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O artista formador: Sandra Cinto e Albano Afonso

Em série de depoimentos à revista "Select", grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações. +

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Sandra Cinto e Albano Afonso, artistas e organizadores do Ateliê Fidalga, em São Paulo (SP), pensam sobre a dimensão formativa da arte:

“A educação se dá em qualquer espaço de convívio social”
Há algum tempo estamos tentando mudar a ideia do Ateliê Fidalga, enquanto um lugar parecido com uma escola ou local onde se oferece algum tipo de curso ou orientação. Faz tempo que não temos mais “alunos”. Refletimos muito sobre as práticas de educação em arte e o nosso trabalho foi ganhando outra dimensão. Partindo da ideia de que a educação se dá em qualquer espaço de convívio social, Albano e eu percebemos que o nosso trabalho no Ateliê Fidalga acontece muito mais como mediadores das discussões e propositores dos encontros entre os artistas, para que sejam feitas trocas.
O conhecimento é compartilhado de uma maneira horizontal, entre todos. Todas as áreas do conhecimento são bem-vindas e todos os artistas têm algo para dividir, aprender e trocar com o outro em termos de experiências. Também estamos bastante focados no Projeto Fidalga, um desdobramento do Ateliê Fidalga, localizado no nosso antigo ateliê. Nesse local funcionam cinco ateliês de artistas, um ateliê que é uma bolsa de incentivo para artistas sem espaço próprio (Bolsa Estúdio Fidalga), um programa sem fins lucrativos de residência (Residência Paulo Reis) e uma sala para exposições experimentais realizadas pelos artistas e curadores residentes, e artistas jovens ou em meio de trajetória que tenham um projeto para desenvolver e necessitam de espaço (Sala Projeto Fidalga). Nesse caso, a educação como ação transformadora e geradora de conhecimento acontece pela prática e pelas trocas no local: conversas organizadas durante a exposição, intercâmbios com universidades (Musashino e Aomori Art Center, no Japão, e Instituto de Geociências da USP, entre outros) e incentivo a publicações para multiplicar o conhecimento (desde o ano passado, as nossas publicações, além de impressas, são também virtuais, para que as pessoas possam baixá-las e terem acesso à pesquisa) e nos desdobramentos dessa experiência, a ressonância. Um exemplo é Renata Cruz, artista do grupo de estudos que está neste momento no Japão. Ela participa do nosso programa de intercâmbio com o Aomori Art Centre. A ideia de compartilhar o conhecimento vai se expandindo como uma hera.

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Texto de Luciana Pareja Norbiato e Felipe Stoffa originalmente publicado na edição 33 da revista “Select” | 02/02/17.
Na foto, workshop de Sandra Cinto. Crédito: Ding Musa.

Edifícios históricos são também pontos gastronômicos da cidade de São Paulo

Alguns dos bens arquitetônicos da cidade têm espaço com bares, restaurantes e cafeterias. Veja a lista. +

A cidade de São Paulo possui uma diversidade de bens culturais imóveis. São desde palacetes ecléticos da virada do século até grandes ícones da arquitetura moderna da década de 1920 em diante. Alguns desses bens arquitetônicos oferecem mais do que sua presença física, dividindo seu espaço com bares, restaurantes e cafeterias.
Conheça com os olhos e com o paladar alguns edifícios que marcaram história da cidade:

1. Esther Rooftop
Em 2016, o edifício Esther, o primeiro edifício alto modernista da cidade (projeto dos arquitetos Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho) ganhou um restaurante em sua cobertura, no 11º andar: o Esther Rooftop. A ideia foi dos irmãos Olivier e Pierre Anquier e de Benoit Mathurin, três chefs franceses profissionais.
O restaurante oferece uma ótima vista para a Praça da República. Aproveite para notar na entrada as engrenagens que decoram a porta, símbolo da Usina Açucareira Esther, que contratou a construção do edifício para ser a sua sede.

2. Terraço Itália
O edifício Itália, construído em 1965, foi encomendado pelo Circolo Italiano de San Paolo para abrigar sua sede. O projeto, do arquiteto alemão naturalizado brasileiro Franz Heep, foi selecionado em um concurso realizado em 1953, momento em que a cidade passava por um intenso processo de verticalização.
O edifício tornou-se um importante marco para a cidade, sendo na época o maior de São Paulo, com 46 andares e estrutura de concreto armado. No ano de 1967, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha projetou uma estrutura de ferro e cortinas de vidro, espaço onde foi inaugurado o restaurante Terraço Itália, especializado em culinária italiana.

3. Restaurante do Masp
Em 1968 era inaugurado na Avenida Paulista o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. Apesar da arquitetura brutalista de Lina, onde uma das questões mais relevantes é o concreto aparente, no início da década de 1990 as vigas foram pintadas e impermeabilizadas para conter as infiltrações que ocorriam durante chuvas fortes. A princípio Lina foi relutante, mas optou pela cor vermelha para cobrir as vigas.
Seu vão livre, o maior da América Latina, foi idealizado para que a vista da região permanecesse livre para o público. Hoje, seu edifício é um dos cartões postais da cidade, mas nem só de arte vive o Masp. No 2º subsolo há um restaurante que serve opções de buffet e pratos executivos. Não é necessário pagar a entrada no museu para ir ao restaurante.

4. Restaurante Sala São Paulo
A estação Júlio Prestes, de arquitetura eclética inspirada no estilo renascentista e vitrais feitos pela Casa Conrado, era composta por dois setores: o de transporte e o administrativo, construído em torno de um pátio central. A Sala São Paulo faz parte do Centro Cultural Júlio Prestes e foi inaugurada em 1999. O restaurante da sala, na antiga estação, serve comida contemporânea e pratos típicos da culinária brasileira.

5. Santinho – Theatro Municipal de São Paulo
O projeto do Teatro Municipal foi inspirado na Ópera de Paris, atendendo aos pedidos da elite paulistana da época por um centro cultural à altura dos encontrados na Europa. Em 1922, foi palco da Semana de Arte Moderna, que protagonizou o modernismo no Brasil. Hoje abriga diversos grupos artísticos, como a Orquestra Sinfônica Municipal, a Experimental de Repertório e o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. Um dos seus espaços é ocupado pelo restaurante Santinho desde 2015. O restaurante oferece buffet cobrado por pessoa, de segunda a sábado.

6. MoDi – Edifício Paquita
O Paquita é um edifício de arquitetura moderna construído na década de 1950 em frente ao parque Buenos Aires, para o qual a varanda dos quartos oferece generosa vista. No térreo, entre os pilotis que sustentam o edifício, há uma parede de vidro que serve de entrada para o restaurante MoDi, especializado em culinária italiana. O estabelecimento oferece um cardápio que inclui sopas frias, peixes, carnes e massas. Às segundas, há uma banda de Jazz tocando ao vivo.

7. Cafezal Cafés Especiais – Centro Cultural Banco do Brasil
O prédio do Centro Cultural Banco do Brasil foi construído em 1901 e comprado pelo banco em 1923. Passou por uma reforma que o adaptou para ser uma agência bancária ao mesmo tempo em que restaurou e preservou suas características originais. O responsável pela adaptação foi o engenheiro e arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol Junior, que refez seu interior, incorporando alguns dos padrões europeus de época para edifícios bancários. A fachada incorpora influências Art Nouveau e clássicas. No terceiro andar do prédio funciona a cafeteria Cafezal, que serve variados tipos de café, tortas e salgados, além de massas, risotos, carnes e saladas no restaurante.

8. Mirante 9 de Julho
O túnel da avenida 9 de Julho e seu mirante, inaugurado em 1938, fazia parte do projeto do Plano de Avenidas e seguiu uma linguagem arquitetônica protomoderna com elementos Art Déco. Depois de um período de abandono, o espaço do mirante está sendo reutilizado. Hoje é ocupado pelo centro cultural Mirante 9 de Julho, que promove a exibição de filmes, exposições artísticas e outros eventos ali, além de oferecer um espaço para coworking com acesso à internet e café. O local abriga o “Isso é Café” e o restaurante Mirante Efêmero.

9. Restaurantes na Praça Vilaboim em frente ao edifício Louveira
Outro edifício icônico na arquitetura moderna paulistana é o Louveira, projetado por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi e construído na Praça Vilaboim. O conjunto é formado por dois blocos retangulares, apoiados sobre pilotis, com uma fachada que chama atenção pela sua constante mudança: as janelas, quando abertas ou fechadas, criam leituras diferentes no prédio.
Há mais de uma dezena de estabelecimentos de restaurantes e bares no entorno da praça, entre eles o Le Vin, um bistrô francês, o Aoyama, restaurante especializado em culinária japonesa, e o Si Señor, de comida mexicana que oferece além dos pratos mais típicos uma variedade de grelhados.

Serviço:

Esther Rooftop
Endereço: Praça da República, 80 – 11º andar
Horário de funcionamento: de segunda a quinta, das 12h às 15h e das 19h às 23h. Sexta das 12h às 15h e das 19h às 23h30. Sábado das 12h às 23h30. Domingo das 12h às 17h.
Contato/Reservas: estherrooftop@gmail.com
Site: www.facebook.com/Esther-Rooftop-618432671638652

Terraço Itália
Endereço: Avenida Ipiranga, 344 – 41º e 42º andares
Horário de funcionamento: de segunda a quinta das 12h às 24h, sexta e sábado das 12h às 01h. Domingo das 12h às 23h.
Contato/Reservas: (11) 2189-2929
Site: www.terracoitalia.com.br

Restaurante Masp
Endereço: Avenida Paulista, 1578 – 2º Subsolo
Horário de Funcionamento: segunda a sexta das 12h às 15h, sábados e domingos das 12h às 16h
Contato/Reservas: (11) 3253 2829/ (11) 3289-7704. E-mail: 8artemasp@gmail.com
Site: http://masp.art.br/masp2010/visiteomuseu_info.php

Restaurante Sala São Paulo
Endereço: Praça Júlio Prestes, 16
Horário de funcionamento: Para almoços, de segunda a sexta, das 12h às 15h. Jantares, quando há concertos noturnos, das 18h30 às 01h.
Contato/Reservas: (11) 3225 9958. E-mail: ssp@8arte.com.br
Site: www.salasaopaulo.art.br/paginadinamica.aspx?pagina=restaurante

Santinho
Endereço: Praça Ramos de Azevedo, 1
Horário de funcionamento: Segunda a sexta das 10h às 17h, sábados das 12h às 17h (em dias de espetáculos fecha às 16h).
Contato/Reservas: (11) 3222-1683/(11)3221-8061. E-mail: tm.reservas@restaurantesantinho.com.br
Site: http://theatromunicipal.org.br/espaco/theatro-municipal/#restaurante

MoDi
Endereço: Rua Alagoas, 475
Horário de funcionamento: de segunda feira, das 17h às 23h. Terça a sábado das 12h às 23h. Domingo das 12h às 17h.
Contato/Reservas: (11) 3564-7028

Cafezal Cafés Especiais
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112
Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 21h. Não abre às terças. Contato/Reservas: (11) 3113-3676
Site: www.cafezalcafes.com.br

Isso é Café
Endereço: Rua Carlos Comenale, s/nº
Horário de funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 20h
Contato/Reservas: (11) 3862-5833
Site: www.issoecafe.com

Mirante Efêmero
Endereço: Rua Carlos Comenale, s/nº
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 12h às 22h.
Contato/Reservas: (11) 3111-6330

Le Vin Bistrô
Endereço: Rua Armando Penteado, 25
Horário de funcionamento: de segunda a quinta, das 12h às 24h. Sexta e sábado, das 12h às 01h. Domingo das 12h às 23h.
Contato/Reservas: (11) 3668-7400
Site: www.levin.com.br/#/home

Restaurante Aoyama
Endereço: Praça Vila Boim, 63
Horário de funcionamento: de segunda a quinta, das 24h às 15h e das 19h às 23h30. Sexta feira das 12h às 15h e das 19h às 24h. Sábado das 12h às 24h. Domingo das 12h às 23h30.
Contato/Reservas: (11) 3666-2087
Site: www.restauranteaoyama.com.br

Si Señor!
Endereço: R. Armando A. Penteado, 18
Horário de funcionamento: de segunda à quinta, das 12h às 15h e das 18h às 24h. Sexta das 12h às 15h e das 18h à 01h. Sábado das 12h às 01h. Domingo das 12h às 24h.
Contato/Reservas: (11)3476-2538. Reservas: https://sao-paulo.restorando.com.br/restaurante/si-senor-higienopolis
Site: www.sisenor.com.br/cardapio

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Texto originalmente publicado no blog do DPH – Departamento do Patrimônio Histórico / Prefeitura de São Paulo - SP (http://patrimoniohistorico.prefeitura.sp.gov.br) | 01/02/17.
Na foto, fachada do Edifício Esther, na Praça da República. Crédito: Guia de Bens Culturais da Cidade de São Paulo.

Paulo Mendes da Rocha recebe a Royal Gold Medal de Arquitetura 2017

Concedida desde 1848, a medalha já premiou arquitetos como Zaha Hadid (2016), Frank Gehry (2000), Norman Foster (1983) e Oscar Niemeyer (1998), único brasileiro além de Mendes da Rocha a receber a honraria. +

O Royal Institute of British Architects (RIBA) premiou em 01/02/17 Paulo Mendes da Rocha com a Royal Gold Medal de Arquitetura 2017.
Concedida em reconhecimento ao conjunto da obra, a Royal Gold Medal é dada a uma pessoa ou grupo de pessoas que tiveram uma significativa influência "seja direta ou indiretamente no avanço da arquitetura". Concedida desde 1848, entre os premiados em outros anos estão Zaha Hadid (2016), Frank Gehry (2000), Norman Foster (1983) e Oscar Niemeyer (1998), único brasileiro além de Mendes da Rocha a receber a honraria.
Nascido em Vitória (ES) em 1928, Paulo Mendes da Rocha obteve reconhecimento internacional por sua significativa contribuição à arquitetura. Construiu diversos edifícios culturais notáveis, grande parte inseridos no que se convencional chamar de estilo brutalista, com concreto aparente e acabamentos duros. Em 1957, concluiu sua primeira grande obra, o Clube Atlético Paulistano, que deu seguimento a outros grandes projetos, como a Capela de São Pedro (1987), o Museu Brasileiro de Escultura - MuBE (1988), a Praça do Patriarca (1992-2002), a remodelação da Pinacoteca do Estado (1993) e o Centro Cultura da Fiesp (1997).
Apesar de sua reputação internacional, são poucas as obras de Paulo Mendes da Rocha construídas fora do Brasil, notadamente o Pavilhão do Brasil na Expo '70 em Osaka, Japão, e o Museu Nacional dos Coches (2015) em Lisboa, Portugal.
A presidente do RIBA e presidente do comitê de seleção, Jane Duncan, comentou:
"A obra de Paulo Mendes da Rocha é muito incomum em comparação com a maioria dos arquitetos mais celebrados do mundo. Ele é um arquiteto com uma incrível reputação internacional, no entanto, a maioria de suas obras-primas estão construídas exclusivamente em seu país natal. Revolucionário e transformador, a obra de Mendes da Rocha tipifica a arquitetura do Brasil da década de 1950 - concreto exposto e belamente trabalhado."
Paulo Mendes da Rocha comentou:
"Após tantos anos de trabalho, é uma imensa alegria receber este reconhecimento do Royal Institute of British Architects pelas contribuições que minha obra e experimentos trouxeram ao progresso da arquitetura e sociedade. Gostaria de mandar calorosas saudações a todos aqueles que compartilham de minha paixão, em particular os arquitetos britânicos, e gostaria também de compartilhar este momento com todos os arquitetos e engenheiros que colaboraram em meus projetos."
Dentre as honrarias já recebidas por Paulo Mendes da Rocha estão o Prêmio Mies van der Rohe (2000), o Prêmio Pritzer (2006), o Leão de Ouro da Bienal de Veneza por sua trajetória (2016) e o Prêmio Imperial do Japão (2016).
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Texto originalmente publicado no site “ArchDaily” (www.archdaily.com.br) | 01/02/17.
Foto: Fabio Braga / Folhapress.

Os modernos voltam a se encontrar

Tarsila, Di Cavalcanti, Brecheret, Volpi, Rebolo e Bonadei, entre outros, estão reunidos na nova mostra do MAM +

Um importante ponto de encontro de artistas, críticos, jornalistas que movimentou a história da cultura paulistana está de volta. Setenta anos depois de sua fundação, a Galeria Domus, que impulsionou a arte na metrópole, é lembrada em livro e exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Com a autoria e curadoria de José Armando Pereira da Silva, a edição e a mostra reúnem obras de Tarsila do Amaral, Lívio Abramo, Alfredo Volpi, Mario Zanini. Aldo Bonadei, Tomoo Handa, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Rebolo, entre outros. E documentam também a participação dos críticos Maria Eugênia Franco, Sérgio Milliet, Ciro Mendes e Lourival Gomes Machado, do jornal O Estado de S. Paulo.

A mostra O mercado de arte moderna em São Paulo: 1947-1951, a ser inaugurada no próximo dia 7 de fevereiro, resgata o bom tempo da arte brasileira, quando artistas, críticos, curadores, jornalistas se reuniam para abrir caminhos para a cultura na metrópole. “A Galeria Domus, em seus cinco anos de existência, promoveu 91 exposições, fato que não encontrei registrado em nenhuma obra de história da arte brasileira”, argumenta o curador.


Cultura

- 01/02/2017
Os modernos voltam a se encontrar

Tarsila, Di Cavalcanti, Brecheret, Volpi, Rebolo e Bonadei, entre outros, estão reunidos na nova mostra do MAM
Por Leila Kiyomura - Editorias: Cultura
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Tarsila do Amaral: A obra Santa Irapitinga do Segredo, de 1941 presente na exposição inaugural da Galeria - Acervo Artístico Cultural: Palácios do Governo do Estado São Paulo
Tarsila do Amaral: A obra Santa Irapitinga do Segredo, de 1941, presente na exposição inaugural da galeria – Acervo Artístico Cultural: Palácios do Governo do Estado São Paulo

Um importante ponto de encontro de artistas, críticos, jornalistas que movimentou a história da cultura paulistana está de volta. Setenta anos depois de sua fundação, a Galeria Domus, que impulsionou a arte na metrópole, é lembrada em livro e exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Com a autoria e curadoria de José Armando Pereira da Silva, a edição e a mostra reúnem obras de Tarsila do Amaral, Lívio Abramo, Alfredo Volpi, Mario Zanini. Aldo Bonadei, Tomoo Handa, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Rebolo, entre outros. E documentam também a participação dos críticos Maria Eugênia Franco, Sérgio Milliet, Ciro Mendes e Lourival Gomes Machado, do jornal O Estado de S. Paulo.

A mostra O mercado de arte moderna em São Paulo: 1947-1951, a ser inaugurada no próximo dia 7 de fevereiro, resgata o bom tempo da arte brasileira, quando artistas, críticos, curadores, jornalistas se reuniam para abrir caminhos para a cultura na metrópole. “A Galeria Domus, em seus cinco anos de existência, promoveu 91 exposições, fato que não encontrei registrado em nenhuma obra de história da arte brasileira”, argumenta o curador.
Alfredo Volpi: Paisagem de Itanhaém, década de 1940. 1940 – Pintura: Reprodução
Alfredo Volpi: Paisagem de Itanhaém, década de 1940. 1940 – Pintura: Reprodução

Tanto o livro Artistas na Metrópole, Galeria Domus 1947-1951 como a exposição resultam da pesquisa atenta do jornalista e crítico Pereira da Silva, pós-graduado em Estética e História da Arte no Programa Interunidades da USP. “Meu principal objetivo foi reavivar as vozes daquela época, por meio de notícias, documentos, entrevistas, críticas biografias e memórias, resenhando cada exposição com o olhar contemporâneo.” O historiador buscou revelar os caminhos dos artistas, tentando avaliar até que ponto as escolhas da Domus cumpriram o papel de ser um local de arte moderna. “A pesquisa também reapresenta alguns artistas relegados ao esquecimento, que naquele momento tiveram seu papel e sua hora”, observa. “Certamente o aparecimento da Galeria Domus está em sintonia com um momento da história cultural de São Paulo, quando a cidade se consolida na condição de metrópole com polos dinâmicos de teatro, cinema e música.”
Marco zero da pintura moderna
Galeria Domus foi fundada pelo casal de italianos Anna Maria e Pasquale Fiocca. Estava sediada no térreo do edifício Ana Paula Leite de Barros, na esquina da Praça da República com a Avenida Vieira de Carvalho. “Eles contaram com os empresários da família Matarazzo e outros importantes italianos para introduzi-los no circuito intelectual e artístico e na atividade de tecelagem que iriam desenvolver em paralelo”, conta Pereira da Silva. “O papel estratégico que a galeria desempenhou foi graças à simpatia dos donos em sua sensibilidade e coragem de acolher artistas modernos e apostar nos jovens.”
O público vai ter uma visão desse espaço pioneiro, chamado de “marco zero da pintura moderna” na mostra O mercado de arte moderna em São Paulo: 1947-51, integrada por 72 obras do acervo do MAM. O curador busca resgatar a exposição inaugural de fevereiro de 1948 apresentando, na sala Paulo Figueiredo, os trabalhos de Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Alfredo Volpi e Mario Zanini. Na sequência, é exibido o núcleo dos artistas imigrantes ou estrangeiros de passagem pela cidade, como Samson Flexor, Anatol Wladyslaw, Danilo Di Prete, Bassano Vaccarini, Ernesto de Fiori e Roger Van Rogger.

Em destaque também a mostra especial de Alfredo Volpi, Paulo Rossi Osir, Francisco Rebolo e Mario Zanini que, na época, tinha o objetivo de financiar uma viagem dos quatro à Europa. “Também é recordada uma exposição de 67 artistas para arrecadar fundos em prol da revista Artes Plásticas, que não passou da quarta edição”, lembra Pereira da Silva.

No final do percurso, são apresentados trabalhos de artistas representativos no acervo do MAM que estrearam na Domus, como Raphael Galvez e Emídio de Souza, além do carioca Oswaldo Goeldi, que apresentou seus trabalhos em São Paulo pela primeira vez na casa. Também são expostas seis obras de Lívio Abramo, artista de reconhecimento internacional e que tinha boa presença nas exposições da Galeria Domus. Vitrines com documentos, convites, catálogos, revistas, recortes e fotos cedidos por herdeiros dos proprietários e colecionadores transportam o público à metrópole da década de 1950.

“Hoje, 70 anos após a fundação da Domus, vivemos num mundo muito diferente, com reflexo no campo onde se movimentam críticos e artistas”, observa o curador. “A arte se internacionalizou e ganhou foros e formas naquela época inimagináveis. Talvez um artista sensível como Bonadei tenha intuído as grandes transformações que iriam ocorrer, quando dizia, a seu modo, que no futuro a arte seria filosófica.“
Exposição

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O mercado de arte moderna em São Paulo: 1947-51, curadoria de José Armando Pereira da Silva. Inauguração no dia 7 de fevereiro de 2017, às 20 horas, até 30 de abril de 2017. Sala Paulo Figueiredo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Parque Ibirapuera, Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3. De terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até as 18h); entrada: R$ 6,00 e gratuita aos sábados. Tel.: (11) 5085-1300. Site: www.mam.org.br
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Texto de Leila Kiyomura publicado originalmente no Jornal da USP | 01/02/17

Um dos pioneiros da arte cinética, Sérvulo Esmeraldo morre aos 87

Ele havia sofrido um acidente vascular cerebral e estava internado havia quase duas semanas. +

Um dos pioneiros da arte cinética e autor de obras de geometria e luminosidade singulares, Sérvulo Esmeraldo morreu nesta quarta (01/02/17), aos 87, em Fortaleza. Ele havia sofrido um acidente vascular cerebral e estava internado havia quase duas semanas.
Esmeraldo iniciou sua carreira como ilustrador no jornal "Correio Paulistano", em São Paulo, mas foi morar em Paris na década de 1960, onde teve contato com artistas como o argentino Julio Le Parc e o venezuelano Jesús Rafael Soto, que então davam os primeiros passos na chamada arte cinética, obras calcadas na ilusão do movimento ou com detalhes que de fato se mexem, caso de algumas de suas obras.
Sua série mais célebre, os "Excitáveis", foi criada ainda em seus anos parisienses. Era formada por quadros com pequenas peças de acrílico, que se moviam em contato com a eletricidade estática das mãos do espectador.
Em paralelo, o artista se engajou na luta contra a ditadura no Brasil, tendo atuado no grupo de resistência América Latina Não Oficial, que ajudava refugiados do regime militar.
Sua última mostra em São Paulo foi há dois anos na galeria Raquel Arnaud, onde mostrou novas peças metálicas criadas a partir de projetos de obras criados ao longo das últimas décadas.
Em Fortaleza, o cearense nascido no Crato, no interior do Estado, também chegou a criar grandes esculturas públicas, como o Monumento ao Saneamento da Cidade de Fortaleza. Seu corpo será velado nesta quinta (02/02/17), no Palácio da Abolição, sede do governo do Ceará.
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Texto de Silas Martí originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 02/02/17.
Na foto, Sérvulo Esmeraldo em seu ateliê em Paris nos anos 1970. Crédito: Divulgação.

Morre aos 87 anos o artista cearense Sérvulo Esmeraldo

Ele completaria 88 anos no dia 27/2. Última exposição do artista foi na cidade natal, Crato, em 2016. +

Morreu na tarde desta quarta-feira (dia 01/02/17) o artista plástico cearense Sérvulo Esmeraldo. No último fim de semana, ele foi diagnosticado com um quadro de acidente vascular cerebral (AVC). Segundo amigos próximos, o velório deve ocorrer a partir das 8h desta quinta-feira (02/02/17) na capela do Palácio da Abolição, em Fortaleza.
A morte do artista cratense foi confirmada na noite desta quarta pela Secretaria de Cultura do Ceará.
Intitulada "Sérvulo Esmeraldo: A Linha, A Luz, O Crato", foi a última exposição realizada pelo artista. De acordo com amigos, ele estava bastante feliz por sua cidade natal (Crato) receber suas obras. Sérvulo completaria 88 anos em 27/02/17.
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Fonte: texto de Michel Victor originalmente publicado no site G1 (g1.globo.com).
Foto: Heloisa Araújo / Agência Diário.

7 regras para um artista alcançar o sucesso

Talento, planejamento e conhecimento comercial são algumas das habilidades necessárias. +

Talento
Em primeiro lugar o artista precisa ter talento, ele vem de duas maneiras na nossa vida:
Talento natural, é aquele que você já nasce com ele, se você já “nasce” desenhando, pintando, atuando, faz coisas sem ter feito aulas, o autodidata, têm habilidades naturais, conhecida também como dom, e o que pode ser adquirido com o tempo além do talento natural, o talento construído, é o domínio da habilidade natural, você já nasce com o dom da arte, mas precisa aprender a dominar isso, onde você entra numa aula pra aprender ou aprimorar o estilo artístico que você escolheu.

Planejamento
Como um artista independente, você precisa lembrar que além de artista você também é um homem de negócios, você tá gerando compras e vendas, tá vendendo o seu produto e pretende ganhar dinheiro com isso. Você precisa planejar muito bem a sua carreira porque você também tem concorrentes, como qualquer lojista, como qualquer empresário, como qualquer tipo de mercado… E, pra alcançar o mérito do sucesso, você precisa planejar, ter perseverança, acreditar nos seus sonhos e naquilo que você faz.

Público Alvo
Se preocupar com o público alvo. Se você já tem um público fiel ou se você está começando agora no mercado, você ainda não tem um público, mas você precisa medir a capacidade de construir um público, se você é bom o bastante para conquistar um público fiel.

O Mercado
Você precisa estar 100% antenado ao mercado, adquirir conhecimentos, saber a potencialidade do seu estilo e como ele está no mercado naquele momento. As melhores regiões de mercado, analisar galerias, museus, ter a noção de qual o melhor local, cidade ou município pra você se projetar como artista.

Conhecimentos Administrativos
Você precisa ter conhecimentos administrativos, além de artista, você precisa entender que é gerente da própria carreira, saber como funciona o mercado, entender sobre emissões de NF`s, ter um CNPJ pra além de contratos pequenos passar a ter grandes contratos e assim você conseguir subir na sua carreira pra conseguir grandes exposições

Conhecimento Comercial – O Marchand
Marchand, a palavra se refere não só àquele que compra e vende objetos artísticos mas também a um tipo de prestador de serviços que atua na divulgação do artista, podendo representá-lo comercialmente nas relações com galeristas, colecionadores, museus e assemelhados. À maneira de um corretor especializado, esse profissional não realiza a compra ou a venda de objetos. Apenas intermedeia as relações entre o artista e o mercado de arte.
Então, se você não é um bom vendedor o Ideal é ter alguém responsável por vendas, um Marchand, seja um parente, um amigo, não importa quem seja, mas alguém que tenha possibilidade e que goste de vendas, na minha opinião o artista tem que fazer arte, ele precisa de tempo para criar, projetar novos trabalhos enquanto uma pessoa sai na estrada pra vender o seu trabalho o que todo artista precisa ter alguém que venda, um empresário, mas se você é um artista independente e não foi contratado por nenhum empresário, não fechou acordo, você pode montar uma equipe e contratar uma pessoa que faça isso pra você, que venda por você. O conhecimento de vendar é muito importante, porque não adianta você ser um bom artista se você não sabe se vender. Saber diferenciar o valor e preço, saber se valorizar.

O Curador
No decorrer da carreira, você irá precisar de um curador. Crítico, imaginativo, bom escritor e amante dos museus. Essas são algumas características do profissional que atua como curador de arte. Formado em áreas diversas, como história, literatura, filosofia ou comunicação, e especializado na área, o curador é responsável pela preparação, concepção e montagem de exposições.
Seu papel é estabelecer relações entre as obras e fazer com que dialoguem com o público. “É como um técnico de futebol, que escolhe o time, pegando os melhores jogadores para cumprir sua função”.

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Texto de Joy de Paula originalmente publicado no site “Arte|Ref” (http://arteref.com) | 30/01/17.

Residência projetada por Vilanova Artigas em São Paulo é tombada

A representatividade como programa residencial rendeu à obra o título de bem cultural. +

A residência José Mário Taques Bittencourt II, projetada por Vilanova Artigas, concluída em 1962, foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).
Localizada no bairro de Sumaré, em São Paulo (SP), a obra apresenta, segundo o conselho, uma “linguagem do concreto aparente sem revestimentos, separa-se do espaço público com um volume cego e que articula os espaços internos através de planos interligados por rampas e jardim internos”.
Para o órgão, sua representatividade como programa residencial concebido no período de 1956 a 1985, que, dentro do panorama da obra do arquiteto, caracteriza-se pela aproximação ao chamado “brutalismo da Escola Paulista” de arquitetura, rendeu à residência o título de bem cultural de interesse histórico, arquitetônico, artístico, turístico, paisagístico e ambiental.
O conselho destaca ainda a relevância da produção de João Batista Vilanova Artigas para a compreensão da história da arquitetura paulista e pela sua interpretação peculiar dos princípios da arquitetura moderna.
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Texto originalmente publicado no site “ArcoWeb” (https://arcoweb.com.br) | 24/01/17.

A marcha dos sem-marchand

Criadores deslocados do circuito das galerias vivem entre a marginalização e a busca de um aceno do mercado. +

Uma singela mostra simultânea que se abriu nesta semana em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia, o Salão dos Artistas Sem Galeria, já em sua oitava edição, recebeu 194 obras de 12 estados e do Distrito Federal para montar suas exibições.
O mote é prescindir da representação de marchands ou galeristas, o que não quer dizer que os artistas escolhidos por um júri independente não sonhem com um aceno do mercado.
A colheita do salão resultou numa seleção eclética que inclui de pintores de técnica clássica a fotógrafos, escultores, videoartistas e adeptos das instalações: Lula Ricardi (SP), Maura Grimaldi (SP), Jefferson Lourenço (MG), Marcelo Barros (SP), Gunga Guerra (Moçambique/RJ), Marcelo Pacheco (SP), Luciana Kater (SP), Cesare Pergola (Itália/SP), Juliano Moraes (GO) e Cristiani Papini (MG).
Quantos desses jovens vingarão é algo imponderável. Mas é certo que, dentro do sistema de legitimação artística preponderante do País, artista que se afirma sem marchand é raro. E também são poucos os exemplos históricos.
O gravurista pernambucano Gilvan Samico (1928-2013), de temperamento discreto e que abriu mão da visibilidade e da presença no mercado do Sudeste do País para viver em Olinda (PE), foi um caso. Sua nora vendia o que ele produzia, uma gravura a cada ano.
Ainda assim, Samico teve, em vida, uma carreira de 300 exposições em 30 países, com prêmio da Bienal de Veneza e obras no MoMA de Nova York. E seu trabalho ecoa longe ainda hoje: no próximo dia 9 de fevereiro, será aberta em Nova York a exposição Samico Between Worlds - Rumors of War in Times of Peace, do Dream Box Art Lab, com 14 xilogravuras que ficarão expostas até 4 de março.
Nos anos 1970, artistas experimentais como Hélio Oiticica e Lygia Clark abriram caminho para que a arte se relacionasse mais com o público do que com os marchands e as galerias. Após a morte deles, viraram galinhas dos ovos de ouro para o mercado de arte.
O muralista, pintor e artista plástico baiano Bel Borba provavelmente é um enigma para o mercado de arte. Em 2012, sem marchand e sem galeria, pouco badalado na terra natal, ele foi comissionado para montar uma exposição no coração de Times Square, em Nova York.
O jornal The New York Times estampou, em reportagem de uma página: “Bel Borba traz criatividade contagiante para as ruas de Nova York”.
No ano passado, novo espanto: até o fim de dezembro, Borba estava com mostra portentosa na Alemanha, no Museu Neuffer Am Park, em Pirmasens (que já abrigou Picasso, Penck, Kostabi, Christo e Jeanne-Claude, entre outros).
As obras seguem para uma itinerância pela Alemanha (Düsseldorf, Hannover e Berlim) nos próximos meses, enquanto outras exposições de Borba correm cidades da Espanha até o fim do ano. O artista acerta tudo pessoalmente, baseado nos velhos princípios de camaradagem e “cara de pau”, como afirma.
Agnaldo Farias, crítico, curador e professor da Universidade de São Paulo, acredita que, atualmente, não é possível a vida de um artista longe dos marchands e das galerias.
“Em primeiro lugar, porque as inúmeras feiras de arte espalhadas pelo planeta, como Basel, Armory, Frieze, SP Arte etc., cuja importância decorre diretamente da força das galerias que elas abrigam, são responsáveis por grande parte das vendas para museus e colecionadores”, diz Farias. “Por conta disso, ainda que uma galeria não logre obter sucesso nessa ou naquela feira, participar delas é um imperativo.”
Para José Roberto Teixeira Coelho, ex-curador do Museu de Arte de São Paulo, o marchand continua a atuar na dialética das artes visuais “para o melhor e para o pior” – e continua impulsionando carreiras artísticas. Já a galerista Adriana Duarte, da independente Casa da Xiclet e que foi jurada do Salão dos Sem Galeria, diz que não é imprescindível ter uma representação profissional para triunfar no mundo da arte.
“O que é imprescindível mesmo é que o artista seja bom, que sua obra tenha qualidade técnica, estética e conceitual”, diz Adriana. “Pois conheço artistas que têm representação nacional e internacional e que não têm técnica nem estética, como é o caso do Romero Britto. Ter representação não significa que ele seja realmente bom, apenas que é representado por alguém.”
Celso Fioravante, editor do periódico e portal Mapa das Artes e criador do Salão dos Artistas Sem Galeria, considera que o novo mundo, globalizado e tecnológico, impulsiona os artistas jovens para caminhos independentes. Possibilita que criem páginas no Facebook e no Instagram, formatando sites ou blogs.
A interna sua visibilidade, mas nada subet ainda ajuda o artista em todo tipo de comunicação, pois o mantém informado das oportunidades do circuito. “Tudo isso ajuda o artista e aumenta stitui o trabalho de uma galeria”, pondera Fioravante. “O galerista é quem faz o trabalho real, enquanto a internet faz o trabalho virtual.”
Mesmo casos de êxito, como o de Samico, têm um componente de assimilação pelo mercado. “Embora ele não fosse representado por marchand ou galeria, é verdade também que as galerias compravam seu trabalho e revendiam, e é difícil dimensionar o reflexo que esse jeito de trabalhar trouxe para seu reconhecimento e presença entre colecionadores”, analisa Clara Clarice, jornalista e curadora, diretora de uma instituição que representa a obra de Samico em nome da família.
Após o falecimento do artista, a obra de Samico tornou-se ainda mais valorizada. A recente Bienal de São Paulo mostrou 51 obras do gravurista. Seu trabalho esteve nas últimas edições da Bienal do Mercosul e Internacional de Curitiba, além de diversas individuais nos últimos dois anos.
O escritor francês Pierre Assouline afirmou, em sua bem-sucedida biografia L’Homme de l’Art D. H. Kahnweiler 1884-1979, que o cubismo talvez não tivesse existido sem a figura de um marchand, o alemão Daniel-Henry Kahnweiler, o primeiro a reconhecer qualidade na icônica pintura Les Demoseilles d’Avignon, de Picasso (e de obras fundamentais de Fernand Léger, Georges Braque, Juan Gris, Kess van Dongen e André Derain). Assim como os impressionistas não teriam tido vida fácil sem Paul Durand-Ruel, que lhes pagava aluguéis, médicos e alfaiates.
Pode parecer que a questão dos marchands é inerente ao capitalismo, mas é um debate muito antigo. Denis Diderot (1713-1784) reclamou que a especulação do mercado de arte teve um efeito deletério na qualidade artística naquela época.
O que levou o filósofo Paul Mattick a escrever, no livro Art in Its Time (2003), que a consequência daquelas críticas foi uma reação irônica: ao se atribuir a exemplares da pintura flamenga holandesa a expressão de uma cultura comercial, acabou se criando um significado para críticos e artistas, aumentando o interesse de colecionadores da França e pintores (em certo período, o número de colecionadores na França pulou de 150 para 500).
Para Agnaldo Farias, os marchands, “se aparelhados estética e comercialmente, predicados que cada um deles conjuga com tônicas distintas”, têm o poder de dar visibilidade a uma obra. “O que também significa ocultá-la ou inflacioná-la, ainda que ela, se comparada com outras obras, não tenha a mesma qualidade”, analisa.
Paradoxo dos paradoxos, a mostra do Salão dos Artistas Sem Galeria terá percurso justamente em galerias: duas de São Paulo (Zipper e Sancovsky), uma em Belo Horizonte (Orlando Lemos), outra em Goiânia (Ludmilla Potrich) e outra no Rio de Janeiro (Patricia Costa).
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Texto de Jotabê Medeiros originalmente publicado no site da revista “Carta Capital” (www.cartacapital.com.br) | 31/01/17.
Na foto, detalhe da obra “Se Correr o Bicho Pega”, de Gunga Guerra.
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Nota do Mapa das Artes:
Diferentemente do publicado na reportagem, as mostras do Salão dos Artistas Sem Galeria não são simultâneas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia. A exposição é itinerante: em São Paulo, nas galerias Sancovsky (de 12/01/17 a 04/03/17) e Zipper (de 17/01/17 a 04/03/17), em Belo Horizonte (Galeria Orlando Lemos, entre 11/03/17 e 22/04/17), em Goiânia (Potrich Arte Contemporânea; de 06/05/17 a 03/06/17) e no Rio de Janeiro (Galeria Patricia Costa, junho e julho de 2017).

Em seu 1ª ano, Museu do Amanhã se torna o mais visitado do país

A visitação do museu em 2016 foi maior do que as dos três museus seguintes: o MIS-SP, o Masp e o Museu de Arte do Rio – somadas. Também superou o público de 30 instituições federais sob responsabilidade do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), que tiveram juntas 977 mil visitas no último ano. +

Ele entrou no circuito ainda ontem, já muito atrasado, mas chegou causando: em seu primeiro ano de atividade, o Museu do Amanhã tornou-se o mais visitado do país.
Símbolo maior da reforma da zona portuária do Rio de Janeiro (RJ), o museu teve 1,4 milhão de visitas desde sua inauguração, em 17/12/15, após sucessivos adiamentos – ele havia sido prometido para o aniversário de 450 anos da cidade, em 01/03/15.
A visitação do Amanhã em 2016 foi maior do que as dos três museus seguintes: o MIS-SP, o Masp e o Museu de Arte do Rio – somadas. Também superou o público de 30 instituições federais sob responsabilidade do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), que tiveram juntas 977 mil visitas no último ano.
Especialistas ouvidos pela “Folha de S. Paulo” e a própria direção do museu apontam quatro fatores para o sucesso: a inserção do edifício na renovada área portuária carioca; sua arquitetura espetaculosa, criada pelo espanhol Santiago Calatrava; o impulso dos Jogos Olímpicos; e a divulgação midiática sem precedentes.
Por fim, há a atração causada pela temática moderna e pelas instalações multimídias da instituição, que foi concebida pela Fundação Roberto Marinho e pertence à Prefeitura do Rio.
Receber mais de um milhão de pessoas foi algo que os donos do Amanhã não previram: a expectativa de público para o primeiro ano, firmada em contrato, era de 450 mil pessoas –número a que se chegou após um estudo da Fundação Getulio Vargas encomendado pela prefeitura.
"Fizemos um esforço enorme para que a equipe dimensionada (para 450 mil) pudesse atender essa multidão", diz Ricardo Piquet, 53, diretor-presidente do museu.
O esforço teve seu custo: o Amanhã acertara com a prefeitura um orçamento de R$ 32 milhões para operar por dois anos (2015 e 2016). Na prática, só abriu para o público no ano passado, mas gastou a verba inteira assim mesmo.
"Foi preciso repactuar os contratos de vigilância e de limpeza, para atender três vezes mais pessoas do que o previsto. Eles absorveram essas demandas, fizemos um esforço de manutenção além do projetado. Contratamos temporários para cobrir algumas etapas que sabíamos que seriam necessárias", diz Piquet.
Para 2017, o orçamento previsto é de R$ 32 milhões – metade disso, dinheiro municipal. A instituição esperava receber R$ 20 milhões dos cofres públicos. "Para nossa surpresa, a prefeitura (ainda na gestão de Eduardo Paes) mandou um valor de R$ 16 milhões. Ou seja, é um corte no orçamento. Fizemos um outro esforço para buscar patrocinadores além do que estava previsto, para complementar o orçamento", afirma o diretor do museu.
Quantidade não é tudo
Apesar de louvar o expressivo número de visitantes conseguido pelo Amanhã, especialistas apontam que esse não pode ser o único dado para se medir a relevância de um museu.
"É uma tendência internacional dos museus cada vez menos oferecer acervo e mais a experiência da arquitetura do prédio", diz o crítico de arte Afonso Luz, 41, ex-diretor do Museu da Cidade de São Paulo. "O espetáculo gera distorções, é um desperdício sem tamanho, porque o dinheiro gasto não forma as pessoas. Para ver a história da arte ou a trajetória de um artista, é uma tarefa complexa. Essa é a diferença de um museu: você vai criando um trabalho diferenciado, educativo, sustenta um mercado de catálogos", afirma Luz.
Paulo Vicelli, diretor de relações institucionais da Pinacoteca de São Paulo, diz que o Amanhã "é um fenômeno e teve um sucesso merecido", mas afirma que não se deve comparar a visitação dele com as de museus de arte.
"O Museu do Amanhã não é uma instituição como a Pinacoteca. Ele não tem acervo, não tem uma coleção. É um museu de sensações, você vê as televisões, é uma outra abordagem. Ele usa de uma linguagem que é mais compreendida pelo público de hoje, sobretudo o público jovem. Talvez os museus mais tradicionais precisem aprender a mesclar um pouco suas linguagens com essa tecnologia que atraiu mais de um milhão de pessoas", diz Vicelli.
Recorde de público também não se traduz necessariamente em qualidade, e Piquet reconhece que a quantidade imprevista teve efeitos indesejados, como filas que chegavam a mais de três horas.
"Para este ano, não temos a expectativa nem o desejo de bater recorde nenhum, porque extrapolamos o limite para uma boa visita ao museu. Receber quase 10 mil pessoas num dia, como nós recebemos, causa uma visita frustrante, você não consegue ver tudo", diz o diretor.
Ainda assim, ele estima bater a casa do 1 milhão de visitas novamente. "Neste mês de janeiro o público vem girando em torno de 4.500 pessoas por dia. Se essa média se reproduzir até o final do ano, vamos chegar em algo como 1,1 milhão."
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Texto de Marco Aurélio Canônico originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 30/01/17.
Foto: Erbs Jr. / Folhapress.

A menor bienal do mundo

O evento, aberto em 06/01/17, ocorre em uma remota ilha caribenha, a qual está desaparecendo por conta do aumento do nível do mar. A mostra reúne trabalhos de 14 artistas. +

Quão pequena é a menor bienal de arte do mundo? Tão pequena que o aumento dos níveis do mar está lentamente causando o desaparecimento do pequeno pedaço de terra em que ela está sendo mantida. Situada na ilha caribenha remota e desabitada de Ilet de La Biche, dentro de Grand Cul-de-Sac Marin, reserva marinha natural da Guadalupe, a Bienal de La Biche abriu sua primeira – e talvez única – edição em 06/01/17.
Fundada e curada por Alex Urso e Maess Anand e intitulada “Em uma Terra de”, a edição inaugural da Bienal de La Biche inclui o trabalho de 14 artistas de todo o mundo, cada um dos quais foi convidado a criar uma obra de arte que abraça a localização como um local isolado geograficamente longe dos limites de um sistema de arte contemporânea.
De acordo com a declaração curatorial, a Bienal desafia os artistas a perceberem a ilha como um local temporário e que está desaparecendo. “O artista foi, portanto, convidado a interpretar o conceito de não-lugar, elaborando uma obra que pode refletir a transitoriedade do tempo e a insegurança absoluta a que a ilha está atualmente sujeita”, diz.
Os artistas participantes na Bienal de La Biche são: Karolina Bielawska, Norbert Delman, Michal Frydrych, Maess, Aleksandra Urban, Lukasz Ratz e Zuza Ziołkowska-Hercberg (Polônia), Ryts Monet, Lapo Simeoni e Alex Urso (Itália), Styrmir Örn Guðmundsson (Islândia), Jeremie Paul (França), Saku Soukka (Finlândia) e Yaelle Wisznicki Levi (EUA / Polônia).
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Texto originalmente publicado no site "Dasartes" (dasartes.com.br) | 26/01/17.

Retrospectiva na Tate reúne esculturas icônicas de Giacometti

O museu de Londres realiza uma grande exposição do suíço Alberto Giacometti (1901-1966) de 10/05/17 a 10/10/17. +

A Tate Modern, em Londres, realiza uma grande exposição do suíço Alberto Giacometti (1901-1966) de 10/05/17 a 10/10/17. As seis “Woman of Venice”, criadas em 1956 para a Bienal de Veneza, serão reunidas pela primeira vez. Elas serão exibidas ao lado de mais duas esculturas da série, que Giacometti apresentou na Kunsthalle Berne naquele mesmo ano. As obras foram especialmente restauradas e remontadas para a exposição da Tate, realizada em parceria com a Fondation Alberto et Annette Giacometti, de Paris. Uma oportunidade rara de ver este grupo importante de trabalhos frágeis como o artista vislumbrou originalmente.
Obras representam um marco na trajetória de Giacometti
Escolhido para representar a França na Bienal de Veneza de 1956, ele apresentou um grupo de esculturas em gesso recém-feitas para a exposição, todas retratando um alongado nu feminino, em pé. As obras representam uma etapa crucial no desenvolvimento artístico de Giacometti e foram o resultado do estudo de sua esposa Annette, um de seus modelos mais importantes. As esculturas podem ser vistas como um ponto culminante das experimentações ao longo da vida do artista para retratar a realidade da forma humana.
Embora Giacometti seja mais conhecido por suas figuras de bronze, a Tate irá reposicioná-lo como um artista com um interesse muito mais amplo em materiais e texturas, especialmente gesso, argila e tinta. Ao longo de cerca de três semanas, Giacometti moldou cada uma das mulheres de Veneza em barro antes de fundi-las em gesso e reformulá-las com uma faca para acentuar ainda mais a sua superfície. A elasticidade e maleabilidade destes materiais permitiram-lhe trabalhar de forma inventiva. Giacometti também embelezou a superfície de várias obras da série com tinta vermelha e preta, um elemento importante de sua prática que só pode ser experimentado ao ver as esculturas de gesso originais.
Exposição abrangente
Graças ao inigualável acesso à extraordinária coleção e arquivo da Fondation Alberto et Annette Giacometti, a Tate Modern conseguiu reunir essas obras raramente vistas. O extenso projeto de restauração realizado pela fundação oferecerá aos visitantes uma nova perspectiva sobre os métodos de trabalho de Giacometti. As obras foram devolvidas ao seu estado original mostrando as marcas de pintura e canivete não visíveis nos moldes de bronze posteriores. A exposição também incluirá outras esculturas de gesso importantes, desenhos e cadernos de desenho que nunca foram mostrados antes.
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Fonte: site "Touch of Class" (www.touchofclass.com.br) | 25/01/17.

Design e arquitetura brasileiros conquistam 9º lugar em lista de 88 países

O último ranking do WorldDesignRankings.com mostra o Brasil em 9º lugar, à frente de países como Alemanha, França e Holanda. +

Não é só de futebol e carnaval que vive a imagem brasileira lá fora. Não é de hoje que o país também exporta maravilhas em design e arquitetura. Além dos projetos e peças em destaque nas vitrines mundiais, a assinatura brasileira ganha reconhecimento em premiações. O último ranking do WorldDesignRankings.com mostra o Brasil em 9º lugar numa lista de 88 países.
Este site elenca os países de acordo com o número de designers premiados no A' Design Award de 2010 a 2016. Na liderança aparece os Estados Unidos, seguidos de Turquia, China, Hong Kong, Taiwan, Itália, Grã Bretanha e Japão. O Brasil aparece na frente de grandes nomes do design, como Alemanha, França e Holanda.
Entre os profissionais brasileiros mais premiados estão o designer Andre Gurgel e o arquiteto Felipe Bezerra do Estúdio Mula Preta (reponsáveis por projetos como a loungechair Duna), a arquiteta Fernanda Marques (que projetou a Fazenda Boa Vista, em São Paulo), o designer Marcelo Lopes, o arquiteto Márcio Kogan (que projetou o Bar Riviera, em São Paulo), entre outros.
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Texto originalmente publicado no site UOL (www.uol.combr) | 25/01/17.

Pinacoteca do Estado de SP vai ganhar mais uma sede em 2018

Prédio de antigo colégio na Luz foi cedido pela Secretaria de Estado de Cultura; espaço terá foco na arte contemporânea e projeto de residência. +

Após anos de negociações, a Pinacoteca do Estado de São Paulo conseguiu a cessão do complexo arquitetônico onde funcionou até 2014 o Grupo Escolar Prudente de Moraes, na Avenida Tiradentes, dentro do Parque da Luz. A nova unidade, que deve ser inaugurada em 2018, hospedará parte do acervo e terá foco em atividades relacionadas à produção de arte contemporânea.
O anúncio da expansão será feito oficialmente na próxima quarta-feira (25/01/17), quando o museu organiza uma programação de shows e atividades recreativas para comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.
Os planos de expansão da Pinacoteca remontam à gestão de Marcelo Araújo no museu. O terreno do colégio, com cerca de 7 mil m², pertencia à Secretaria de Educação do Estado antes de ser passado à Secretaria de Cultura. Para o novo espaço, a Pinacoteca planeja adaptações e reformas, investindo inicialmente algo em torno de R$ 5 milhões, que virão de recursos já existentes do museu e verba captada junto à iniciativa privada.
“Não será apenas mais um espaço de exibição da nossa coleção, mas um lugar de fomento à produção artística contemporânea”, explica o diretor-geral do museu, Tadeu Chiarelli.
Com o nome de Pina Contemporânea, a nova unidade pretende hospedar projetos de residência artística e programas de apoio a jovens artistas. A Pinacoteca já possui projetos de experimentação, como a montagem de obras site specific no octógono do prédio da Luz. Atualmente, o lugar exibe, por exemplo, criações desse tipo dos artistas Fernando Limberger e Ana Maria Tavares. O projeto inicial do colégio foi feito pelo Escritório Ramos de Azevedo. No entanto, parte do prédio foi comprometido em um incêndio nos anos 1930. Ele passou por reformas e ganhou uma arquitetura modernista, por Hélio Duarte.
O anúncio da expansão coincide com o fim da gestão de Chiarelli, que passará a diretoria, a partir de maio, para o alemão Jochen Volz, curador da 32ª Bienal de São Paulo e da participação oficial brasileira na 57ª Bienal Internacional de Arte de Veneza, neste ano. A passagem de Chiarelli pela diretoria da Pinacoteca ficou conhecida por repensar a coleção de cerca de 10 mil peças e pela reestruturação dos dois prédios atuais.
Segundo ele, com a expansão, a exibição do acervo será distribuída de forma cronológica entre as três sedes. Na Luz, estarão obras desde o fim do período colonial até os 1970 – o que já acontece com as atuais mostras permanentes sobre arte brasileira. Já a Estação ficará com a produção artística até os anos 2000. A nova Pina Contemporânea focará na produção mais recente, a partir de 2010.
Além do início das obras da nova unidade, neste ano, a Pinacoteca também terá exposições da fotógrafa alemã Candida Höfer e do artista belga David Claerbout, além de uma retrospectiva do modernista Di Cavalcanti. Em 2018, está prevista uma mostra com acervo do Museu d’Orsay, de Paris.
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Texto de Celso Filho originalmente publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” | 23/01/17.

“Copan” da Luz inicia parceria público-privada de moradia no país

Construção terá 1.202 apartamentos populares e foi concebida para ajudar na revitalização do centro +

A inauguração da rodoviária da Luz, em 1961, foi um dos fatores que contribuíram para a decadência do centro. O movimento afugentou de lá muitos moradores, que se mudaram para bairros como Higienópolis. O terminal acabou sendo desativado em 1982, e o terreno de 18 000 metros quadrados ficou abandonado. Agora, vai abrigar um empreendimento que tem por finalidade revitalizar a região. A partir desta segunda, 23, começa a ser erguido ali o Complexo Júlio Prestes, um conjunto de oito blocos de uso misto.
Os edifícios terão 1.202 apartamentos residenciais (42 a mais que o Copan, localizado a 2 quilômetros de distância). As unidades, que possuem entre 40 e 54 metros quadrados, serão destinadas a famílias com renda de, no máximo, seis salários mínimos. Outra condição para morar ali é que pelo menos um morador trabalhe na região.
Os imóveis serão vendidos com preços a partir de 260 000 reais, financiados em até vinte anos. O local terá ainda uma área comercial com 66 estabelecimentos, entre lojas e restaurantes, além de uma creche para 200 crianças. A Escola de Música Tom Jobim, que hoje funciona em um imóvel alugado nas imediações, também será transferida para lá. A construção ficará pronta em dois anos.
O investimento de 1 bilhão de reais foi viabilizado por meio de uma parceria público-privada, a primeira realizada na área de habitação do país. O projeto é uma iniciativa do governo do Estado de São Paulo em conjunto com a construtora mineira Canopus Holding.
O Poder Executivo vai desembolsar 460 milhões de reais no projeto, entre subsídios aos moradores para a aquisição dos imóveis e uma taxa fixa de manutenção paga à Canopus (cerca de 214 000 reais por mês). A companhia terá direito a fazer a exploração do setor comercial do conjunto. “O sorteio que vai selecionar as famílias já conta com 149 000 inscrições, que ficarão abertas até julho”, afirma Rodrigo Garcia, secretário de Estado da Habitação.
Da janela de alguns dos apartamentos será possível avistar a Cracolândia. Na noite da última terça, 17, um confronto entre a Polícia Militar e usuários de drogas da região terminou com um soldado ferido e oito pessoas detidas. De acordo com levantamento feito pela Secretaria de Segurança Pública, o número de roubos nas regiões de Campos Elíseos, Santa Cecília e Luz aumentou 25,4% nos últimos três anos.
O 3º Distrito Policial, responsável pelo pedaço, figurou como o campeão nos registros de roubo na capital em 2016. Somente entre janeiro e agosto, 2 800 casos haviam sido assinalados — quase oito por dia.
Para alguns especialistas, o Complexo Júlio Prestes pode melhorar esse cenário. Segundo o diretor do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva, Pedro Taddei, a combinação entre habitação, comércio e cultura é ideal para impulsionar mudanças positivas. “A moradia impede que o bairro fique totalmente deserto durante a noite”, comenta.
Ele elogia também a obrigatoriedade de haver pelo menos um morador por apartamento trabalhando no centro. “É uma boa estratégia para evitar gastos com o transporte público e aliviar o trânsito”, completa.
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Matéria de Mariana Gonzalez publicada originalmente no site da revista Veja | 20/01/17

Galeristas lançam nova feira, a Semana de Arte, em São Paulo

Os galeristas Thiago Gomide (da galeria Bergamin & Gomide) e Luisa Strina e o crítico Ricardo Sardenberg organizam a feira marcada para agosto com apenas 35 galerias. +

No saturadíssimo calendário das feiras de arte, existe o "supermercado e a delicatéssen". Thiago Gomide, um dos sócios da galeria Bergamin & Gomide, usa essa comparação para descrever como ele espera que seja a mais nova feira de arte do circuito paulistano.
Marcada para agosto do ano que vem na Hebraica, a Semana de Arte, liderada por ele, pela galerista Luisa Strina e pelo crítico Ricardo Sardenberg, está sendo pensada como uma espécie de butique de obras finas, para poucos e bons.
Serão só 35 galerias, o equivalente à nata das casas que se destacam em meio à fúria de grandes eventos como a Art Basel Miami Beach, com quase 300 participantes, ou a SP-Arte, que bate em quase 200.
Essa ideia de clube VIP, aliás, também vai se aplicar à seleção do elenco. Não haverá um processo do qual galerias peçam para participar, como costuma acontecer. Elas serão convidadas a entrar, tal qual as boates selecionam os melhores looks na entrada.
Também vão precisar de aprovação sobre o que levar, já que a ideia é garantir certa diversidade e equilíbrio entre obras modernas e contemporâneas, nacionais e de fora.
Strina e Sardenberg estão acostumados a exercer essa função. Ela, que já foi do comitê de seleção da feira de Miami, a maior dos Estados Unidos, é uma das marchandes mais poderosas do planeta. Ele, que atua como consultor do evento americano no Brasil, também tem certo peso, assim como Gomide, que em poucos anos transformou sua galeria numa referência do mercado de arte moderna.
Fortes, D'Aloia & Gabriel, Luciana Brito e Leme já confirmaram presença na Semana de Arte, de acordo com Strina. A galeria Vermelho, também entre as maiores do país, já foi convidada, bem como as "principais galerias de São Paulo", ainda segundo Strina.
O evento será o primeiro sinal de concorrência a abalar a hegemonia da SP-Arte no cenário brasileiro, hoje a única feira com peso internacional no país depois de sucessivas crises da ArtRio. Mas Strina e Gomide dizem que não buscam competir com a feira criada por Fernanda Feitosa e ressaltam que vão continuar indo à SP-Arte.
Há ainda a disputa por atenção com outras feiras menores na cidade, entre elas a Parte, com obras a preços mais acessíveis, e a SP-Arte/Foto, o braço do evento de Feitosa dedicado à fotografia, também em agosto.
"Não vamos concorrer com nada", diz Strina. "Sempre vai haver mercado para isso. Será uma feira pequena, fechada, mais para colecionadores, sem grande público."
Entre as casas estrangeiras já convidadas estão a Sprovieri, de Londres, e a Neugerrimschneider, de Berlim. De acordo com Gomide, a mais nova feira brasileira tomou como inspiração a Frieze Masters, o braço de arte moderna da Frieze, de Londres, e a Independent, de Nova York, um dos eventos mais hypados do circuito global.
Ou seja, pretende combinar o ar sisudo dos corredores acarpetados sob luz indireta da feira londrina com o despojamento punk do evento americano, onde todas as galerias, tal qual ocorrerá na Semana de Arte, têm espaços do mesmo tamanho, sem uma hierarquia pautada pela metragem do estande.
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Texto de Silas Martí originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 06/12/16.

Sob gestão da nova diretora Isa Castro, MIS de SP seguirá o rumo que já trilhava

Ao deixar o MIS para assumir a Secretaria Municipal de Cultura na prefeitura de João Doria (PSDB), o cineasta André Sturm pensou a continuidade de sua gestão no museu. +

Ao deixar o Museu da Imagem e do Som para assumir a Secretaria Municipal de Cultura na prefeitura de João Doria (PSDB), o cineasta André Sturm pensou a continuidade de sua gestão no museu.
Indicou ao cargo Isa Castro, cineasta como ele e também sua amiga, que assume a casa após outros trabalhos na gestão tucana no Estado.
A proximidade indica que o projeto iniciado por Sturm no MIS há cinco anos não será interrompido. Os dois artistas se conhecem desde 1980, época em que Sturm estudava Administração de Empresas e tocava o Cineclube GV, sala que ela frequentou.
"Lançamos alguns curtas lá, e a partir daí o convidei para trabalhar comigo na CDI (Cinema Distribuição Independente), onde eu era diretora". Por indicação dela, Sturm tornou-se responsável pela área de curtas da CDI.
Ela recorda ainda as filmagens de "Arrepio" (1987), primeiro curta dele, que define como uma produção "quase caseira". "Até a mãe dele ajudou", relembra.
Salto
Com Sturm no cargo, o museu deu um salto de público. Em 2009, antes de Sturm assumir a direção, o MIS recebia 40 mil visitantes ao ano. Vieram as exposições superpopulares, como "Castelo Rá-Tim-Bum" (que sozinha atraiu mais de 400 mil pessoas), a do cineasta Stanley Kubrick e a do cantor e compositor David Bowie. Em 2016, o museu recebeu 446.499 visitantes, segundo divulga.
O desafio que Castro tem adiante é basicamente imprimir uma marca pessoal sem deixar a peteca cair.
Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, a nova diretora do museu afirma que dará sequência à programação fixa elaborada por seu antecessor.
Além das grandes mostras, essa programação contempla projetos como o Nova Fotografia -voltado para fotógrafos jovens e menos conhecidos - e o Dança no MIS, cuja curadoria, de Natalia Mallo, abarca o conceito de site specific, com obras criadas exclusivamente para serem executadas naquele espaço.
"Estou há pouco tempo, com Jacques Kann (diretor financeiro e administrativo do museu desde 2011), efetivamente na gestão do MIS, porém considero essencial a manutenção da programação plural e dinâmica que sustenta a vocação do museu em abranger um público diversificado", diz Castro.
Talvez a marca de Castro se torne mais evidente a partir de 2018, uma vez que Sturm deixou a programação deste ano já montada.
Entre as grandes exposições do museu, estão marcadas, para junho, uma mostra sobre Steve Jobs (1955-2011), cofundador da Apple, cuja trajetória se confunde com a evolução da tecnologia.
Para agosto, é a vez de Renato Russo (1960-1996), o líder da banda Legião Urbana, ser relembrado pela casa, com objetos pessoais e mais de 50 diários manuscritos "nunca exibidos ao público", conforme o museu divulga.
Celeiro
Castro viveu a época em que o MIS se tornou "celeiro" de artistas e cineastas.
Entre os filmes produzidos por ela que já passaram pelo museu estão "Tem Coca-Cola no Vatapá", de Pedro Farkas e Rogério Correa (1976) e "Janela da Alma", de João Jardim e Walter Carvalho (2001).
Ela também tem experiência como diretora: ao lado de Augusto Sevá realizou "A Caminho das Índias", documentário de 1979 sobre a descoberta de Trancoso, distrito de Porto Seguro (BA) por turistas e forasteiros.
Além de trabalhos no cinema, a nova diretora do MIS reúne experiências na gestão pública, junto à pasta da Cultura no Estado.
De 2007 a 2013, foi diretora-executiva da Associação Paulista dos Amigos da Arte, organização social responsável por gerir teatros estaduais, a Orquestra de Ópera do Theatro São Pedro, e a Jazz Sinfônica e Banda Sinfônica do Estado. Ela também produziu edições da Virada Cultural Paulista, entre outros programas públicos do governo.

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Texto de Gustavo Fioratti originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 17/01/17.
Na foto, Isa Castro. Crédito: Keiny Andrade / Folhapress.

As dez maiores aquisições de museus de 2016

O “The Art Newspaper” listou as aquisições, realizadas por instituições como o Prado e o Pompidou e passando por arte latino-americana e russa até o Renascimento italiano. +

Os museus competiram ferozmente por aquisições durante 2016, tanto em leilões quanto em negociações com colecionadores particulares. Instituições procuraram obter exemplares clássicos de mestres reconhecidos. O “The Art Newspaper” listou as aquisições mais importantes de 2016 segundo sua avaliação, incluindo uma casa com pedigree de Hollywood, uma coleção de modernismo latino-americano e um dos melhores retratos do Renascimento inglês.

Paul Getty Museum, Los Angeles
“Danaë”, de Orazio Gentileschi
O J. Paul Getty Museum pagou um recorde de US$ 30,5 milhões em leilão por esta pintura barroca de 1621. Outra obra da série de três partes, “Lot and His Daughters” (1622), está na coleção da Getty desde 1988.

Musée d’Orsay, Paris
Coleção de arte pós-impressionista
Os colecionadores norte-americanos Marlene e Spencer Hays enpenharam cerca de 600 obras pós-impressionistas de artistas como Pierre Bonnard, Edouard Vuillard e Odilon Redon. O presente é o mais importante que um museu francês recebeu de um estrangeiro desde 1945. O Musée d’Orsay prometeu exibir toda a coleção em um espaço dedicado a ela.

Museo del Prado, Madrid
“The Virgin of the Pomegranate”, Fra Angelico
Reforçando sua coleção de arte italiana do início do Renascimento, o Prado comprou esta pintura florentina do século 15 – uma das últimas grandes obras do artista em mãos privadas – do 19º Duque de Alba de Tormes. O aristocrata espanhol também doou outra obra renascentista que o museu recentemente atribuiu a Fra Angelico.

Centre Pompidou, Paris
Arte russa do século XX
Mais de 250 obras de arte russa e soviética da segunda metade do século XX foram doadas por um grupo de artistas e seus herdeiros, assim como pelo bilionário russo Vladimir Potanin e outros colecionadores particulares. As adições visam preencher as lacunas do “mapa do Conceitualismo internacional” do Pompidou, segundo o curador do museu, Nicolas Liucci-Goutnikov.

Victoria & Albert Museum, Londres
Coleção da Royal Photographic Society
Num movimento controverso, mais de 400.000 fotografias alojadas no National Media Museum (NMM) em Bradford, no Reino Unido, foram transferidas para o Victoria & Albert Museum. A coleção inclui daguerreótipos, álbuns e câmeras, muitos da coleção Royal Photographic Society. A transferência foi justificada para “criar a maior coleção do mundo sobre a arte da fotografia” em Londres, mas políticos locais a descreveram como uma “violação cultural” de Bradford.

Royal Museums Greenwich, Londres
“Retrato da Rainha Elizabeth I”
Este retrato de Elizabeth I (c. 1590) foi adquirido pelo Royal Museums Greenwich depois de uma captação de recursos de £ 10.3m. Pintado por um artista desconhecido para marcar a vitória da Inglaterra sobre a Armada Espanhola, o trabalho é considerado uma obra-prima do Renascimento inglês. Está em exibição na recentemente renovada Casa da Rainha, construída no local do palácio onde Elizabeth I nasceu.

Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf
Arte minimalista e conceitual
O museu do estado de Düsseldorf começou as negociações para adquirir a coleção de Dorothee e de Konrad Fischer em 2009. A negociação – metade compra e metade doação – foi finalmente concluída em 2016. A coleção de mais de 200 obras de artistas como Dan Flavin, Bruce Nauman e Sol LeWitt expandirá dramaticamente o acervo de pintura americana pós-guerra, arte conceitual e minimalismo do museu.

Philadelphia Museum of Art
Arte americana
A herança do filantropo e colecionador de arte Daniel W. Dietrich II inclui mais de 50 obras de arte americana de Cy Twombly, Philip Guston e Agnes Martin, além de uma doação de US$ 10 milhões para apoiar programas de arte contemporânea. “Road and Trees” (1962), de Edward Hopper, a primeira pintura do artista americano a entrar na coleção, complementa o amplo acervo do museu das obras gráficas de Hopper.

Museu de Arte Moderna, Nova York
Doação de arte latino-americana
O MoMA consolidou sua posição como um dos principais centros de estudo da arte latino-americana, com esta doação de 102 obras modernas de artistas brasileiros, venezuelanos, argentinos e uruguaios vindos de Patricia Phelps de Cisneros e Gustavo Cisneros. O casal também endossou um novo instituto de pesquisa no museu dedicado à arte latino-americana.

Los Angeles County Museum of Art
Casa de James Goldstein
Esta casa modernista próxima a Beverly Hills, projetada por John Lautner, é o primeiro trabalho de arquitetura a entrar na coleção do museu. A casa, de propriedade do excêntrico investidor imobiliário James Goldstein, foi destaque no filme dos irmãos Coen, em 1998, “The Big Lebowski”. Goldstein vai doar a propriedade e seu conteúdo, bem como uma cifra de US$ 17 milhões após a sua morte.

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Texto originalmente publicado no site “Touch of Class” (www.touchofclass.com.br).
Na foto, “Triptych Malevich-Marlboro” (1985), do russo Alexander Kosolapov.

A era das “galerias-museus”

Transformação no sistema internacional da arte na última década aponta para uma reconfiguração da relação entre a produção, o mercado e as instituições artísticas +

Estamos assistindo a uma enorme transformação no sistema internacional da arte na última década. Fala-se em uma reconfiguração da relação entre a produção, o mercado e as instituições artísticas. Os Estados Unidos são apontados como modelo de como esse sistema se comporta e, de fato, ao fazer um rápido panorama da situação norte-americana hoje, percebemos o quanto ela é sintomática de uma tendência à financeirização e à especulação da arte. Essa tendência parece cooptar as instituições artísticas, os museus e começa a inverter o papel do museu de arte moderna e contemporânea. Um dos sintomas dessa inversão é o novo modelo de galeria de arte. Um caso exemplar é o da recém-inaugurada sede da famosa Hauser & Wirth no centro de Los Angeles, na Califórnia (em franco processo de gentrificação).

Num momento em que a grande metrópole da Costa Oeste dos EUA ameaça roubar o brilho de sua irmã do Leste (Nova York), com a expansão do seu chamado Arts District – que hoje começa a se estender para grandes galpões industriais, antes abandonados, do outro lado do Los Angeles River –, a galeria suíça, fundada em 1992, uniu-se em sociedade ao ex-diretor do Museum of Contemporary Art (MoCA), Paul Schimmel, para implantar sua sede ali. Ao mesmo tempo, a Hauser & Wirth prepara-se para “mudar de casa” em sua sede nova-iorquina, ocupando até o ano que vem os espaços do antigo DIA Center, na região de Chelsea.
Para a inauguração da sede de Los Angeles, em março de 2016, Paul Schimmel convidou a também historiadora da arte Jenni Sorkin para conceber uma exposição que reunisse apenas artistas mulheres, que nos últimos 70 anos dedicaram-se à escultura abstrata. Nos espaços de 2 mil metros quadrados de uma antiga fábrica produtora de trigo reformada com a consultoria de arquitetos renomados, a exposição Revolution in the Making: Abstract Sculpture by Women, 1947-2016 apresenta obras históricas de artistas mulheres consagradas ao longo da segunda metade do século 20, ao lado de artistas contemporâneas também consolidadas e de fama internacional. Até aqui, nada de muito surpreendente, se pensarmos na lógica do mercado internacional de arte hoje – ainda que alguns críticos considerem surpreendente o fato de a galeria privilegiar artistas mulheres dentro desse contexto. Mas sabemos que essa tem sido uma estratégia do mercado de criar “novidades”. Curiosamente, nesse caso, apenas 20% das obras em exposição estavam disponíveis para venda, pois o restante foi emprestado de museus norte-americanos (tais como o Whitney Museum, de Nova York, e o próprio MoCA de Los Angeles). Além disso, a galeria está no auge de suas aquisições de espólios de artistas contemporâneos, dentre eles a recente incorporação do Projeto Lygia Pape, artista que é objeto da mostra em cartaz na galeria neste exato momento (setembro de 2016).
O que surpreende é o fato de entrarmos num espaço que, além de se assemelhar a uma área de museu, usa das estratégias do museu de arte contemporânea para se legitimar. A mostra é acompanhada de um catálogo primoroso, com ensaios curatoriais encomendados a estudiosos reconhecidos – o que certamente fará dele documento importante para quem vier a estudar o assunto no futuro. Tudo isso acompanhado de um espaço com equipamentos museológicos: a monitoria das salas, a livraria (que, em seu press release, a galeria orgulhosamente apresenta como “a primeira casa especializada em livros de arte de Los Angeles”) e um restaurante. Por fim, a mostra teve seis meses de duração, e este será o padrão adotado pela Hauser Wirth & Schimmel para seu programa de exposições.

Situada num circuito que envolve o próprio MoCA e sua extensão (o Geffen, que no primeiro semestre abrigava uma mostra muito inteligente sobre a produção contemporânea dos anos 1990), e museus como o também recém-inaugurado Broad Museum (outro sintoma dessas inversões do sistema da arte), a galeria se abre para um público mais amplo do que aquele, muito seleto, que frequenta o espaço tradicional de uma galeria. Mas ele se distingue muito daquele que hoje vemos nos museus norte-americanos, fruto de um franco processo de massificação do museu de arte, e para quem o que se mostra também é massificado. Estaríamos num processo de substituição da função do museu de arte contemporânea pela da galeria comercial? Qual a finalidade desse processo, em que as instituições públicas e de interesse público parecem relegadas ao segundo plano, e vemos a criação de galerias a quem são entregues os legados da produção artística atual? É nelas que se desenha, a partir de agora, a narrativa da arte do século 21? Terão elas o compromisso de documentar essa história?

Não se trata aqui de discutir o mérito da curadoria da exposição apresentada, nem tampouco das obras e artistas – que eram excepcionais. Mas, nesta nova configuração do sistema das artes, seria fundamental discutir o que se espera de um museu de arte contemporânea.
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Texto de Ana Magalhães publicado originalmente na revista Select | 21/12/16.

Galerias de arte de NY fecharão as portas em protesto contra Trump

Greve está sendo convocada para o dia da posse do presidente americano, dia 20/1. Mais de 100 galerias participam da ação. +

Com a hashtag #J20artstrike, várias galerias de arte nova-iorquinas estão marcando uma greve coletiva para a próxima sexta-feira, dia 20 de janeiro, quando pretendem fechar as portas para protestar contra a posse do presidente eleito Donald Trump.

Organizada em solidariedade às organizações Women Strike, #DisruptJ20, Ungovernable 2017, Disability March e Women’s March on Washington, o movimento envolve mais de 100 artistas visuais, curadores e galeristas, que assinam o manifesto publicado no site homônimo. Entre as assinaturas, estão as galerias White Columns, Smack Mellon, Alexander Gray Associates, Andrew Kreps, bit forms gallery, Canada, Cheim & Read e Essex Street, além das artistas Cindy Sherman e a ativista cubana Tania Bruguera.

Além da convocação da greve, o manifesto do #J20artstrike convoca espaços artísticos para a greve do J20 (20 de Janeiro), detalha que a ação é só o começo de um luta que “permanecerá como faróis de ingovernabilidade à medida que a escuridão da era Trump recai sobre nós”. O texto diz ainda que “este chamado não é só para o campo da arte. É feito em solidariedade com a demanda nacional que, em 20 de janeiro, os negócios não devem acontecer como de costume.”

Outro trecho diz: “Consideramos o #J20artstrike como uma tática, entre outras, para combater a normalização ao Trumpismo – uma mistura tóxica de supremacia branca, misoginia, xenofobia, militarismo e domínio oligárquico. Como qualquer tática, esta não é um fim em si mesma, mas, sim, uma intervenção que se ramificará no futuro. Não é uma greve contra a arte, o teatro ou qualquer outra forma cultural. É um convite para motivar essas atividades novamente, para re-imaginar esses espaços como lugares onde formas resistentes de pensamento, visão, sentimento e ação podem ser produzidas”.
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Matéria publicada originalmente no jornal O Globo | 14/01/17