalho com histórias reais, memórias, envolvimento”. Um projeto novo é o “Envolva-se”, no qual as pessoas se cadastram para acompanhar Kobra, que já foi pichador, passou a grafiteiro e hoje se diz muralista. Seu pai sempre foi contrário ao seu trabalho e, se antes
ele nutria uma mágoa por causa disso, hoje percebe que essa falta de apoio era uma proteção. “Eu já havia sido detido pela polícia e essa era uma forma dele me cuidar”, reflete.
Há alguns anos, quando o pai faleceu, Kobra achou em uma gaveta recortes de matérias de revistas e jornais sobre suas obras. “Vi então que ele tinha um certo orgulho de mim”, conta, emocionado.
Autor do projeto “Muro das Memórias”, que resgata a memória da cidade com cenas e personagens das primeiras décadas do século XX, Kobra já pintou mais de 50 murais em avenidas e ruas de São Paulo. Um dos mais impressionantes é a obra “Oscar Niemeyer”, que ele fez em 2013 em homenagem ao aniversário da cidade. Outro trabalho impactante é “A Lenda do Brasil”, em homenagem a Ayrton Senna, em um prédio na rua da Consolação, na esquina com a Paulista. Também vale destacar um trabalho recente, sobre cicloativismo, que fica na parede lateral do Ibis Styles São Paulo Faria Lima.
Kobra é apaixonado por bicicletas, que usa há mais de dez anos. “A bicicleta tem um efeito superpositivo para a cidade, embora as pessoas não percebam isso a curto prazo”, diz Kobra, casado com Andressa e pai do bebê Pedro. Seus murais espelham seus sonhos. Em outubro de 2016, ele finalizou em Amsterdã o painel “Let me be myself”, de 240 m², no qual retrata Anne Frank, morta aos 15 anos em fevereiro de 1945 pela barbárie nazista. “Sempre quis fazer um mural sobre esta jovem”, diz o artista, que escolheu como título uma das frases mais representativas da escritora, “Deixe-me ser eu mesma”. “Ela é fundamental em um mundo onde a identidade de cada um deveria ser respeitada”, afirma. Outras personalidades que contribuíram para a paz, a liberdade, a arte e o humanismo foram pintadas por Kobra, como Nelson Mandela, Martin Luther King, Malala Yousafzai, Dalai Lama, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá e John Lennon.
Pouco antes dos Jogos Olímpicos, ele encantou o mundo ao fazer no Rio o mural “Todos Somos Um”, monumental trabalho de 2.646,34 m² em que representa os cinco continentes. A obra foi reconhecida pelo Guinness como o maior mural grafitado do mundo. Viajando direto – em fevereiro ele vai pintar nos Emirados Árabes e depois em Nova York –, Kobra segreda que adora conhecer novas culturas, mas tem uma paixão enorme pelo Brasil, especificamente por São Paulo. “São Paulo sempre foi e vai ser a plataforma do meu trabalho. Sem esta cidade eu nem existiria como artista”, diz Kobra, para quem a arte urbana é sempre bem-vinda na cidade: “Quanto mais arte na rua, melhor”.
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Texto de Chantal Brissac originalmente publicado na edição nᵒ 88 da revista "29horas" (matéria de capa). A publicação foi editada por Chantal Brissac e Kike Martins da Costa.